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22/02/2009 - Portal Terra / Terra Magazine Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

A utilidade de uma farsa

Por: Francisco Viana


O depoimento da brasileira Paula Oliveira ao Procurador Geral da Justiça é muito útil para comunicadores. No último dia 13, ela denunciou ter sido agredida por neonazistas e, além de ter tido as pernas mutiladas por cortes, teria perdido dois gêmeos devido a uma gravidez abortada. Quais as lições do caso?

A primeira delas é que tudo deve ser apurado. Como jornalista, lá pelos idos de 1974, na Bahia, me defrontei com um problema grave. Um colunista do Jornal da Bahia denunciou um médico que teria sido responsável pela morte do próprio filho. Motivo: o pai, sem saber que o paciente era o seu filho, deixou de atender um rapaz gravemente ferido num acidente somente porque ele não tinha dinheiro para pagar. O atendimento seria pelo antigo INPS. Quando soube que o jovem era seu filho, enlouqueceu. E foi internado numa clinica psiquiátrica. Bem, o fato ganhou repercussão nacional. O Jornal do Brasil abriu manchete e fez editorial contra o INPS.

Eu trabalhava na sucursal de O Globo, rival histórico do Jornal do Brasil. Por dois dias, palmilhei as clínicas da cidade, fui ao cemitério, ao necrotério, enfim, virei a cidade de ponta a cabeça. Não encontrei um único fato. Um único indício de fato. A Clínica onde o médico teria deixado de atender o filho ficava no bairro da Pituba. Peguei um mapa, marquei todas as clínicas. Visitei uma após outra. Em todas, fui recebido com um misto de tranqüilidade e indignação. Tranqüilidade, porque os médicos abriam as portas. Estavam a minha disposição para esclarecer o que fosse necessário. Indignação, porque não podiam admitir uma coisa daquelas. Um médico negar socorro a um jovem acidentado. E, pior, o seu próprio filho. Uma tragédia grega vivida no calor dos trópicos.

O Jornal do Brasil sustentou o noticiário por dois dias. A seguir, admitiu o erro. Juarez Bahia, editor do jornal, teve a grandeza de reconhecer que errou. Uma atitude que só fez honrar a ele e ao jornal. Pois o caso não existia. Era uma fraude. Dias depois, na sucursal descobrimos que o "fato" realmente "existiu". Só que se desenrolou no além, foi psicografado por um mediu e publicado numa revista espírita. O colunista do Jornal da Bahia, notório "chutador", publicou a nota como se fosse verdade. O JB, então um dos melhores jornais do país, embarcou na canoa furada. O Globo, elegantemente, nada publicou. Limitou-se a dar uma nota discreta informando que as autoridades estavam tentando localizar o médico. Depois fechou-se no mais absoluto silêncio. Agiu corretamente.

Conto essa história - que me custou muitas dores de cabeça porque eu teimava que o fato não existia e fui muito pressionado - para lembrar que é muito comum as pessoas abraçarem a primeira versão das coisas. É péssimo. É destrutivo. O drama é como dar respostas às primeiras versões sem aceitá-las. Sobretudo, quando o ambiente é receptivo ao tema. No caso de Paula, o problema de fundo é a xenofobia. No caso do suposto médico baiano, era a rejeição dedicada ao INPS e a ditadura.

Na comunicação organizacional é muito comum, por exemplo, surgir uma denúncia de corrupção e as pessoas acreditarem que a versão é sinônimo de fatos. Os casos que ilustram esse tipo de erro se sucedem todos os dias. Basta lembrar o que aconteceu com o ex-ministro Alcenir Guerra que teve sua carreira tragada por uma falsa denúncia de corrupção. A comunicação em rede amplificou o drama. Ninguém mais procura verificar as notícias. Tudo que surge é dado como verdadeiro. E a notícia ganha o mundo na sua versão original. Basta ver o filme Babel para entender o que está acontecendo. A versão virou o fato.

Comunicadores e jornalistas precisam separar o que é versão e o que é fato. O que é sensacional e o que é notícia. No caso de Paula, o governo brasileiro apressou-se em apoiá-la. Agiu certo? Agiu precipitadamente? Talvez, o correto fosse apurar o que de fato ocorreu e depois colidir com as autoridades suíças. Vivemos num mundo fragmentado. Não há como julgar, inclusive porque se o governo ficasse em silêncio seria acusado de omisso. Como agiu, foi acusado de precipitação. Falta equilíbrio para avaliar a realidade concreta. Predomina o credo da crítica pela crítica. E o fato, senhor da razão é cada vez mais esquecido.

Há múltiplas verdades, muitas fraudes, muita manipulação. O drama de tudo é a espetaculosidade do noticiário. É uma certa ingenuidade de quem lida com comunicação, também. A razão é simples: a falta de uma razão crítica. Ou se é indiferente, ou se abraça uma realidade em preto e branco. Bons e maus. Verdadeiro e falso. A má notícia deixou de existir. Tudo é crise. O dólar e as bolsas não caem, despencam. Vive-se o presente perpétuo. Não se olha para trás ou para os lados para entender a história, entender os contextos. Não se desconfia das primeiras versões. E os fatos? O ponto é que os fatos são teimosos e sempre acabam aparecendo. No caso de Paula, não se deve incorrer no erro de considerá-la uma vilã. É preciso avaliar os fatores profundos que levam uma pessoa a agir assim. Ai, sim, está a grande reportagem. A interpretação de fundo. A recusa do espetacular. A aceitação da complexidade do real.

Das lições que ficam, além do culto à verdade factual e do exercício da razão crítica, fica o alerta contra o imediatismo. Tudo vira mercadoria ¿ as notícias, as reputações, os acontecimentos. Se Paula errou, erraram também todos aqueles que acreditaram nas evidências sem verificar o que acontecia nos bastidores da aparente realidade. A falsificação foi a tônica desse triste espetáculo.

Vivemos uma cultura do imediatismo. Se age primeiro para pensar depois. O grande tribunal da opinião pública muitas vezes julga antes de verificar as provas reais. Cede-se facilmente a manipulação. O mestre Rousseau ensinava justamente o contrário do que se costuma fazer hoje em dia: pensar primeiro, agir depois. É preciso refletir sobre os antigos para melhor compreender os tempos presentes. Caso contrário, continuaremos presos à comunicação espetáculo, a confundir máscaras com o verdadeiro rosto da realidade. Ou seja, misturar neuroticamente fatos com versões. Essa é a lição maior do caso da brasileira Paula: não se vê com os olhos, se vê com os fatos.

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