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22/02/2009 - UOL Notícias / New York Times Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Reino de bilionário em ilha do Caribe é ameaçado por denúncias

Por: Clifford Krauss, Jule Creswell e Charlie Savage


Quando Robert Allen Stanford chegou a St. John's, capital de Antígua, no início dos anos 1990, poucos moradores tinham ouvido falar no financista do Texas. Hoje ele domina tantos aspectos da vida nesta ilha caribenha banhada de sol que alguns passaram a chamá-la de "Stanford Land".

Em um momento ou outro, ele foi dono de uma companhia aérea pela qual voam muitos moradores e visitantes; de um jornal local que cobre suas atividades; de um vasto complexo residencial onde muitos moram; de dois restaurantes onde eles comem; e do estádio nacional aonde eles vão assistir jogos de críquete, o esporte favorito da ilha.

Mas a jóia da coroa de seu domínio é há muito tempo o Stanford International Bank, uma instituição "offshore" [situada em país estrangeiro e isenta das leis fiscais] que atraiu bilhões de dólares de clientes de todo o mundo - especialmente da América Latina - que buscavam refúgio seguro para sua riqueza.

O tempo todo Stanford cultivou um relacionamento confortável com as autoridades de Antígua. O banco fez empréstimos para o governo, que muitas vezes usou o dinheiro para dar a suas companhias lucrativos contratos de construção. Tentando limpar a imagem do país como um paraíso fiscal, as autoridades instalaram Stanford em uma nova autoridade regulatória para supervisionar os bancos locais - incluindo o dele próprio.

Para alguns, pareceu cômodo demais. "Parecia haver uma completa ruptura das barreiras normais entre regulador e regulado", disse Jonathan Winer, que na época era vice-secretário assistente do Departamento de Estado dos EUA. "O relacionamento entre os líderes políticos do governo de Antígua e Stanford parecia estranhamente íntimo."

Apesar das desconfianças e de ocasionais investigações de Stanford - ou sir Allen, como ele é chamado aqui desde que foi nomeado cavaleiro pelo governo de Antígua em 2006 -, sua influência continuou a crescer. Isto é, até esta semana, quando a Comissão de Valores e Câmbio dos EUA (SEC) acusou o Stanford International de orquestrar uma enorme fraude que pode ter lesado os investidores em cerca de US$ 8 bilhões. Segundo os reguladores, a cifra não foi contabilizada. A companhia está transferindo todas as ligações para a SEC.

Stanford, 58, que não foi acusado de nenhum erro criminal, não pôde ser entrevistado. Na sexta-feira seus problemas aumentaram quando as autoridades tomaram seu banco em Antígua, depois do confisco de suas operações em outras partes do mundo.

O Stanford International afirma que tinha cerca de US$ 8 bilhões em ativos, mas a SEC disse apenas que ele não pôde explicar a origem desse dinheiro. A maioria dos atores chaves, incluindo Stanford, não compareceram para depor depois que a SEC enviou uma intimação.

A derrocada do império Stanford deixou muitas perguntas sem respostas. O que aconteceu com o dinheiro dos investidores, que supostamente foi colocado em ativos de alta qualidade? Em que medida seus esforços para obter favores dos políticos daqui - e dos EUA, onde ele fez contribuições para muitos congressistas - o ajudaram a escapar de um escrutínio sério, apesar das suspeitas levantadas sobre suas atividades no passado? E qual era a natureza da fraude que está sendo alegada - uma simples fraude de valores, como a SEC acusou; um esquema de pirâmide; ou, diante da história de alguns bancos offshore no Caribe, também havia lavagem de dinheiro?

Pode demorar meses para encontrar as respostas. Poucos documentos surgiram para esclarecer os negócios de Stanford, que envolviam certificados de depósito de alto rendimento vendidos para investidores e abrigados no banco de Antígua - ou mesmo seu tamanho exato. Em diversas entrevistas com ex-funcionários de Stanford, ex-reguladores, autoridades americanas e indivíduos que tiveram negócios diretos com Stanford durante anos, surge a imagem de um homem que tinha uma imagem de grandeza para si mesmo e sua companhia e que sabia que a chave do sucesso era aliar-se a indivíduos politicamente poderosos.

Ao mesmo tempo, a maior parte do verdadeiro passado de Stanford parece obscura.

