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quinta-feira,
8 de dezembro de 2016
Atualizado em: 19/11/2016
     
Monitor das Fraudes
Teoria Geral da Fraude e Fatores Psicológicos




Como acontece na maioria dos crimes, as fraudes podem ser explicadas pela coexistência de três fatores primários:

1 - A existência de golpistas motivados.
2 - A disponibilidade de vítimas adequadas e vulneráveis.
3 - A ausência de regras, "guardas" ou controladores eficazes.

No caso específico do Brasil (mas podem acreditar que vale, por uma razão ou outra, também para muitos outros países, inclusive do “primeiro mundo”) isso se concretiza, gerando um ambiente propício as fraudes, principalmente em função dos seguintes fatores e condições concomitantes:

1 - Existência de Golpistas Motivados: carência de alternativas para determinadas classes sociais, ineficiência das leis, incerteza da pena, incerteza jurídica, sistema financeiro evoluído, existência de inúmeras oportunidades, pouca fiscalização, pouca organização das autoridades em nível nacional, desrespeito as leis encarado como comportamento comum (inclusive em função dos exemplos em nível de governo).

2 - Disponibilidade de vítimas adequadas e vulneráveis: pouca informação e divulgação preventivas, necessidade em muitos setores (capital nas empresas, crédito nas classes baixas...), ignorância e ingenuidade difusas, ganância come valor cultural difuso, desrespeito as leis encarado como comportamento comum (inclusive em função dos exemplos em nível de governo).

3 - Ausência de regras, "guardas" ou controladores eficazes: percepção do problema como não prioritário, despreparo e pouco treinamento específico das autoridades de polícia, escassa coordenação em nível nacional de ações contra fraudadores, falta de leis específicas e pouca clareza em algumas das existentes, falta de organismos dedicados à luta contra estes fenômenos.


Alavancas

Lobo em pele de Cordeiro Um princípio básico e muito frequente na elaboração de uma fraude é desfrutar a ganância das pessoas que sonham em obter muito dinheiro (ou outras vantagens) sem os correspondentes esforços e riscos. Esta é uma equação que infelizmente não existe, a não ser para os ganhadores de loterias. Estes últimos, aliás, estão sujeitos a um risco elevadíssimo sendo que numa loteria você troca uma perda total muito provável (o preço do bilhete) por uma possibilidade muito remota de ganhar um valor elevado (o prêmio).

Uma exceção são as fraudes tecnológicas onde o que se desfruta são, sobretudo, os escassos conhecimentos técnicos da pessoa média. Um caso típico é representado por boa parte das várias fraudes através da internet, nas quais se captam dados sigilosos das vítimas (para depois usá-los em fraudes ou roubos) desfrutando do pouco conhecimento tecnológico das mesmas ou de outras armadilhas tecnológicas. Outros exemplos se encontram nas fraudes envolvendo cartões de crédito.

Existem ainda algumas outras "alavancas" psicológicas ou "fraquezas" das vítimas que são exploradas e aproveitadas pelos golpistas na elaboração de seus esquemas. Muito comum, por exemplo, é a exploração de fraquezas ligadas à "necessidades" (de dinheiro, de assistência, de serviços...etc.).

Em síntese as principais alavancas sobre as vítimas, usadas pelos fraudadores são:

1 - Ganância e Vontade de fazer "Dinheiro Fácil".
2 - Ignorância (Tecnológica, Operacional, Legal, Comercial etc...).
3 - Gostinho do "Ilegal" e do "Proibido".
4 - Gostinho do "Misterioso" e do "Exclusivo" ou "Inédito".
5 - Irracionalidade e tendência a negar as evidências para perseguir um sonho.
6 - Ingenuidade, Credulidade e Escassa Atenção.
7 - Necessidade e Outras Pressões/Urgências.

Todas as fraudes são baseadas no aproveitamento sem escrúpulos de uma ou mais destas frequentes "características" ou "condições" humanas.


