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09/09/2006 - Le Monde / UOL Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

EUA acusam a Coréia do Norte de fabricar "super-notas" falsas de dólares

Por: Philippe Pons


É um pequeno edifício elegante de estilo colonial - com fachada amarela desbotada, molduras brancas e persianas verdes - situado numa das últimas ilhotas da antiga Macau. Ele abriga a sede da BDA (Banco Delta Asia). A priori, este cenário tranqüilo não incita a ver neste banco de importância mediana dirigido por uma família a peça essencial de um roteiro explosivo à James Bond: dólares falsos, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e organização de agentes secretos cujas ramificações se estenderiam de Pyongyang até os extremistas irlandeses, passando por veteranos do KGB (antigo serviço de inteligência da ex-União Soviética)...

Alfinetado em setembro de 2005 por Washington, onde é considerado como "um emaranhado das atividades ilegais da Coréia do Norte em Macau", o BDA é acusado de "lavagem de dinheiro" proveniente dos tráficos diversos perpetrados pelo regime e de "pôr em circulação dólares falsos". O Departamento do Tesouro americano afirma ter as "provas" das "atividades ilegais" das quais ele teria se tornado cúmplice, mas não forneceu nenhuma até agora, nem mesmo às autoridades de Macau, igualmente "crucificadas" em Washington por causa da insuficiência dos seus controles em relação á lavagem de dinheiro por intermédio dos seus cassinos.

Stanley Au, o presidente do BDA, qualificou as acusações americanas de "piada ridícula". Mas era tarde demais. As suspeitas públicas de Washington provocaram o pânico dos clientes correntistas e detentores de poupança do banco, os quais, retirando bruscamente seus haveres, obrigaram as autoridades de Macau a capitalizá-lo novamente. Atendendo a um pedido dos Estados Unidos, as contas norte-coreanas abertas do BDA - uma dezena de estabelecimentos comerciais e bancários - foram congeladas, enquanto o próprio banco foi colocado sob tutela pública. Entretanto, as conclusões de uma auditoria, que não foram reveladas, estariam longe de comprovar as acusações que pesam contra ele, segundo indicam fontes financeiras locais. O BDA anunciou ter rompido todo vínculo com aquelas empresas norte-coreanas, mas ele permanece em situação difícil: por medo de eventuais retaliações de Washington, nenhum outro banco negocia mais com ele.

Entre 2002 e 2005, o BDA comprou 9,2 toneladas de ouro da Coréia do Norte, rica em minérios. Esses estoques foram revendidos a US$ 1,5 a onça-ouro para uma companhia alemã negociante em metais preciosos, a Heraeus Holding Gmbh.

Com isso, Pyongyang havia faturado US$ 120 milhões (equivalente hoje a R$ 258,89 milhões). Aquela era uma transação "legal", segundo argumentou o BDA, que tinha como cliente, entre outros - além de oito sociedades estrangeiras que faziam negócios com a República Popular Democrática da Coréia (RPDC) - o Deadong Commercial Bank, acusado por Washington de envolvimento em operações de vendas de armas.

O BDA também gerenciava nove contas de particulares norte-coreanos - a elite do regime -, por um montante total de US$ 24 milhões (R$ 51,78 milhões). A meada das operações lícitas - e daquelas que o eram menos - é tanto mais difícil de desenredar que, na sua maioria, as transações eram então realizadas em dinheiro líquido, e que os fundos chegavam e eram encaminhados dentro de malas, por avião. A divisa norte-coreana não é conversível no mercado internacional, e por isso Pyongyang deve quase sempre utilizar dinheiro líquido para efetuar suas transações com o exterior.

Outros bancos estariam na berlinda de Washington: o Banco da China - onde os bancos norte-coreanos são correntistas - e o Seng Heng, de propriedade de Stanley Ho, o imperador do jogo em Macau, que abriu um cassino dentro de um hotel de Pyongyang. Ao ver suas atividades serem questionadas pelo "Wall Street Journal", o Seng Heng comprou imediatamente páginas de publicidade neste diário para clamar sua inocência e sua lisura.