Nascido em Mexia, no Texas, uma cidade rural de cerca de 6.600 habitantes a 130 quilômetros de Dallas, ele afirma ter baseado sua companhia, o Stanford Financial Group, em uma firma de seguros iniciada por seu avô durante a Depressão, chamada , Lodis Stanford.

A primeira incursão de Stanford nos negócios, porém, foi longe das finanças. Ele começou com uma rede de academias de ginástica em Waco, Texas. Depois alegou ter feito a maior parte de sua fortuna na década de 1980 comprando imóveis problemáticos em Houston.

Um ex-funcionário de Stanford disse que algumas propriedades deram dinheiro, como as que ele comprou na elegante área de River Oaks em Houston, enquanto outras acabaram em fracasso.

Por isso, quando em 1996 Stanford decidiu começar seu primeiro banco offshore, o Guardian International Bank, na ilha caribenha de Montserrat, pediu a seu pai, James Stanford, cerca de US$ 2 milhões a US$ 4 milhões em capital inicial, segundo o funcionário - que não quis ter seu nome citado para não ser envolvido nas investigações.

O Guardian procurou indivíduos e companhias ricos no México, Venezuela e América Central, onde as pessoas estavam ávidas para levar o dinheiro a outros países por causa de regimes políticos e regulatórios poderosos.
Conforme a pequena operação de Stanford crescia, suas ambições também aumentavam. "Ele dizia que queria construir a maior companhia financeira do mundo", disse o funcionário.

Stanford, que às vezes exibia um comportamento encantador, assim como um temperamento impetuoso (um ex-empregado disse que certa vez ele atirou um cinzeiro de vidro contra a parede em um acesso de raiva), começou a ver a si mesmo de maneira mais grandiosa. Ele inventou um novo logotipo para sua empresa, uma águia dourada, que descreveu como o escudo de um cavaleiro, e exigiu que todos os funcionários o usassem.
No início dos anos 1990, o governo de Montserrat interveio em vários bancos estrangeiros, mas o Guardian foi poupado.

Rapidamente, Stanford passou a avaliar o território que em breve chamaria de lar, Antígua. Sua presença na minúscula ilha de 85 mil habitantes começou a tomar forma quando o então primeiro-ministro, Lester Bird, o viu como um americano empreendedor, cheio de dinheiro, que poderia ajudar a resolver os muitos problemas locais. Quando o Banco de Antígua enfrentou dificuldades em 1990, por exemplo, Stanford se apresentou para adquiri-lo.

E quando os EUA começaram a pressionar o governo Bird no final dos anos 90 para ser mais firme com os suspeitos de lavagem de dinheiro, o primeiro-ministro mais uma vez pediu ajuda a Stanford.

O governo formou um conselho assessor de bancos e colocou Stanford nele, uma medida que alarmou as autoridades americanas que analisavam Antígua, que viram um inerente conflito de interesses, já que o conselho também supervisionava o banco de Stanford. O projeto foi pago pelo governo de Antígua com dinheiro emprestado ou doado pelo banqueiro.

Vários reguladores e agências dos EUA já estavam inquietos com Stanford. Por volta de 1998, ele enviou uma carta para Jeanette Hyde, então embaixadora dos EUA em Antígua, dizendo que tinha sido investigado por diversas agências ao longo dos anos. Nenhuma delas havia encontrado nada, afirmou; uma prova de que era um cidadão respeitador das leis.

Mas as preocupações sobre Antígua e a presença de Stanford na ilha cresceram. Em 1999, ele deu à agência antidrogas dos EUA (FDA) um cheque de US$ 3,1 milhões do Stanford Financial em Antígua depois que o banco descobriu que um ex-barão da droga mexicano havia escondido ou lavado dinheiro lá. No mesmo ano, porém, o Departamento do Tesouro americano colocou Antígua em sua lista de países que faziam lavagem de dinheiro.

Mais ou menos na mesma época, Stanford e sua companhia sediada em Houston, o Stanford Financial Group, surgiram em cena como atores na política federal. A Casa Branca estava promovendo uma legislação para fazer os bancos atacarem a lavagem de dinheiro, então o Stanford Financial contratou uma firma de lobby de Washington e começou a doar centenas de milhares de dólares para republicanos e democratas.

