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24/08/2008 - G1 Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Golpe do carro barato tem financiamento que nunca é pago


O golpe do carro barato funciona em capitais e cidades do interior. Por um preço bem abaixo do mercado, é possível comprar carros de todos os modelos e cores, até veículos 0 km. Os vendedores dizem que o preço é uma pechincha.

Um Renault Clio, ano 2008, com ar-condicionado, por exemplo, é vendido a R$ 9.200.
Segundo avaliadores, o carro vale no mercado quase o triplo: R$ 26 mil.

Os vendedores oferecem dezenas de ofertas semelhantes. Um outro modelo é mais novo ainda, tem até plástico no banco. No mercado oficial, ele custa, pelo menos, R$ 29 mil reais. Mas no mercado clandestino, o veículo é vendido por R$ 11.300. "O carro tem 100 km, saiu agora da loja", diz o vendedor.

Nas duas últimas semanas, o Fantástico investigou mercados clandestinos de automóveis, conhecidos como marretas ou bocas. A reportagem passou por Brasília e por cidades do Tocantins, de Minas Gerais e de Goiás.

A explicação para os preços tão baixos está no ágio ou finan, uma abreviatura de financiamento. Tudo começa com um financiamento bancário e com parcelas que nunca vão ser pagas. Um carro, por exemplo, foi comprado em 60 prestações em uma concessionária no Distrito Federal e está à venda, no interior de Goiás, por um terço do valor de mercado.

Por dinheiro, as pessoas emprestam o nome para fazer os financiamentos e, às vezes, existe até o envolvimento de funcionários de concessionárias. Segundo um homem que trabalha em uma revenda, esses funcionário participam do esquema em troca de propina.

"Tem nego aqui que fala assim: 'Escolhe aqui um carro do pátio'. Aí, ele arruma um cara, um laranja. Tira no nome desse laranja e te passa. Documento, tudo", diz.

Como ninguém vai tirar dinheiro do bolso para pagar as prestações, o carro pode ser revendido por qualquer preço, que ainda dá lucro. Na internet, há vários anúncios de veículos assim.

Em um telefonema, o vendedor diz por quanto vende um carro avaliado, no mercado, em R$ 22 mil. "O valor dele é R$ 5 mil. Eu mostro o carro aqui em Belo Horizonte para qualquer pessoa", disse o vendedor.

A reportagem foi até a capital mineira e viu o carro. Mas, ao saber que se tratava de uma reportagem, o vendedor saiu correndo. O parceiro dele também. Depois, por telefone, ele admitiu que vende carro barato porque o financiamento não foi pago. “Correto não é, mas é o que eu faço. É o que eu ia fazer com esse carro”, admite.

Nos mercados improvisados, clandestinos, é possível entender melhor ainda o golpe. No principal ponto de comércio de carros de Goiânia, um vendedor explica que o veículo não pode ser transferido. Tem de ficar no nome de quem pegou o financiamento.

Em outro ponto, mais afastado do centro, a reportagem descobriu que os carros ilegais, de preços baixos, vão para longe. "Aqui vende para todo lugar. Vende para Goiânia, Mato Grosso, vai para o Pará, Xingu. Tudo quanto é lugar", explica um vendedor.

É do Distrito Federal, de concessionárias de Brasília, que saem muitos carros 0 km, financiados em longas prestações. Parcelas que nunca vão ser pagas. E até as financeiras cumprirem todos os procedimentos legais de cobrança, entrarem na Justiça, e até sair o mandado de busca e apreensão e o veículo ser localizado, leva tempo, muito tempo.

Em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, os vendedores contam que leva cerca de dois anos até a Justiça determinar a busca e apreensão do carro. Para não correr o risco de perder dinheiro, "mais uma tramóia", diz o homem. "Depois de dois anos, você vem aqui, pega um mais novo, e a gente pega ele de volta", explica o homem.

Em Anápolis, interior de Goiás, acontece a mesma estratégia ilegal para não ter o carro tomado pela Justiça. "Você vai trocando pelo mais novo. É o que todo mundo faz. A gente tem cliente no Tocantins, no Pará faz desse jeito. Vai rodando até acabar", conta um vendedor.

Uma casa com um toldo para proteger os veículos do sol é outro ponto de Anapólis onde funciona o golpe. "É de luxo. É 1.6 esse carro. Não é mil não, é 1.6", diz o vendedor. Ele afirma ao produtor do Fantástico, que não se identificou como jornalista, que faz entrega até em São Paulo, a quase 1.000 km de distância.

"É só me dar o dinheiro que você pode acelerar. Se você quiser combinar, eu levo para você também". Depois, ao ser informado da gravação, ele negou tudo. “Não mexo com carro finam”, diz. Ele tinha oferecido à reportagem carros por aproximadamente R$ 10 mil, cada. Veículos que valeriam R$ 30 mil, se fossem legalizados.

Com os números das placas, a reportagem foi em busca de informações. Um dos carros está em nome uma pessoa que foi para o Nordeste e deixou a família para trás, diz a família. "Tem uns quatro, cinco meses. Nunca vi um carro parar aí", revela a mãe do “comprador”.

O comprador de um outro carro também não mora mais no endereço declarado no financiamento. Encontrado pela reportagem, ele diz que não conseguiu pagar as prestações, repassou o veículo e achava que fossem pagar a dívida. “Fazer o quê?” disse o comprador.

Um carro em nome de um assessor parlamentar também está à venda em Goiás, por um preço bem inferior ao de mercado. "Eu não tenho nada a ver com esse problema", defende-se o assessor.

Ele diz que quitou as parcelas, vendeu o carro, mas não transferiu o documento. O veículo - ainda em nome do assessor - foi financiado outra vez.

Quem participa do golpe pode ser condenado a até cinco anos de prisão. "Comprovado que a intenção efetivamente era lesar a financeira, eles podem ser processados por estelionato. Já quem recompra o carro dele poderá responder por receptação, seja culposa, seja dolosa", explica o advogado criminalista Roberto Podval.

Prejuízos

Mesmo quem não se envolve com negócios ilegais já sofre com os carros "finan". Os próprios vendedores de veículos desse tipo dizem que os maiores compradores estão no Tocantins. Na capital do estado, Palmas, os donos de lojas de carros já sentem essa concorrência desleal. As vendas de veículos quitados, regularizados, caíram.

"É uma coisa que não é bom para o estado. Em torno de 10% a 15% da frota de carros de Palmas hoje é de carros que são dessa natureza de 'finans'", lamenta Nicson Marques, da Associação das Revendoras de Tocantins.

Na última quinta-feira (21), o Fantástico acompanhou uma blitz em Palmas. Quarenta por cento dos motoristas dirigiam carros com placas de outros estados. Desses, muitos estavam em nome de outras pessoas, mas nenhum com mandado de busca e apreensão.

"Não temos amparo legal para fazer apreensão desse veículo, mesmo desconfiando que ele seja um veículo 'finam'", explica o capitão João Costa Miranda.

Quem já perdeu o carro em uma blitz se arrepende de ter feito a compra irregular. "A gente percebe que não é um negócio muito direito. Moralmente, não é um negócio muito correto", admite um homem.

Um negócio que prejudica quem é honesto, quem faz financiamento e paga as prestações em dia, diz Sérgio Reze, presidente da Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos (Fenabrave).

"Todo daqueles que tomam empréstimo para financiar automóveis pagarão mais porque o banco está tendo prejuízo e transfere isso para a taxa de juros. Se fossem pequenos golpes, nós entenderíamos que isso poderia ser absorvido, mas me parece que o volume é muito elevado", explica o presidente da Fenabrave.

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