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10/04/2009 - Portal Terra Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Tonando a atividade bancária chata

Por: Paul Krugman

Krugman: "É estranho dizer, mas a era de atividade bancária chata foi de progresso econômico espetacular"

Há mais de trinta anos, quando eu era um estudante do curso de economia, apenas os meus colegas menos ambiciosos buscavam carreiras no mundo financeiro. Mesmo naquela época, os bancos de investimento pagavam mais do que o ensino ou o serviço público - mas não muito mais e, de qualquer forma, todos sabiam que a atividade bancária era, digamos, chata.

Nos anos que se seguiram, claro, a atividade bancária tornou-se qualquer coisa, menos chata. As negociações floresceram e as escalas de pagamento nas finanças subiram muito, atraindo muitos dos melhores e mais brilhantes jovens da nação (OK, eu não tenho tanta certeza quanto aos "melhores"). E estávamos certos de que o nosso setor financeiro superaumentado era a chave para a prosperidade.

Ao invés disto, as finanças se tornaram o monstro que comeu a economia mundial.

Recentemente, os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshef distribuíram um papel que poderia ter sido intitulado "A ascensão e queda da atividade bancária chata" (na verdade, tem o título de "Salários e o capital humano no setor financeiro dos Estados Unidos, de 1909 a 2006"). Eles mostram que a atividade bancária nos Estados Unidos passou por três eras no século passado.

Antes dos anos 1930, a atividade bancária era uma indústria empolgante, contando com um número de personalidades de peso, que construíram impérios financeiros gigantes (alguns deles, mais tarde, descobrimos que foram baseados em fraudes). Este setor financeiro em ascensão liderou um rápido aumento nas dívidas: a dívida familiar, como uma porcentagem do PIB, quase dobrou entre a Primeira Guerra Mundial e 1929.

Durante esta primeira era das altas finanças, os banqueiros recebiam, na média, muito mais que os seus colegas em outros setores. Mas as finanças perderam o seu encanto quando o sistema bancário desmoronou durante a Grande Depressão.

A indústria bancária que surgiu daquele colapso era rigidamente controlada, muito menos colorida do que tinha sido antes da Depressão, e muito menos lucrativa para aqueles que a administravam. A atividade bancária se tornou chata, em parte porque os banqueiros eram tão conservadores quanto a empréstimos: a dívida familiar, que havia caído nitidamente como uma porcentagem do PIB durante a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, ficou muito abaixo dos níveis pré-anos 1930.

É estranho dizer, mas esta era de atividade bancária chata foi também uma era de progresso econômico espetacular para a maioria dos americanos. Após os anos 1980, quando os ventos políticos mudaram, muitas das agências regulatórias dos bancos foram revogadas - e a atividade bancária tornou-se, mais uma vez, emocionante. As dívidas começaram a aumentar rapidamente, finalmente atingindo quase o mesmo nível relativo ao PIB que em 1929. E o setor financeiro explodiu em tamanho. Lá pela metade desta década, respondia por um terço dos lucros corporativos.

Enquanto estas mudanças aconteciam, as finanças tornaram-se, novamente, uma carreira com altos salários - espetacularmente altos, para aqueles que construíram novos impérios financeiros. De fato, rendimentos ascendentes nas finanças desempenharam um grande papel na criação da segunda Era Dourada dos Estados Unidos.

É óbvio que os novos superstars acreditavam que eles mereceram sua riqueza. "Eu acho que os resultados de nossa empresa, que é de onde a maioria da minha riqueza veio, justificam o que consegui", disse Sanford Weill em 2007, um ano após se aposentar do Citigroup. E muitos economistas tinham a mesma opinião.

Apenas poucas pessoas alertaram que este sistema financeiro sobrecarregado poderia acabar mal. Talvez a Cassandra mais notável tenha sido Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago, um ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional, que argumentava em uma conferência de 2005 que o crescimento rápido das finanças aumentara o risco de um "desastre catastrófico".

Mas os outros participantes da conferência, incluindo Lawrence Summers, agora o chefe do Conselho Econômico Nacional, zombaram das preocupações de Rajan.

E o desastre veio.

Muito do aparente sucesso da indústria financeira foi agora revelada como uma ilusão. (As ações do Citigroup perderam mais de 90% do seu valor desde que Weill parabenizou a si mesmo.) Ainda pior, o colapso do castelo de cartas financeiro destruiu o resto da economia, com o comércio mundial e a produtividade industrial, na prática, caindo mais rápido do que na época da Grande Depressão. E a catástrofe levou a pedidos por uma regulamentação muito maior sobre a indústria financeira.

Mas o meu sentimento é que as autoridades ainda estão pensando principalmente em reorganizar as caixas do organograma da superintendência bancária. Eles não estão nem um pouco prontos para o que precisa ser feito - que é tornar novamente a atividade bancária chata.

Parte do problema é que uma atividade bancária chata significaria banqueiros mais pobres, e a indústria financeira ainda tem muitos amigos em altos cargos. Mas também é uma questão de ideologia: Apesar de tudo que aconteceu, a maioria das pessoas em cargos de poder ainda associam finanças sofisticadas com progresso econômico.

Será que eles podem ser convencidos do contrário? Conseguiremos encontrar a força de vontade para buscar uma reforma financeira séria? Se não, a atual crise não será um evento ocasional; ela será o modelo do que está por vir.

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