Em contrapartida, o banimento do BDA se seguiu a duas apreensões espetaculares de dólares falsos durante o verão de 2005, em Taiwan e nos próprios Estados Unidos. Cerca de cinqüenta membros das tríades (a máfia chinesa) foram presos e US$ 4,4 milhões (R$ 9,49 milhões) em notas falsas foram recuperados no decorrer das operações americanas batizadas de "Charme Real" e "Dragão Fumegante".

Segundo David Asher, um antigo membro do Departamento de Estado encarregado das questões do Extremo Oriente, dois dos bandidos que foram presos estariam a serviço da Coréia do Norte, que os teria contratado para escoar falsas cédulas de US$ 100. Denominadas de "super-cédulas", essas notas falsas são praticamente indiscerníveis das verdadeiras: a gravura, a tinta e a composição do papel são semelhantes às dos originais. Essas "super-notas", que circulam pelo mundo afora graças a conivências com o crime organizado, teriam um tronco comum: Pyongyang.

Segundo Washington, nenhum escroque, nem mesmo cartéis criminosos bem organizados seriam capazes de fabricar notas falsas com tão grande
qualidade: apenas um Estado teria os meios para tanto. Após ter denunciado atividades parecidas do Irã durante os anos 90, Washington acusa, portanto, novamente a Coréia do Norte. "O dinheiro falso é apenas o topo de um iceberg de atividades ilegais da RPDC, cuja estrutura conduz até a cúpula do Estado", comenta David Asher.

Assim, Sean Garland, o chefe de um pequeno grupo republicano radical da Irlanda do Norte que no passado era próximo ao IRA (Exército nacional do Estado Livre da Irlanda, organização separatista), teria escoado super-notas falsas na Europa. Preso em Belfast, em outubro de 2005, este veterano da luta armada foi objeto de um pedido oficial de extradição pelos Estados Unidos, por meio de um documento no qual a Coréia do Norte é acusada de fabricar falsa moeda, de tráfico de drogas e de contrabando de cigarros...

Segundo os serviços de inteligência americanos, o irlandês, que optou por ficar calado na sua prisão em Belfast, teria estado em contato com diplomatas do regime de Kim Jong-il encarregados de escoar dólares falsos por intermédio de veteranos do KGB. Ele também teria viajado em várias oportunidades para Pyongyang...

Os Estados Unidos haviam acusado a RPDC de ser um "Estado falso moedeiro" desde o final dos anos 80. Após um quase-silêncio em relação a esta questão que foi mantido durante anos, a administração Bush voltou a colocá-la sobre a mesa. Um amalgama de precedentes e de novos confiscos alimenta as presunções de culpabilidade da RPDC.

De fato, alguns dos casos são espetaculares. Assim, em junho de 1994, vários coreanos do Norte se apresentam em dois bancos de Macau para depositar US$ 250.000 (R$ 539.350) em dinheiro líquido. Essas cédulas de US$ 100, que cheiram a tinta fresca, são falsas. A polícia efetua uma operação de busca na sede da companhia de comércio norte-coreana Zokwang e descobre prensas para fabricação de notas, que ela confisca. Dois dias mais tarde, agentes americanos desembarcam na cidade para examiná-las: elas desapareceram...

Antes da retrocessão de Macau para a China, em 1999, Pequim "reinava" sobre o enclave: os tríades haviam simplesmente "recuperado" as prensas de moedagem antes da chegada dos americanos.

O diretor da companhia Zokwang e cinco dos seus colaboradores foram presos. Protegidos pela sua imunidade diplomática, eles foram enviados de volta para a RPDC. E o caso parou por aí. Segundo os serviços de inteligência sul-coreanos, a Zokwang é a emanação de dois organismos que dependem do comitê central do Partido do Trabalho: o "centro 35", que colhe as informações sobre os países estrangeiros, e o "centro 39", que tem um controle total sobre os fundos financeiro aplicados além-mar.

Menos suspeitosa e mais indulgente do que Hong-Kong do tempo dos britânicos, a colônia portuguesa era uma "janela" sobre o exterior para Pyongyang, A Zokwang era a sua base logística. Atualmente, as suas dependências num prédio anônimo da Avenida de Sidonio Pais, em frente à sede da polícia do trânsito, estão vazias. As cerca de vinte empresas norte-coreanas presentes em Macau se refugiaram em Zhuhai, na China metropolitana.

