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07/08/2008 - Ciência Hoje Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Investigadores combatem crime ao microscópio

Por: Marta F. Reis


O caso é um dos mais desafiantes dos últimos tempos. Depois de um violento acidente de viação, de que resultou um morto, foi solicitada ao laboratório uma perícia para determinar quem é que ia ao volante, o homem que faleceu ou a esposa.

A questão veio parar às mãos da equipa do sector de Física de partículas – tratam tudo o que é resíduos -, mas pouco mais se sabe ali sobre o fatídico episódio. Dobrados em cima de uma mesa estão os dois airbags frontais, insuflados no momento da colisão, e a gabardine cinzenta que a senhora trazia vestida no dia.

A tarefa está longe de terminar. Têm de localizar e identificar fibras transferidas no impacto e, consoante o levantamento, determinar se a mulher ia a guiar ou no lugar do pendura. "Há primeira vista não se detecta nada. Este é um caso típico de fibras, é extremamente difícil de trabalhar", diz a técnica responsável.

Naquela secção do laboratório científico só se entra de bata e, à entrada, os sapatos passam por uma espécie de tapete de papel autocolante, barreiras que ajudam a prevenir a contaminação das provas. O caso é particularmente exigente porque os airbags, apesar de serem de cores diferentes, ao microscópio parecem brancos, o que dificulta distinguir as fibras assinaladas na gabardine.

O material foi recolhido com fita adesiva e preservado em placas de acrílico. Depois de isolar e "mapear" os diferentes sectores das peças com marcadores, estes são analisados à lupa e num microscópio de comparação que pode utilizar luz polarizada, reflectida ou fluorescente, consoante o caso. Vão percorrer centímetro a centímetro as três provas até ser detectada uma transferência que determine quem é que ia a guiar, num relatório que pode dar ou não a total certeza.

No Laboratório de Polícia Científica (LPC) da Polícia Judiciária, no n.174 da Rua Gomes Freire em Lisboa, junto à Estefânia, poder ver dois ou três investigadores a tratar um caso tão ao pormenor é como olhar através de um microscópio gigante a unidade em que actualmente trabalham 128 técnicos, estatuto utilizado para descrever o que são investigadores científicos ao serviço da investigação criminal, ou na gíria televisiva, csi's.

Nos últimos andares do velho edifício, casa do LPC desde o início dos anos 60, os corredores estão vazios e as portas fechadas, como se a polícia científica metesse férias nas tardes quentes dos meses de Verão. Durante a visita guiada, porém, rapidamente se percebe que o aparente silêncio é plasmado do hábito laboratorial e que as portas fechadas são mais uma entre as garantias de segurança das provas.

No início era Arquimedes

A ciência forense remonta à aplicação dos princípios de Arquimedes na verificação de ligas metálicas e moedas falsas, e só a partir do século XVIII passou a ser reconhecida em tribunal. "As ciências forenses são uma disciplina que aplica a ciência em termos objectivos. A prova de qualquer crime pode ser feita por flagrante, confissão ou testemunho e a prova científica surge no sentido de valorizar tudo quanto é vestígios, mediante critérios físico-associativos e métodos experimentais, abrangendo toda e qualquer área", explica Álvaro Lopes, director do laboratório desde Março, acrescentando que ali se cruzam áreas como a biologia, física, química, farmacologia ou a biologia.

É o professor, como lhe chamam os técnicos, uma referência talvez ao doutoramento em Toxicologia ou ao cargo de docente na Universidade de Farmácia ou porque o ambiente é o de uma unidade de investigação, ainda que tenha a missão específica de ajudar a combater o crime, que guia a visita. Enquanto percorremos os corredores do LPC, o investigador assinala que, apesar de as infra-estruturas precisarem de uma remodelação, todo o material tem vindo a acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico num laboratório que já foi considerado um dos melhores da Europa.

Aproveitando a expressão científica, a linha de investigação daquela unidade da PJ, com técnicos de origens pluridisciplinares e formações avançadas no estrangeiro, é encontrar provas e relacioná-las com crimes com base no "conhecimento objectivo, demonstrável e indiscutível da ciência", dita Álvaro Lopes.

Riem-se do CSI

"Num crime há a trilogia autor-local-vítima, ou seja, estas três entidades podem partilhar entre si vestígios e estes vestígios podem ser analisados", explica o investigador. Ao Laboratório de Polícia Científica, da dita trilogia, cabe o quinhão dos vestígios. De fora, ao contrário do que erradamente sugere a popular série de televisiva CSI - que no laboratório a sério é motivo de risos - fica um tipo ficcionado de investigação em que as suposições comungam com a análise das provas. Ali chegam em envelopes numerados, são retiradas do seu contexto e, a pedido do investigador responsável pelo caso ou mediante as metodologias aplicáveis, seguem para uma ou outro protocolo de análise

No corredor há uma caixa forte onde as provas são guardadas. Podem ser vestígios, resíduos, documentos, tudo o quanto é material e passível de estar envolvido ou ajudar a reconstruir um crime – com excepção para as impressões digitais e retratos-robôs, que funcionam num departamento fora do LPC.

