Monitor das Fraudes - O primeiro site lusófono sobre combate a fraudes, lavagem de dinheiro e corrupção
Monitor das Fraudes

>> Visite o resto do site e leia nossas matérias <<

CLIPPING DE NOTÍCIAS


Acompanhe nosso Twitter

27/09/2006 - The New York Time / Portal UOL Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Russos estão aprimorando falsificação de remédios

Por: Andrew E. Kramer


Várias vezes, Boris A. Merkeshkin picou seus pacientes com uma agulha e injetou uma droga para aliviar a pressão sangüínea. Ele o fez por seis meses no início do ano e seus pacientes recuperaram-se lentamente.

Talvez não tenham tanta sorte da próxima vez. Merkeshkin, médico responsável por um grande hospital de pesquisa na Sibéria e seus colegas tinham aplicado sem saber quase 3.000 doses de Cavinton falso. A droga original, produzida por Gedeon Richter, da Hungria, é um dos produtos farmacêuticos mais comumente falsificados em circulação na Rússia, de acordo com a polícia.

"Graças a Deus foi substituído com um remédio sem efeito verdadeiro em funções vitais", disse Merkeshkin em entrevista telefônica. "Se não, teríamos uma tragédia."

Os russos, já acostumados a produzir de DVDs piratas, enrolar seus próprios cigarros Marlboro e imprimir camisetas Nike, voltaram-se para a arte mais delicada de produzir remédios falsos, que estão proliferando na Rússia e em muitos outros países, de acordo com especialistas da indústria e do Departamento de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA).

Segundo eles, os remédios falsos também estão sendo contrabandeados para a Europa e EUA, o mercado de remédios mais lucrativo do mundo, apesar de em quantidades menores.

Até agora, o maior problema apresentado pelas drogas falsificadas é a violação de direitos de propriedade intelectual, que corta os lucros das empresas farmacêuticas. Aparentemente não houve importantes danos pelo uso das drogas.

A falsificação de remédios é diferente da produção de genéricos. Alguns países em desenvolvimento, como parte de um debate de saúde pública mais amplo, permitem que os fabricantes produzam certos medicamentos genéricos, por exemplo, para pacientes de Aids, sem pagar royalties aos detentores dos direitos.

A falsificação, por contraste, opera ilegalmente visando lucro, e o conteúdo das pílulas pode ser diferente.

Os produtos falsos vão desde misturas grotescas de cola, giz e açúcar até réplicas químicas quase exatas de produtos complexos, como Lipitor, da Pfizer, e Viagra, ambos que foram alvos de ações contra a falsificação.

Os falsificadores operam na Índia, China e em outras partes. O mercado negro de remédios na Rússia é distinto por estar na frente de uma nova tendência de falsificações de qualidade extraordinariamente alta.

De fato, investigadores privados da Pfizer encontraram no mercado russo produtos falsos de excepcional qualidade, segundo a própria empresa.

"As falsificações que encontramos foram as melhores que já vi", disse em entrevista telefônica John Theriault, vice-presidente de segurança global da Pfizer e ex-agente do FBI. "As coisas que vimos no mercado russo não foram feitas em uma garagem. Não sabemos onde foram feitas."

Se forem boas os suficiente, os médicos e pacientes talvez não suspeitem ou percebam que estão usando falsificações.

"Se o produto parece americano, como saber de onde veio?" disse ele.

Em uma declaração ao Congresso em julho, o comissário de política e planejamento do FDA, Randall W. Lutter, disse que a quantidade de remédios falsificados interceptados pela alfândega sugere um aumento do contrabando. Os agentes abriram 58 processos nos EUA em 2004 e 30 no ano anterior.

É difícil obter estatísticas sobre remédios falsos. "A sofisticação e precisão de algumas cópias de drogas legítimas impossibilitam uma estimativa confiável do número de falsificações", disse Luther, de acordo com o documento.

A Coalizão para Direitos de Propriedade Intelectual, grupo independente, pesquisou o mercado russo em 2003 e concluiu que 12% dos produtos farmacêuticos eram falsificados, apesar de grupos da indústria local dizerem que o número é menor, talvez uma fração de 1%.

Em geral, as associações que representam os laboratórios, cujas reputações e vendas poderiam sofrer se informações sobre produtos falsos se tornassem públicas, oferecem estimativas mais baixas. A Organização Mundial de Saúde estimou que a falsificação de fármacos é um negócio de US$ 32 bilhões (em torno de R$ 70,4 bilhões) no mundo todo.

Dentro da Rússia, a alta qualidade das drogas falsificadas minimizou qualquer sentido de revolta ou urgência das autoridades de fazerem prisões, de acordo com grupos da indústria em Moscou.

"Há uma noção aqui que, se ninguém foi prejudicado, qual é o problema?" disse Sergei A. Boboshko, diretor executivo da Associação Internacional de Produtos Farmacêuticos, grupo da indústria em Moscou que representa 46 grandes empresas de remédios.

A indústria está mais preocupada com a publicidade em torno das falsificações, temendo queda nas vendas se os clientes ficarem com medo dos remédios falsos.

