Ano 5, Número 37
23 de julho de 2010
Busca:
Outros Números:
Ano 5, Número 37
Menu Site


Magia e Razão na Literatura

Grumary


“Não cuide encontrar Deus, Natanaël, senão por toda parte.”
                                                 André Gide



                                         Grumary
                                                    Por Edevaldo Filho

   

           Muito antes dos milhares de porta-malas sonoros e milhões de watts r.m.s. de potência espalhando mau-gosto e grosserias de alta-freqüencia; antes dos assaltos, flanelinhas, congestionamentos e da massa motorizada entupir tudo com plásticos, cacos de garrafas de cerveja, antes, ainda, da “ reforma” da Prefeitura, do carro acidentado que caiu da ponte ficar anos se decompondo, poluindo de sujeira, ferrugem, óleos e ácidos variados o nosso Rio Negro, e antes, quem sabe, que daqui a pouco os lastros dos navios petroleiros e o produto das plataformas do pré-sal acabem com o que resta, a cidade do Rio de Janeiro tinha um lugar, o último refúgio de homens e animais em busca de paz e vida, sua última e única jóia rara de inestimável valor à beira do Mar Oceano. Mas vamos à estória, lá atrás.

          Em 86, no Século passado, portanto, o Grumary era um lugar adorável. Céu, montanha e mar; praias lindas, selvagens, de onde se avistava duas ilhas próximas. Com os filhos pequenos, éramos todos meninos enxergando o mundo pela primeira vez. Era uma delícia nadar naquelas águas, tomar sol na areia junto às pedras, ninho dos bichos, das aves marinhas e dos pescadores com seus caniços e samburás, ou então ver e ouvir respeitoso o espetáculo do mar em fúria nos dias de arrebentação. Outras vezes ficávamos próximos à foz de um pequeno rio, que vinha das montanhas ali de trás que  fantasiávamos como A Cordilheira,ele reproduzia nas várias épocas do ano, em pequena escala e com enorme precisão, todos os fenômenos naturais, até mesmo as pororócas dos grandes rios amazônicos. O riozinho como um pequeno Rio Negro de águas escuras e límpidas, chegava na praia passando por debaixo de uma ponte da estrada acima.  Por trás dela, se abria numa lagoa rasa, cuja profundidade variava conforme o tempo, as estações do ano, as marés, e era parte da imensa restinga coberta da luxuriante vegetação local. Em baixo da ponte, seu leito de pedras e areia era a morada de enormes pitús, girinos, sapos, cardumes de pexinhos, carangueijos e siris; muitas vezes vimos pacas, capivaras, e as pegadas de muitos outros bichos do mato denunciavam a sua presença. Por algum tempo, havia um jacaré que se aquecia ao sol e sumia diante do alarido das crianças causando dúvidas sobre a sua existência. Um dia, todos juntos, chegamos a vê-lo por alguns instantes. Sim, ele era real, assim como todos os sonhos de então.

          Naquele pedaço do paraíso, a alguns minutos da nossa casa de Vargem Grande, eu o conheci. Já muito idoso, vinha amparado por seu chofer Sebastian, negro forte e polido, que depois de o instalar na areia, voltava para o carro  estacionado ao longe, de onde ficava tranqüilo lendo livros; antigas e belas capas, títulos sempre sóbrios, variados, “À La Recherche Du Temps Perdu,” ou um tratado de Kyudô, a Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, de Herrigel, velha e preciosa primeira edição alemã de 1948; dali, discretamente observava o seu patrão. Monsieur Cordelier, assim que o chamavam, era alto, de ossatura grande e longa que talvez o fizesse parecer mais magro do que realmente era; faces muito vermelhas ao sol, cabelos bastos e brancos, sua figura me fazia lembrar o Tolstoy de Astapovo, sem barbas. Muito culto, poliglota, depois de correr  o mundo diversas vezes, “de Puerto Williams a Nordkapp”, resolvera parar no meio do caminho vivendo no Rio, há mais de 20 anos.

          Jean Louis Cordelier nascera em 15 de Setembro de 1.894, no alto da colina de Montmatre. Ainda posso me ver naquele jardim, dizia ele, que agora está cercado de prédios horríveis de seis andares. De um lado existia um campo e as vacas de uma pequena fazenda onde se comprava o leite. Do outro lado as encostas cobertas por roseiras selvagens, que um dia talvez fossem cultivadas antes de voltar ao estado de sua natureza. No meio desse jardim abandonado havia cabanas de madeira e pessoas extraordinárias, que por sua vez, também cultivavam rosas. Era o que se chamava de “maquis”, um mato habitado.