Os envelopes selados podem ser remetidos pelo tribunal ou recolhidos pela equipa do local de crime, um sector que funciona 24 horas por dia, em turnos, e faz as peritagens nas cenas do crime, o mais próximo do charme de Grissom e Horatio que conseguimos encontrar na versão real do CSI Lisboa. A sala onde trabalham os seis técnicos do sector, que cobrem sobretudo as perícias na Grande Lisboa mas que podem ser chamados em todo o país, está decorada com as celebrizadas faixas amarelas e pretas, a dizer algo como "Crime Scene do not cross".

Hoje em dia, diz João Cardoso, apontado pelos colegas como porta-voz, o grosso das situações a que são chamados diz respeito a homicídios. Vão ao local recolher projécteis ou fazer o cálculo de trajectórias. O que pensam da imagem da equipa do local de crime veiculada pela televisão? "Que é tudo ficção", riposta o investigador. "A parte analítica é totalmente ficção. A nós compete-nos a parte técnica e não a parte de investigação criminal", adianta. Unidade à parte do resto do laboratório, não interfere nas rotinas da investigação senão fornecendo matéria-prima. São parte da engrenagem como qualquer um dos departamentos do LPC, que vive do trabalho meticuloso de cada equipa e da soma das diferentes partes.

Projécteis, armas e marcas com pegadas ou vestígios de pneus seguem para o departamento de balística. O nome solene condiz com a porta blindada que separa o corredor imaculado da sala onde há caçadeiras empilhadas no chão, secretárias cheias de material em estudo ou arquivado e paredes decoradas com exemplares apreendidos.

Enquanto na secção de física de partículas está ser tratada a transferência de fibras no acidente de viação, o caso que ali angaria mais esforços é um alegado homicídio cometido com uma caçadeira. Há dois cartuchos e uma caçadeira alterada encontrados no local do crime. De manhã, retiraram o cartucho que estava dentro da arma e dispararam cinco cartuchos na carreira de ensaio. Agora, o objectivo é verificar se os cartuchos no local do crime foram ou não deflagrados pela caçadeira e se quatro bagos extraídos da vítima são compatíveis com as restantes provas.

Na sala têm um sistema, a IBIS (Integrated Ballistics Identification System), que permite "fotografar" as cápsulas e analisar os estriados a um nível microscópio, o que possibilita associar calibres e mesmo armas armazenadas numa base de dados.

Não se podem dizer muitos segredos, respondem volta e meia às perguntas do Ciência Hoje, afinal ali estão provas de casos em julgamento e, muitas vezes, dicas úteis na construção de um crime. O objectivo, resumem, é estabelecer correlações entre marcas, quer sejam estrias em projécteis ou rasgos de pneus, e armas ou suspeitos.

Armas de fogo feitas a partir de objectos do dia-a-dia

Saíndo da sala de balística, depois de aprender a levantar pegadas em solo liso com gel lifter, uma espécie de fita-cola gelatinosa, o amontoado de material que os técnicos têm para analisar espanta: pés de cabra, alicates, chapéus-de-chuva, bengalas e canetas transformadas em armas de fogo, são alguns exemplos.

Na área de Toxicologia, que até Março era da responsabilidade de Álvaro Lopes, trata-se de tudo quanto tem a ver com substâncias tóxicas, sobretudo drogas de abuso como o haxixe, a heroína ou a cocaína, em que se faz a caracterização das apreensões.

Antigamente, explica Joana Alegre, técnica daquele departamento, faziam-se exames comparativos com colecções de plantas e raízes – de que há um exemplar curioso, com frasquinhos com grãos de várias cores à porta da sala, que a investigadora assegura que hoje ainda é útil – hoje utilizam-se técnicas de espectrometria e cromatrografia que permitem uma leitura e identificação muito mais rápida.

"Se a substancia é ilícita é armazenada dentro da PJ e incinerado quando o juíz dá razão. Se foram substâncias como farinha devolvemos à pessoa. Quando é um ácido ou uma substância perigosa ficamos com ele, mas geralmente é pouco e é gasto durante a perícia", adianta a investigadora.

Os desafios do desconhecido e das restrições da amostra

"Muitas vezes está-se no completo desconhecido – isso é um desafio técnico e científico muito grande: chegar a uma resposta quando, à partida, todas as respostas são possíveis", acrescenta Álvaro Lopes, especialista nesta área, salientando que uma das especificidades de seguir rotinas de experimentação numa laboratório científico é que só existe uma amostra, com um tamanho que não é o que o investigador quer ou pode ter mas aquele que foi apreendido, logo, tem de ser preservada ao máximo.

"Não se pode estar ali indefinidamente a fazer experiências. Não se pode destruir a prova", frisa.

Porque o LPC é um laboratório de polícia, as preocupações não são meramente científicas. Os prazos são mais apertados – oito dias para dar o primeiro relatório – e existe a chamada "custódia da prova": o vestígio tem de estar guardado e documentado de maneira a que se saiba, desde o momento de entrada na unidade, quem e quando é que mexeu no material.

