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21/11/2008 - O Estado de São Paulo / Ag. Estado Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Confiança é a base de tudo

Por: João Mellão Neto


Corrupção, é claro, existe em todos os países. Sua incidência, constata-se, é mais freqüente quanto menos desenvolvidos eles são. Podem-se arriscar as mais diversificadas explicações, mas o fato é que nas sociedades mais amadurecidas ela é menor porque a própria comunidade, como um todo, trata de castigar os seus praticantes com desprezo, descrédito, hostilidade, ostracismo, até mesmo o banimento, a exclusão de seu convívio. Tudo isso, na prática, acaba sendo uma pena mais dolorosa do que a própria reclusão. Faz sentido. O homem é, sobretudo, um animal social. Quando até seus vizinhos o evitam, esse, para ele, é o mais doloroso dos castigos.

Nos EUA, anos atrás, um conhecido meu cometeu uma transgressão de trânsito tão grave que acabou levando-o ao tribunal. Ele, por acaso, tinha tirado uma carteira de trânsito americana. Qual não foi a sua surpresa quando, uma vez condenado, a única providência das autoridades locais foi tomar-lhe o documento por alguns dias e, depois, ainda tiveram a gentileza de devolvê-lo pelo correio. Cabe lembrar que nos EUA não existe carteira de identidade. Assim, a carteira de trânsito e a da Social Security acabam sendo as únicas credenciais, com fé púbica, que identificam uma pessoa e provam a sua identidade.

De início, o referido cidadão não conseguiu entender o que se passou. A única diferença é que a carteira a ele enviada era outra, praticamente idêntica à original, a não ser pelo fato de onde vem escrito, em letras miúdas, a expressão “safe driver”( o que, numa tradução livre, quer dizer “motorista responsável”) constar apenas a inscrição “driver”.

A conseqüência disso ele descobriu logo na esquina, quando decidiu almoçar num restaurante. Na hora de pagar, ele apresentou seu cartão de crédito e também sua carteira de motorista. Resultado: alguns minutos depois, o garçom voltou e, de modo bastante hostil, disse-lhe que ele teria de pagar a conta em dinheiro. Ele perguntou se havia algum problema com o cartão de crédito. “Não”, respondeu-lhe, de forma malcriada, o garçom, “é a sua ‘driver license’ que o identifica como uma pessoa indigna de qualquer confiança!” E seguiu sendo maltratado por vários dias, até que lhe explicaram que a simples exclusão da palavra “safe” (seguro, responsável) no documento equivalia, na prática, à sua rejeição automática por todos os demais cidadãos.

“Isso é pior do que cadeia”, desabafou-me ele alguns anos depois. “Você é visto e tratado como um delinqüente enquanto tiver de portar aquele documento. As coisas só voltaram ao normal quando, um ano depois, fui comunicado pelas autoridades de que iria receber a minha carteira original de volta.”

Pois bem, podemos refletir, essa inteligente modalidade de “pena alternativa” é genial, mas não teria a menor eficácia aqui, no Brasil.

De fato, não. Nem aqui nem em nenhuma nação onde o povo, socialmente, ainda não é suficientemente amadurecido. Por mais que as pessoas decentes fiquem indignadas ao lerem no jornal os pormenores do mais recente escândalo, o fato é que eles continuarão a acontecer, com a mesma frequência e desfaçatez, ainda por muitos e muitos anos. O processo de amadurecimento de um povo não se estabelece por lei ou decreto e, como nas pessoas, individualmente, só se alcança a maturidade depois de muito tempo de vida.

A coerção social, sabe-se, é o mais eficiente mecanismo dissuasório que existe. Mas para que ela ocorra é necessário que a sociedade, como um todo, compreenda de uma vez que todo e qualquer tipo de malandragem, no fim das contas, prejudica indiretamente a todos. Quanto mais “espertos” existirem, quanto menos a comunidade se importar com eles (ao contrário, eles são até admirados por sua pretensa “astúcia”), mais gente, com caráter deficiente, se sentirá tentada a seguir os seus passos.

Nas nações socialmente mais avançadas, essa maturidade só foi alcançada quando todos finalmente compreenderam que toda prática desonesta, se não for objeto de reprovação pela comunidade, acaba por se disseminar e, pior, inviabilizar a sua economia.

Um dos principais pilares do desenvolvimento se chama crédito. As pessoas, naturalmente, confiam umas nas outras e, portanto, transacionam entre si. Se até atos banais - como comprar uma geladeira - são arriscados, o resultado é a estagnação e empobrecimento da comunidade. Em situações extremas, como a citada, o que acontece é que o vendedor só aceita receber o pagamento em dinheiro. Ainda assim, desconfia que as cédulas sejam falsas. O comprador, por outro lado, desconfia que lhe vão vender um produto com defeito, de segunda mão e até mesmo de procedência duvidosa. Quase sempre, nesse clima de desconfiança, o negócio não sai. E assim perdem todos. Negócios mais complexos, então, nem sequer são cogitados.

Ninguém tem coragem de se associar a ninguém. Excelentes empreendimentos deixam de ser feitos tão-somente porque os eventuais sócios não têm a menor confiança entre si.

Aqui, no Brasil, jamais seremos desenvolvidos enquanto a nossa sociedade, em vez de execrar os seus delinqüentes, não só os exaltar pela sua astúcia como também os aceitar em seu convívio.

Há exceções, é claro. São os bandidos que foram presos e punidos. É curioso: eles não são escarnecidos porque delinqüiram, mas, sim, porque lhes faltou esperteza para saírem impunes...

Eu ainda acredito que o Brasil amadurecerá. Na medida em que prosperam, os cidadãos temem pelo seu patrimônio e passam a ser menos tolerantes com os seus delinqüentes. Mas a maturidade só se conquista após muitos e muitos anos. Não será no meu tempo, talvez nem no dos meus filhos.

Mas, tenho fé, haverá um dia em que isso, fatalmente, haverá de acontecer.

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