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terça-feira,
6 de dezembro de 2016
Atualizado em: 19/11/2016
     
Negócios Furados e Perdas de Tempo
As Toneladas de Ouro para vender




Este negócio circula há anos no mundo todo ... já o encontrei na Itália, na Suíça, na França, na Holanda, no Uruguay, nos EUA e em vários outros países ... o Brasil, que aliás é produtor de ouro, obviamente não é imune !!
É importante ressaltar que tais negócios muito raramente podem acontecer realmente mas, quando verdadeiros, tem normalmente características bem diferentes das propostas aqui descritas.

Tenho, por coincidência, contatos diretos com reais compradores de ouro (grandes operadores do setor, reconhecidos mundialmente) que me explicaram como funciona o mercado e quais são as condições mínimas indispensáveis para fechar negócios reais de compra/venda de ouro. Estas condições não são as que normalmente aparecem.

Na prática alguém o contata dizendo que tem acesso a uma mina ou a um consórcio de garimpos ou a alguma outra fonte fornecedora de dezenas ou centenas de quilos de ouro (por mês ou até por semana), às vezes a proposta envolve um único lote de várias toneladas (disponível na mina ou depositado em algum banco, sobretudo na Suíça), e que quer vender o tal ouro com um desconto de X% sobre o preço oficial, que é normalmente o do segundo pregão da LME (London Metals Exchange - Bolsa de Metais de Londres) ou do LBMA (London Bullion Market Association). Obviamente parte de tal desconto virará comissão para os envolvidos...
O suposto vendedor diz que para finalizar a operação precisa de uma LOI (Letter Of Intent), de um contrato de compra e venda assinado e de uma carta de crédito (Letter of Credit ou LC) condicionada que garanta o pagamento do ouro uma vez entregue.
Os contratos e as ofertas estão cheias de termos técnicos e siglas típicas do mercado de ouro (Bullion=Barra, "Good Delivery"=marca de qualidade reconhecida internacionalmente ... etc.).
Obviamente os proponentes não querem ou não têm a menor condição de fornecer uma evidência verificável e válida da real existência e disponibilidade do tal ouro e nem da propriedade e capacidade produtiva da suposta mina de onde o ouro seria extraído.
Para isso alegam uma série de excelentes desculpas que vão do sigilo profissional até problemas de segurança. Eles, porém, exigem um contrato assinado pelo comprador alegando que caso não entreguem o ouro não terá nenhum problema porque a carta de crédito simplesmente não será paga e o contrato poderá ser revogado ou anulado.

Isso é "papo furado" ... a razão principal para a qual este pessoal quer a carta de crédito e o contrato assinado por um comprador internacional de renome é, normalmente, para depois sair buscando um banco, uma instituição qualquer ou um "tonto" particular que desconte a tal carta de crédito ou a use como lastro/garantia para antecipar algum dinheiro aos golpistas, que contarão um monte de história e usarão a LC como forma de ganhar credibilidade ... depois eles dão o calote e quem assinou o contrato de compra e/ou emitiu a carta de crédito (juntamente com o banco dele) fica com a dor de cabeça de ter que explicar a quem tomou o calote porque não quer pagar o estabelecido no contrato e porque a carta de crédito não pode ser sacada.

Por esta razão, hoje em dia, todos os compradores internacionais de ouro sérios não emitem cartas de crédito a favor de desconhecidos sem antes ter profundamente verificado a origem e disponibilidade real do ouro e, em muitos casos, mesmo depois de verificados estes aspectos, eles só pagam contra entrega do ouro no local determinado assinando um contrato e comprovando os fundos, mas sem emissão de carta de crédito ou, menos ainda, adiantamento de valores.

Só para dar uma idéia de volumes reais saibam que a produção mundial de ouro no ano 2000 (a média anual nunca muda muito de um ano pro outro) foi de 2.580 toneladas, já no Brasil a produção total no mesmo ano foi de 53 toneladas.
Vale dizer que é sabido que existe, no Brasil, uma consistente extração de ouro por garimpos ilegais e portanto não registrados. É muito difícil quantificar tal produção ilegal que, porém, segundo estimativas de profissionais do setor, não chega a ultrapassar a produção oficial e é extremamente fragmentada, tanto geograficamente quanto de um ponto de vista das operações de extração, e portanto não administrável de forma consolidada por qualquer individuo ou organização.
De toda maneira, mesmo que existisse alguém com acesso de forma consolidada (ou seja juntando varias fontes) a tal ouro de garimpos, extraído ilegalmente e portanto fora das estatísticas oficiais, este alguém não poderia oferecer as condições de venda normalmente propostas (com LOI, contratos e LC etc..) pois estas pressupõem uma venda legal, com contratos, pagamentos de impostos, internação legal do dinheiro do pagamento por meios bancários (a LC é um instrumento bancário) etc... coisa impossível de se fazer com ouro ilegal, não declarado e sem origem.
Um dado interessante, sobre extração em garimpos ilegais, vem do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) segundo o qual de 1980 a 1990 cerca de 41 toneladas de ouro (ou seja em média 4 toneladas por ano) foram extraídas do famoso garimpo de Serra Pelada (PA), onde trabalhavam dezenas de milhares de garimpeiros (chegaram a ser 80.000).
Outro dado interessante, como referência, são os números das operações do grupo multinacional AngloGold. A AngloGold é uma seriíssima multinacional especializada na exploração e extração de ouro e opera em oito países. No Brasil eles operam 3 grandes complexos minerários que compreendem 4-5 minas de ouro. A produção total do grupo no Brasil é de aproximadamente 13-14 toneladas por ano (ou seja pouco mais de uma tonelada por mês). Para tanto eles empregam um total de aproximadamente 3.000 funcionários, operando equipamentos de alta tecnologia e com investimentos multimilionários.
Se algum desconhecido dizer que pode fornecer uma ou duas toneladas de ouro por mês (como já vi aconteceu várias vezes) extraído de alguma mina no Brasil, lembre-se que isso quer dizer que ele deveria ser responsável por uma produção de 12 a 24 toneladas de ouro por ano, ou seja de 22,5% a 45% da produção nacional total, e que representaria operações envolvendo alguns milhares de funcionários e investimentos comparáveis, no mínimo, aos da multinacional AngloGold !! Julguem vocês se e quando isso pode ser verdade ...

Existe ainda uma variante onde tais operações são na realidade usadas dentro de mais amplas operações de lavagem de dinheiro, usando os altos valores dos contratos de compra e venda e/ou das cartas de crédito, para justificar movimentações de dinheiro ou para dar origem a dinheiro sujo. Não precisa dizer que isso é ainda mais perigoso !
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