Técnicas e Fatores Psicológicos

Segundo alguns psicólogos e espertos internacionais, e eu compartilho esta visão, outros importantes fatores psicológicos e técnicas utilizadas pelos golpistas são:

1 - Reciprocidade. É a teoria que diz que se eu fizer algo para você, você irá se sentir obrigado a fazer algo para mim. O golpista se apresentará como muito prestativo e pronto a ajudar em tudo para que a vítima fique lhe "devendo uma" e assim tenha mais dificuldade em dizer um "não".
2 - Escassez. Sobretudo a falta de tempo para decidir (alegando que uma determinada oportunidade é por tempo muito limitado ou que tem algum prazo a ser respeitado) é um fator muito usado para pressionar vítimas. Mas também existem fraudes envolvendo "limites" de vagas, de montates disponíveis para financiamentos, de produtos em promoção...
3 - Autoridade. Muitas pessoas ficam cegas quando pensam estarem lidando com autoridades. Por isso os golpistas muitas vezes alegam serem ligados a órgãos ou entidades públicas que lhe confeririam poder, ou se apresentam com cargos altissonantes.
4 - Fixação em fantasias. Esta tática visa fazer com que a vítima fique tão fixada em um determinado fantástico "prêmio" ou benefício que acabe perdendo a capacidade de pensar objetivamente. Por isso o golpista insistirá em evidenciar e concentrar a atenção sobre os supostos grandes benefícios que esperam a vítima.
Muito interessante, neste sentido, o conceito de "miopia em face do desastre" que vi definido pelo economista Andrew G. Haldane, então diretor do Banco da Inglaterra, num estudo sobre a crise internacional em 02/2009, e mencionado por Maílson da Nóbrega na revista Veja de 11/03/2009. Representa a propensão humana a subestimar a probabilidade de eventos adversos, especialmente do tipo ocorrido no passado ou em situações distantes.
5 - Prova social. Muitos golpistas alegam (sem porém fornecer provas convincentes) que o que eles estão propondo já foi feito por muitas pessoas ou empresas, criando assim a idéia implícita que a coisa deve ser boa se tantos assim a fizeram supostamente com sucesso.
6 - Semelhança e simpatia. Alguns golpistas tentam saber mais sobre as próprias vítimas, antes do primeiro encontro, para ter uma chance de criar um sentimento ou clima de amizade e/ou semelhança. O objetivo é de transformar a relação de "formal" para "entre amigos" pois é mais dificil recusar a proposta de um amigo.
7 - Terceirização de credibilidade. Outra técnica muito utilizada consiste em convencer primeiro alguma pessoa com credibilidade (freqüentemente um profissional respeitado), eventualmente mentindo e sempre sem aplicar o golpe nele, mas tentando fazer com que ele acredite que se trate uma coisa boa. Aí este terceiro virará garoto propaganda dos golpistas e as vítimas acreditarão mais facilmente nas conversas destes por serem apresentados/referenciados por aquela pessoa "confiável".
8 - Autenticação por associação. Consiste em fazer algo parecer autêntico, mesmo não o sendo, através da associação ou apresentação conjunta com outros elementos confiáveis ou comprovadamente autênticos. Isso vale por exemplo para um documento falso que, quando apresentado em conjunto com outros documentos verdadeiros e confiáveis, pode acabar sendo aceito como também autêntico. Ou um testemunho ou uma informação falsa, que, quando misturada ou apresentada em associação a outras informações verdadeiras, confiáveis e confirmadas, pode vir a adquirir status de “verdadeira”. Os contra-espiões de todas as épocas sempre misturaram várias informações verdadeiras com algumas falsas, para que estas ultimas fossem aceitas e assim atingissem seus objetivos.

Uma outra estratégia psicológica recorrentemente desfrutada nas fraudes é o "Envolvimento da vítima por Etapas Sucessivas", cada uma comportando um modesto investimento (em tempo, ações, contatos, viagens, dinheiro, imagem, referências, comprometimentos etc...) por parte da vítima.
Isso porque quem já investiu alguma coisa sempre estará muito mais disposto a continuar no jogo para não perder o que já investiu, mesmo se e quando aparecerem, no caminho, situações duvidosas, maiores investimentos a fazer, nova exigências ou novos obstáculos a superar. Portanto os golpistas mais habilidosos nunca pedirão dinheiro no início ... eles apresentarão boas oportunidades e facilidades, vislubrarão grandes benefícios e farão com que você invista tempo e dinheiro no negócio, por exemplo pedindo que você os visite no exterior ou que você faça alguma coisa no seu país que comportará tempo e custos (mas que deixará você tranqüilo sobre as intenções deles por não serem custos destinados a eles).