Na unidade com um aspecto discreto, os equipamentos mais caros estão no departamento de Biologia, onde se faz a análise de vestígios como sangue e esperma, nomeadamente exames de DNA em sequenciadores. Nesta secção, um simples ensaio pode custar mil euros euros, diz Álvaro Costa.

No laboratório onde os sectores colaboram uns com os outros e se destacam áreas como a física, química e biologia, descobre-se um pólo de actividade que na moldura criminal do país, dizem os investigadores, é responsável por uma grande carga de trabalho: a documentoscopia e a escrita manual.

Segundo as técnicas responsáveis, a maior parte dos documentos contrafeitos no país diz respeito a documentos de identificação e viagem – Bilhetes de Identificação, Passaporte e Cartas de Condução, e documentos fiduciários – cheques, cartões de crédito e notas de banco, sobretudo o euro (são o laboratório nacional de análise do euro); O grosso da falsificação de escrita manual é representado pelas assinaturas falsas e documentos de índole económica, entre eles contratos e letras.

No sector de documentoscopia analisa-se tudo o que diz respeito a elementos de segurança nos documentos, autentificação da emissão, papel, selos, através de instrumentos como lupas e microscópios que, através de diferentes tipos de luz, permitem detectar, por exemplo, diferenças ao nível da tinta entre o registo original e o suspeito.

Quando as perícias são mais exigentes, nomeadamente se é preciso perceber se uma factura foi preenchida toda com a mesma caneta, há hipótese de utilizar um método conhecido por espectroscopia Raman. Para tudo o que diz respeito ao papel - gramagem, espessura e fibras, é solicitada ajuda ao laboratório de papel da Casa da Moeda.

"Fazemos uma análise não destrutiva. Por vezes, pode ser necessário aplicar uma pincelada de colóide de ouro, mas macroscopicamente não se percebe", explica ao CH a responsável.

Informações confidenciais previnem novos crimes

"Temos um registo desde 1989 com a origem e descrição de todos os documentos contrafeitos analisados no laboratório. Em cada exame, é dito à polícia e tribunais se aquilo que está ali já era conhecido ou se é novo – costumamos indicar-lhes tudo minimamente, porque os relatórios vão para tribunal e o arguido tem acesso a eles. Não nos interessa explicar onde falharam", acrescenta a investigadora, neste momento a preparar-se para analisar beatas da marca Malboro encontradas num veículo acidentado, de que resultou um morto, em que importa determinar se são da qualidade fumada pelo proprietário e condutor do veículo.


Já no departamento de escrita manual, que tem uma sala denominada "sala de autógrafos" onde os indivíduos solicitados pela investigação vão fazer os ditados à mão, um dos recursos na base das comparações levadas a cabo, o trabalho passa por determinar a autoria de escritas suspeitas. Com a ajuda de lupa e microscópio, os técnicos comparam escritas suspeitas com escritas identificadas, atendendo a características gerais como as formas de ligação, se a letra é mais angular ou curva, se é maior ou menor, e a pormenores identificativos, que se assimilam desde que se aprender a escrever com letra "de primária".

Depois das perícias, os investigadores podem ser chamados para defender os relatórios em tribunal, havendo casos em que é pedido uma contra-análise, uma forma muito especial de garantir aqui critério de verificabilidade da ciência.

Informação em excesso?

Com tanta ficção sobre a polícia científica, os criminosos não estarão a ficar mais cautelosos? "É inevitável. Estamos numa sociedade de informação e conhecimento, há uma exposição muito grande. É o revés da medalha da sociedade dita da informação - as pessoas mais atentas conseguem aprender muita coisa", diz Álvaro Lopes.

Mas os investigadores também aprenderam nos últimos anos – não há muito tempo, conta a responsável da documentoscopia, sublinhavam a marcador fluorescente o sítio onde achavam que um documento tinha sido rasurado e agrafavam ou colavam as provas, "geralmente sempre em cima do sítio que interessava", brinca a investigadora.

A médio prazo, o desejo é remodelar instalações e talvez introduzir novas tecnologias como a técnica Low Copy Number, um protocolo mais sensível na determinação do DNA e que foi utilizado no caso Maddie por peritos ingleses e automatizar muitas das metodologias já existentes.

Compensação a curto prazo

"Todos os trabalhos com ciência são fascinantes mas, a muitos deles, falta-lhes a compensação com o prazo daquilo que é feito. O trabalho de investigação vai correndo, dias, semanas, meses. Aqui cada caso é um caso e nós, ao demonstrarmos determinada coisa, utilizamos ferramentas científicas para iniciar, continuar e terminar um trabalho", diz o director enquanto nos aproximamos do final da visita.

"Trabalhamos em casos concretos em que alguém está muito à espera da resposta. Na ciência geral está toda a gente à espera de conhecimento científico mas os efeitos não são tão imediatos nem tão objectivos", sublinha.

Ajudam a resolver ao microscópio histórias de que não sabem nem o princípio nem o fim. O que, com o acréscimo de solucionar os problemas das pessoas e, ao mesmo tempo, combater os prejuízos sociais do crime, dá vontade de dizer "missão cumprida", diz Álvaro Lopes. Ali, como em qualquer outra área, a expressão é sinónimo de muito trabalho mas de um bom serviço.

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