Ano 5, Número 37
23 de julho de 2010
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Filosofia Perene

Por acaso só há um modo de fazer justiça?


                                                          -I-
          Nos tempos do califa Harum-al-Rachid (séc. IX) governou a cidade de Bagdá o visir Abu Zaid al-Alasi (*), homem muito honrado por seu espírito de justiça. O cronista Iben Wahb refere alguns episódios de como o nobre visir exercia seu poder:

         -Uma mulher tinha sido espancada por seu marido e exigia reparação por este abuso. O visir determinou que o homem fosse igualmente espancado, mas por sua esposa. E assim se cumpriu. Nunca antes se tinha visto o predomínio da justiça sobre a tradição.

        -Um comerciante costumava alterar sua balança para assim lucrar ainda mais com suas mercadorias. Os acusadores era gente simples, que suavam para comprar seus modestos alimentos e roupas. Abu Zaid determinou que todos os pertences desse comerciante lhe foram confiscadas e repartidas entre seus clientes habituais. E assim foi feito.

          Mas numa destas sessões de justiça apareceu um homem já maduro, apoiado numa bengala, tateando o chão; ele falou:

         - Grande e nobre senhor, como pode apreciar eu sou cego; quando tina 9 anos num acidente de carruagem perdi meus pais e a vista. Meus pais eram pessoas corretas e eu era inocente. Tenho 36 anos e desde então me sinto profundamente injustiçado. Diga-me, meu senhor, a quem corresponde fazer-me justiça?

          Abu Zaid nunca se tinha deparado com uma reclamação desta natureza; tentou dissimular sua reação e não sabendo o que responder guardou silêncio. Então o homem continuou:

         - O senhor dirá que só a Alá, o misericordioso? Não sabendo o que dizer o visir confirmou: é o que ensina nossa religião, falou.
         - Grande Visir, seu poder por acaso não emana de Alá? Abu Zaid não soube o que responder mas tentou tranqüilizá-lo: é o que ensina nossa tradição e que está escrito na lei
         - Então, continuou o cego, pergunte a Alá, o misericordioso, porque eu sofro este horrível castigo; eu já lhe perguntei muitas vezes, mas ele nunca me respondeu. Eu sou humilde, mas o senhor é poderoso. Ele o ouvirá.

          O cronista nos conta que o visir se concentrou tentando achar uma resposta para o desespero do cego. Não podia apenas oferecer ao infeliz o consolo do paraíso após a morte; tampouco podia apelar para uma saída tradicional, dizendo que sua cegueira era o castigo por algum pecado. Permite-me, meu Deus, atenuar a dor deste homem aflito, dá-me uma resposta, ele parece um homem justo -falou para si. Ficou longo tempo em silêncio esperando a resposta do Ser que ilumina todas as coisas e quando já ia desistir, envergonhado por sua impotência, ouviu uma voz que emanava de algum lugar de seu entendimento; então falou para o cego:

         - Há pessoas que tem olhos e não enxergam; Há pessoas que precisam ficar cegas para enxergar as coisas com a luz do espírito, a única luz que permite enxergar a verdade e a grandeza da vida. Assim que tu entendas isto todo mudará na tua vida.
          O cronista não nos informa se o belo consolo do Visir curou o desespero do cego.



                                                          -II-

          O mestre sufi Nasrudin goza de merecida fama no mundo islâmico, no tanto por ser una figura pitoresca, algo mais que extravagante e surpreendente, mas por ser um homem que nos mostra a loucura que reside em nossa razão e a racionalidade que sustenta a tolice. O fato é que nas muitas atividades que desempenhou na sua vida uma delas aumentou sua fama de homem sábio. Veja o que nos refere a tradição.

          Nasrudin foi nomeado juiz. Cada dia atendia as queixas e litígios dos que procuravam a lei para dirimir suas disputas. Um dia se apresentaram dois litigantes. Como é natural os dois tinham sobradas razões para defender suas respectivas causas.

          O primeiro expus seus argumentos com clareza e coerência. Depois de ouvi-lo atentamente Nasrudin ficou ponderando seu depoimento e declarou:
-Por tudo o que declaraste tens toda a razão. O secretário de Nasrudin anotou o comentário do juiz no livro da lei.

          Em seguida foi a vez do segundo litigante, a parte contrária do primeiro. Com a mesma coerência e clareza defendeu sua causa. Assim que acabou Nasrudin falou:

         -Por todo o que acabas de explicar-me tens toda a razão.
O secretário, que era um homem igualmente competente na lógica da lei, lhe chamou a atenção:
         -Senhoria, não é possível que as duas partes opostas tenham a razão num mesmo assunto. Nasrudin com toda seriedade se dirigiu ao secretário:
         -Tens toda a razão.

          O que seja a justiça é um assunto nada fácil de esclarecer. Resulta-nos mais fácil determinar as mil formas de injustiça que defini-la em sua positividade. Concordamos que o cego da história é vítima de uma injustiça, mas quem a provocou? O destino? A malvada sorte? Um deus desconhecido? Talvez a imprudência da vítima? Sofrer um mal, um dano não merecido é injusto. Levar a pior parte no reparto dos bens materiais como acontece entre trabalhador e o patrão é injusto. Podemos admitir que o patrão ganhe mais, mas julgamos um abuso a exploração do trabalho. A maioria concorda que a pior injustiça do sistema social é o reparto não eqüitativo da riqueza, mas quem se opõe ativamente a esta injustiça é visto como una ameaça pelos poderes oficiais dominantes. A posição da mulher a deixa quase sempre em desvantagem com respeito ao homem, sobretudo nos países que a condenam a formas de servidão -como acontece entre os muçulmanos. É uma situação injusta, mas os que se beneficiam com a injustiça fulminam aos que defendem direitos mais justos para elas.

          O pior é que há formas de injustiça tão comuns e habituais que nem suas vítimas as percebem em sua tremenda violência. A ignorância é um bom aliado nestes casos. Hitler se propunha proibir a todos os povos eslavos, principalmente, a aprendizagem da leitura. O transgressor seria provavelmente fuzilado ou condenado à cegueira. O outro artifício para encobrir as injustiças é fomentar diversas formas de alienação. Uma delas é muito usada: oferecer à massa um pouco de pão e muito circo -como faz atualmente a TV.

          Também existem os artifícios para encobrir as injustiças. Um país alega que é justo atacar outro submetido aos excessos de um ditador cruel -como aconteceu com Irak- inclusive se a queda do ditador implica a morte de milhares de civis inocentes. Estranhas manhas usam os humanos para justificar as injustiças.




(*)O visir é um ministro de um soberano muçulmano






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