          Ah! Mon Ami! As lembranças...sempre falta a essência, o elemento vivo. Por serem extáticas, fixas, frias e longínquas elas nunca conseguem captar o concreto de uma realidade, apenas o seu cadáver, o corpo sem alma de uma experiência.

          Em Londres no ano de 1935, conheci meu amigo Alan que era um pensador de valor inestimável. Era muito jovem e estava extremamente feliz, nasceu no interior, em Chislehurst, no condado de Kent, estava ali trabalhando com o pai num escritório. Ele dizia que nós somos como as moscas presas no mel. Mas como a vida é doce, não queremos abrir mão dela, então, quanto mais nos deixamos envolver, mais presos e limitados ficamos e mais frustrados nos sentimos. Nós amamos a vida, mas também a odiamos ao mesmo tempo. Nos apaixonamos pelas pessoas, pelas coisas e somos torturados pela ansiedade que nos causam. Salvo logicamente as crianças e os  nossos amigos bichos. Esse conflito, para meu amigo Alan, não se dá somente entre nós e o universo que nos envolve, mas também entre nós mesmos, isso porque a natureza intratável está em nossa volta e no íntimo do nosso ser. Essa “ vida” exasperante, adorável e perecível, agradável e dolorosa, benção e maldição, é também a vida de nossos próprios corpos.

          Oui, Mon Ami! Alan acreditava que éramos divididos em duas partes. O “eu” que se considera um indivíduo razoável e está sempre criticando o “mim” por sua perversidade, por se deixar dominar por paixões que colocam o “eu” em dificuldades, por ser alvo fácil de doenças dolorosas e irritantes, por possuir órgãos que se desgastam, por ter apetites insaciáveis e de tal ordem que finalmente, quando se experimenta pô-los todos juntos, faz com que fiquemos doentes.

          Depois, vieram as sombras de mais uma guerra, meu Amigo Alan foi para a América e nunca mais nos encontramos. Nos falávamos assim...assim, naquele tempo telefone era bem difícil e as viagens, muitas. Soube que morreu em São Francisco, em 73, era o dia 16 de Novembro, o seu filho Jano me enviou um telegrama aos cuidados do Consulado. Vim para cá, no cair da tarde, o entardecer mais belo que eu já vi. Anoiteceu, o vento e a tempestade me fizeram pensar sobre a transitoriedade da vida humana, o caráter perecível e mutável do mundo que é parte essencial de sua natureza emocionante e admirável. Nessa hora, ouvi claramente a voz grave e compassada de Alan dizendo uma bela poesia que tanto gostava e era assim:

Nosso festim já terminou. Seus atores
Como bem lhe disse, eram todos espíritos, e
Se desvaneceram no ar, num ar muito fino:
E como o etéreo material desta visão,
As torres cobertas de nuvens, os palácios suntuosos
Os templos solenes, e até o próprio e grande globo,
Sim, tudo que se herdou se dissolverá,
E, como este festim imaterial se dissolveu,
Não deixará sequer ruínas.

          Um dia encontrei Cordelier em sua cadeira tomando o sol da manhã, olhava na direção do mar profundo e parecia sonhar. Acho que não percebeu a minha presença, pois continuava absorto em algum lugar do infinito. Setei-me ao seu lado na areia e fiquei ali, sob o bom sol daquele tempo, vendo as crianças brincar na praia, até que ele se deu conta de minha presença esboçando um sorriso.
      --- O que passa? Perguntei.
      --- Ah! Mon ami! Estou ficando velho, eis tudo.


( Vargem Grande-Rio, 21 de Julho,2010. )

 

Klaus Mann-A Vida de André Gide (A Crise do Pensamento Mod.)–Trad.Carlos Lacerda - O Cruzeiro,Rio
Jean Renoir- Escritos Sobre Cinema- Trad. A.B.Pinheiro Lemos-Ed. Nova Fronteira,Rio, 1990.
Alan W. Watts- A Sabedoria da Insegurança- Trad. Celso dos Santos Meyer- Record, Rio.


Imprima esta Página Enviar esta Página para um Amigo  
 Copyright ©, 2006-2010 - Jornal "O Monitor". Todos os Direitos Reservados. Página Principal  |  Assine / Atualize dados  |  Contate-nos  |  Perguntas e Respostas