O súbito fluxo de dinheiro chamou a atenção do grupo de direitos civis Public Citizen, que indicou Stanford como um estudo de caso da influência de doações de campanha sobre a legislação. O Public Citizen concluiu que estava "claro" que as contribuições de Stanford "se destinavam a matar as contas", embora uma ajuda mais ampla tenha se mostrado desnecessária porque os republicanos do Texas simplesmente impediram que ela fosse votada nas duas câmaras.

Depois dos ataques terroristas de 2001, o Congresso reanimou e aprovou as propostas contra lavagem de dinheiro. Enquanto isso, o governo de Antígua havia recriado o painel de reforma e reescrito seus regulamentos bancários, para satisfação de Washington, permitindo que seu nome fosse riscado da lista no mesmo ano.

Mas o banqueiro continuou sua ação visando Washington. De 1999 a 2008, o Stanford Financial Group aplicou cerca de US$ 4,8 milhões em atividades de lobby - gastando US$ 2,2 milhões destes somente em 2008, segundo registros do Senado.

Os funcionários do Stanford Financial e seu comitê de ação política deram US$ 2,4 milhões para candidatos federais desde 2000, segundo o Centro para Política Responsável.

Stanford também cortejou legisladores e seus assessores com viagens de avião e passeios para "conhecer fatos" em locais turísticos. Muitos foram pagos pelo Conselho Econômico Interamericano, uma organização sem fins lucrativos que ele apoiava.

Nos últimos dias, alguns legisladores tentaram se distanciar de Stanford. Entre eles está o senador Bill Nelson, democrata da Flórida, que recebeu mais dinheiro de Stanford e seus empregados do que qualquer outro legislador: US$ 45.900, segundo o Centro para Política Responsável. O gabinete de Nelson disse que ele ia doar o dinheiro para caridade.

Outro legislador, o deputado republicano Pete Sessions, do Texas, recebeu US$ 41.375 em doações. Ele também fez duas viagens do conselho, totalizando mais de US$ 10 mil em despesas, segundo o grupo Legistorm, que rastreia as notas de viagem de legisladores.

A porta-voz de Sessions, Emily Davis, disse à Bloomberg News esta semana que Sessions não conhece Stanford pessoalmente. Mas essa afirmação foi questionada quando o site da web Talking Points Memo publicou uma fotografia dos dois conversando durante uma viagem a Antígua. (Davis não quis comentar na sexta-feira.)

As ligações de Stanford com importantes parlamentares não o protegeram completamente dos olhares cuidadosos dos reguladores. Um exame de rotina da SEC sobre as operações de corretagem de Stanford em Houston revelou um grande problema - a firma estava violando os requisitos de capital líquido, resultando em uma multa de US$ 20 mil para a companhia em 2007.

Em 2006, o órgão abriu uma investigação, que suspendeu subitamente a pedido de outra agência não identificada. O inquérito foi reaberto no final do ano passado, depois que vieram à luz os alegados US$ 50 bilhões do "esquema Ponzi" [fraude da modalidade pirâmide] envolvendo Bernard Madoff. Não está claro por que essas e outras investigações, incluindo de vários órgãos policiais, parecem ter estancado ao longo dos anos.

Enquanto isso, relativamente inabalados, Stanford e suas empresas continuaram atraindo dinheiro para seu banco em Antígua, especialmente da Venezuela e de outros países latino-americanos. Os reguladores da Venezuela estimam que os investidores podem ter colocado US$ 2,5 bilhões em CDBs emitidos pelo banco baseado na ilha.

O financista rapidamente ofereceu a possíveis investidores voos em seus jatos particulares para Antígua e talvez uma viagem refrescante pelas tranquilas baías da ilha em seu iate.

Os mais ricos eram convidados a passar alguns dias em Jumby Bay, uma isolada ilha particular de 120 hectares com chalés para hóspedes e reserva natural.

"Ele é o tipo de homem 'tudo é grande no Texas'", disse Winston Derrick, locutor de rádio e editor do jornal "Antigua Observer", o concorrente do jornal de Stanford. "Tudo o que ele faz é de primeira classe."

Antígua está atônita com as alegações contra ele. Altos membros do governo não quiseram comentar suas relações com Stanford. Muitos se reuniram a portas fechadas na sexta-feira com executivos das várias empresas locais de Stanford para avaliar até onde o império seria atingido. "Estamos preocupados com os efeitos colaterais", disse o ministro da Justiça de Antígua, Justin Simon. "Embora seja apenas um banco, precisamos garantir que os ativos locais sejam protegidos para os depositantes."

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