Ano 5, Número 37
23 de julho de 2010
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Crônicas do Lisboa

Responsabilidade


 

          A criminalidade, a violência e os atos anti-sociais já não pertencem mais aos compêndios e aos especialistas porque estão no nosso dia-a-dia. Uma autoridade promete um policiamento especial para o verão violento no Rio de Janeiro, e eis que é recolocado em pauta o antigo debate que pretende localizar as causas determinantes da explosão de violência que sacudiu o mundo nas duas últimas décadas. Os diversos condicionamentos ideológicos e religiosos têm suas respostas prontas para o problema, o que é uma pena, porque não levam a parte alguma. A questão precisa ser examinada de um ângulo ainda não comprometido com uma filosofia rígida ou alguma verdade revelada.

          Os que atribuem a violência crescente à miséria, às injustiças sociais e a uma iníqua distribuição da riqueza no mundo ignoram o fato de que esses desequilíbrios - lamentáveis, indesculpáveis – coexistiram sempre com a paz, a dedicação e a democracia, onde estas existiram e prosperaram. Ignoram também que nos países de economia socialista as autoridades estão a braços com as mesmas dificuldades, embora sem as estatísticas honestas e a divulgação existentes nas grandes nações ocidentais. Os índices de violência eram incomparavelmente mais baixos que os de hoje, em sociedades onde os desequilíbrios sociais eram ainda mais gritantes que os atuais. A desorientação, a neurose coletiva, a agressividade inútil eram fenômenos imperceptíveis há meio século, sem essas características de epidemia que conhecemos agora.

          Os que atribuem a onda generalizada de violência à perda de valores morais e sociais que imperaram por muito tempo e começaram a morrer nos últimos tempos deixam de considerar que outras sociedades, ao longo da História, ignoraram muitos daqueles valores e nem por isso foram violentas. A perda daqueles conceitos ocorreu paralelamente ao crescimento da violência em toda parte. Além disso, pouco foi perdido com o desaparecimento de determinados preconceitos que se mantinham como valores insubstituíveis. Os fatos aí estão, à espera de observação tranqüila, não engajada em posturas prévias. Essa disponibilidade intelectual, que é uma forma de honestidade cada vez mais rara atualmente, é a única maneira razoável de abordar o problema imenso do aumento da violência no mundo.

          Em toda forma de relacionamento com o mundo – família, nação, coisas, animais, natureza – há uma reciprocidade, ou contato dialético, sem o qual se instala o desequilíbrio e a desarmonia. Essa troca natural abrange todas as atividades humanas, como não podia deixar de ser. Temos responsabilidades, uma vez que somos racionais. O desmoronamento de alguns mitos, a multiplicação das informações, a tensão permanente de viver num mundo dividido que pode voar pelos ares a qualquer momento, tudo contribuiu para que se perdesse a velha noção direito-dever, fundamento da permuta que caracteriza a civilização dos homens, diferenciando-os das formigas e das térmitas. O reconhecimento do outro como um semelhante nosso é apenas o começo. Como decorrência disso vêm outros reconhecimentos, como a da dignidade e da necessidade do trabalho, o da importância do esforço na obtenção de um resultado. Essas noções todas foram enfraquecidas ultimamente, e no lugar delas ficou um vazio imenso.

          A época é principalmente de irresponsabilidade. Um estranho distributivismo difundiu a idéia falsa de que basta existir para fazer jus a um salário. Vencer sem produzir tornou-se uma espécie de ideal generalizado que, embora não encontre confirmação em absolutamente nada, continua sendo difundido no mundo. Em toda parte a produção diminuiu e os gastos aumentaram, uma vez que alguém deve pagar as contas da improdutividade. Teriam conceitos psicanalíticos mal digeridos contribuído para a fabricação, principalmente na classe média, dessas miragens? O aumento acelerado da desintegração interpessoal – a convivência prolongada é cada vez mais difícil entre seres humanos – o abuso das drogas, o terrorismo, a angústia e a ansiedade são calamidades recentes, embora sejam males antigos.

          A conquista de direitos que durante séculos foram negados pode ter precipitado o homem moderno no excesso contrario, o de crer que o esforço é um castigo e o trabalho é uma pena. A hipertrofia do Estado é um fruto de uma certa filosofia segundo a qual o cidadão tem todos os direitos, cabendo ao Leviatã estatal apenas os deveres. Assim, o bem-estar acabará chegando a cada um de nós graças a uma misteriosa inevitabilidade que o tempo ficará encarregado de trazer – enquanto criticamos o grande provedor que tudo nos deve, em nome de algum direito impreciso. Ora, a liberdade – chamada em política de democracia – é exatamente o oposto disso, na medida em que exige de cada um responsabilidade. O esforço, o empreendimento, o planejamento desencadeiam respostas positivas – e é essa reciprocidade que torna o homem livre e feliz.

          Nunca as taxas de violência foram tão altas no mundo, nem foi tão flagrante o desejo de enriquecer depressa, mesmo entre os que ficam dentro dos limites da lei. A ânsia de usufruir o melhor no tempo de uma vida é a exacerbação de um desejo comum a todo homem. E é precisamente a mentalidade coletiva, em que estamos quase todos incluídos, que sofreu uma forte e acentuada deformação. A idéia comum de que temos direito a tudo, seja o que for e como for, é a origem desse impulso que impele para a violência. O drive parece obscuro aos nossos olhos porque estamos envolvidos demais para uma observação de fora. A criminalidade, a violência, os atos anti-sociais têm suas raízes – impossível dizer em que medida – principalmente aí. Onde levam, quando se multiplicam, estamos vendo todos os dias.








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