Imaginem a situação: uma pessoa recebeu uma proposta, digamos de financiamento (caso clássico), viajou para os EUA (gastando o dinheiro da passagem) para discutir o assunto, recebeu um monte de papéis e requerimentos, foi atrás de tudo (gastando dias e dias de tempo) envolvendo o contador, o advogado, o cartório, os amigos, os bancos etc... falou disso com várias pessoas e pediu a todos algum tipo de ajuda, depois foi atrás dos documentos "necessários" gastando mais dinheiro pelas certidões e mais tempo para consegui-las. Nesta altura ele estará pronto para receber a informação que a liberação do financiamento, "que já foi aprovado", depende agora do pagamento de alguma coisa (um seguro, uma taxa, um imposto, os custos do contrato ou do advogado ou sei lá o que mais)... na cabeça dele, mesmo com alguns ou, até, muitos indícios que se trate de uma fraude, não terá alternativa se não se arriscar mais um pouco e pagar para receber o suposto financiamento (afinal no caso contrario ele terá perdido todo o tempo e dinheiro gasto até aí, sem contar a péssima figura com todos os que envolveu etc.)... e a fraude terá tido êxito esperado !!

A seguir um esquema sintético das etapas num clássico processo de fraude:

Etapas clássicas num processo de fraude


A importância das Informações

O economista Steven Levitt, no seu celebre livro "Freakonomics", expõe de forma bem clara e coordenada alguns outros interessantes conceitos e fatos:

1) A assimetria das informações, é a situação na qual uma parte (normalmente um "especialista") detém informações relevantes que a outra parte não tem, e usa estas informações em sua vantagem. Em alguns casos a assimetria de informações é resultado da simples sonegação de informações relevantes por parte do "especialista".
2) A assimetria das informações pode ser usada (e freqüentemente o é) para gerar pressão na parte menos informada, normalmente através do uso de várias formas de "medo" ou insegurança.
3) Na base de boa parte das fraudes existe uma situação de assimetria de informações onde o golpista detém informações relevantes que a vítima não tem (e infelizmente não busca, por ingenuidade, ganância, necessidade etc...), e se aproveita desta posição de superioridade para aplicar o golpe.

Esta última afirmação é muito interessante e com certeza compartilhável, levando obviamente em conta que o conceito de "assimetria de informações" deve ser interpretado de forma bem ampla e flexível.

É um fato indiscutível que quem está melhor informado mantém uma vantagem estratégica considerável sobre seus adversários. O General Sun Tsu, na China de 2500 anos atrás, já sabia disso e por isso recomendava o uso extensivo de espiões para coletar sistematicamente maiores e melhores informações sobre o inimigo, antes de enfrenta-lo. Todos os grandes estrategistas depois dele também aplicaram este conceito de base. Julius César, Saladino, Maquiavel, Napoleão ... todos eles desenvolveram seus sistemas para conseguir estar sempre um passo a frente dos adversários no que dizia respeito as informações possuídas.

No caso dos golpistas não é diferente, os bons golpistas sempre procuram saber tudo o possível sobre sua vítimas, de preferência sem que estas percebam. Também costumam ser bem informados nos assuntos que irão enfrentar conversando com as vítimas, de maneira a manter permanentemente uma superioridade estratégica que lhe facilite alcançar seus objetivos.

Qual é uma das melhores armas que as potenciais vítimas tem para se defender desta estratégia ? Obviamente fazer o mesmo, ou seja se informar e verificar tudo o que for proposto e conversado em encontros com pessoas desconhecidas. Aprofundar os assuntos, verificar as referências e não acreditar em qualquer pessoa, afirmação ou proposta somente porque parece "verdadeira". Tente sempre eliminar a "assimetria das informações" a favor dos golpistas, e enfrentar qualquer situação numa condição de, no mínimo, "paridade de informações".

Este site nasceu justamente da profunda convicção, por parte do autor, da importância fundamental da prevenção e em particular da função essencial da informação preventiva, disponível e difusa, como melhor arma contra os golpes.
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