As empresas em geral não revelam suas descobertas de versões falsas de seus remédios, de acordo com Cinthya K. Ramirez, analista da Federação Internacional de Associações e Fabricantes de Fármacos, com base em Genebra.

"Você pode imaginar o impacto que teria", disse Ramirez. "As pessoas ficariam com medo e não tomariam seus remédios e ficariam doentes. A questão da informação é muito delicada."

Grupos da indústria como o de Boboshko e outras autoridades também estão debatendo como fiscalizar a lei. O governo russo fez várias batidas em laboratórios de quintal, enquanto aguarda discussões sobre a entrada da Rússia na OMC. Boboshko diz que as batidas são meras exibições, porque os produtores em escala industrial continuam operando quase abertamente.

No último outono, o esquadrão de 18 homens de crime econômico do departamento de polícia de Moscou arrombou um depósito alugado. Foram encontrados um cão e um gato -e oito imigrantes ilegais de Moldova, que estavam misturando giz e farinha de trigo na aspirina, disse Fillip A. Zolotnitsky, porta-voz da divisão de crime econômico em entrevista telefônica.

"As paredes estavam cobertas de mofo. Era uma sala abandonada", disse Zolotnistsky. A polícia recolheu 5 milhões de comprimidos embalados como aspirina. Os suspeitos esperam julgamento. Se forem condenados, podem pegar 10 anos de prisão.

Enquanto isso, Roszdravnadzor, o equivalente russo ao FDA, recentemente publicou em seu site da Web penalidades por fabricantes licenciados que violam patentes, incluindo a possível suspensão de sua licença ou multa.

As melhores falsificações são feitas em fábricas legítimas, que podem fazer um turno extra à noite para produzir falsificações, de acordo com Boboshko.

Os detetives em busca da origem do Cavinton que apareceu no hospital de Merkeshkin chegaram a um depósito em Moscou registrado em nome de Tatyana Bryntsalova, mulher de Vladimir A. Bryntsalov, magnata farmacêutico que concorreu como candidato azarão para presidência da Rússia em 2004, de acordo com registros da polícia.

Ligações para a empresa de Bryntsalov não foram respondidas. Na mídia russa, ele negou qualquer ilegalidade. Sua empresa opera fábricas licenciadas que produzem 10% dos medicamentos legítimos da Rússia.

A proliferação crescente de fornecimento de drogas falsas no mundo levou o FDA a considerar um novo e caro sistema de monitoração de remédios nos EUA por rádio. O sistema, agora em fase de avaliação, é considerado a mais significativa mudança no empacotamento de drogas desde o desenvolvimento da embalagem à prova de violações nos anos 80.

Em um laboratório perto da movimentada avenida Leninsky de Moscou, Leonid A. Mikhalitsyn, físico, está na linha de frente contra as falsificações. Ele é operador de espectrógrafo alemão Bruker e trabalha em um escritório ultra-moderno cercado de vidro. O espectrógrafo parece um computador com um scanner redondo para pílulas em cima. Custa cerca de US$ 80.000 (em torno de R$ 176.000) e é o padrão de ouro para analisar remédios falsos.

Em manhã recente, Mikhalitsyn estava testando o Biseptol, nome do antibiótico polonês vendido nos EUA como Bactrim. Mikhalitsyn disse que era quase impossível um médico ou paciente discernir entre o Biseptol verdadeiro e o falso, que também funciona. O Bactrim é usado para tratar infecções no ouvido e no trato urinário, de acordo com Jose F. Flores, médico americano da clínica SOS em Moscou. Apesar do remédio falsificado não colocar a vida do paciente em risco, disse ele, pode prejudicar os lucros do fabricante e minar o incentivo à pesquisa e gastos em desenvolvimento.

Em um balcão de fórmica no laboratório de Mikhalitsyn, há um saco plástico com ampolas minúsculas, junto com rótulos e selos de qualidade. As sacolas continham o Cavinton falso encontrado no depósito de Moscou, do mesmo lote enviado ao hospital de Merkeshkin.

Depois de três minutos, Mikhalitsyn tinha sua resposta.

"É falso", disse ele, apontando para uma linha vermelha em seu monitor que mostrava a composição química da pílula. A tela do computador apresentava um gráfico com a leitura de uma pílula genuína. As duas linhas quase se sobrepunham, o que significava que os componentes químicos eram quase idênticos, disse Mikhalitsyn.

"Eles têm um ingrediente ou a mais", disse ele. "Realmente não é diferente do original."

Página principal do Clipping   Escreva um Comentário   Enviar Notícia por e-mail a um Amigo
Notícia lida 684 vezes




Comentários


Nenhum comentário até o momento

Seja o primeiro a escrever um Comentário


O artigo aqui reproduzido é de exclusiva responsabilidade do relativo autor e/ou do órgão de imprensa que o publicou (indicados na topo da página) e que detém todos os direitos. Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores. O site "Monitor das Fraudes" e seus administradores, autores e demais colaboradores, não avalizam as informações contidas neste artigo e/ou nos comentários publicados, nem se responsabilizam por elas.


Patrocínios




NSC / LSI
Copyright © 1999-2016 - Todos os direitos reservados. Eventos | Humor | Mapa do Site | Contatos | Aviso Legal | Principal