Até o escândalo do BDA, os coreanos do Norte estavam assim como peixinhos na água em Macau. Ali, o regime contava com o apoio do banqueiro Ho Yin, o homem de Pequim no enclave, um antigo cambista em Cantão que fizera fortuna com o tráfico de armas durante a Segunda Guerra mundial e o conflito na Coréia, e cujo filho, Edmund, é hoje chefe do governo executivo de Macau. A antiga colônia portuguesa era um centro estratégico para as operações financeiras do regime: foi por esta cidade que transitou uma parte dos US$ 500 milhões (R$ 1.078,7 bilhão) que foram oferecidos por Seul para a realização da cúpula de junho de 2000 entre os dirigentes do Norte e do Sul.

A recepção dos fundos (pelo BDA...) foi confirmada por uma ligação telefônica interceptada pelos serviços de inteligência sul-coreanos.

Pyongyang também teria utilizado Macau para realizar seus "trabalhos sujos". Três tailandesas teriam sido seqüestradas no enclave em 1978, e Kim Hyun-hee, a autora do atentado a bordo de um avião de linha da Korean Airlines acima do mar de Andaman, em 1987 (115 mortos), nele residiu durante seis meses. Esta última conta na sua autobiografia, "The Tears of my Soul" (As Lágrimas da minha alma), que ela foi enviada para Macau para se aperfeiçoar em cantonense e aprender a viver como "capitalista": utilizar os cartões de crédito e freqüentar as discotecas. Pyongyang nega todo envolvimento neste atentado.

Depois da retrocessão de Hong-Kong para a China, em 1997, Pyongyang abriu um consulado nesta cidade. Mas Macau, ainda assim, continuava sendo interessante, por ser uma das maiores "máquinas de lavar dinheiro" do planeta. Ali, todo ano, bilhões de dólares transitam pelas mesas de jogos dos seus cassinos. Por ali circulam lado a lado tríades, máfia russa, yakuzas, prostitutas de todas as nacionalidades, pequenos bandidos, traficantes poderosos e agentes secretos: ou seja, toda uma fauna que confere à cidade um aspecto que lembra a Casablanca da grande época...

Ali, Pyongyang conta com a colaboração de um personagem da sombra chamado Wong Sing-wha, um "empreendedor" chinês que exerceu a função de cônsul honorário da RPDC. Um parceiro de Stanley Ho no cassino de Pyongyang, o homem obteria seus dividendos entre outros do comércio das armas e teria negócios no Camboja. Por Coincidência, a Coréia do Norte dispõe em Phnom Penh de uma enorme embaixada de estilo colonial que foi colocada à sua disposição pelo ex-rei Norodom Sihanouk. Os laços da Sua Majestade com o falecido "Grande dirigente" Kim Il-sung eram estreitos: Pyongyang foi durante um tempo o refúgio do monarca brincalhão. Com o seu retorno em definitivo ao país, em 1991, os coreanos do Norte nele entraram com tudo, alguns até mesmo como guarda-costas do ex-rei. O diplomata norte-coreano que nos recebe em Phnom Penh é afável, mas ele não fala. "Tudo o que eu diria se voltaria contra nós, portanto eu não digo nada..."

Contudo, o "incidente" é memorável: no final da tarde de 23 de março de 1996, uma Mercedes com vidros escuros arranca com tudo da embaixada e segue em velocidade rumo à fronteira vietnamita. O veículo é imediatamente perseguido pela polícia khmer. Na chegada ao posto fronteiriço de Bavet, a 160 quilômetros a leste de Phnom Penh, três dos seus ocupantes saem do carro, erguendo quatro passaportes diplomáticos. O quarto homem recusa-se a sair do veículo. Nele ele permanecerá obstinadamente durante 24 horas, "se alimentando, dormindo e urinando" ali mesmo, segundo relata o "Phnom Penh Post".

Quem era aquele misterioso personagem? Um japonês chamado Yoshimi Tanaka, um ex-membro do pequeno grupo Exército Vermelho, que seqüestrara em 1970 um avião de linha da Japan Airlines, forçando-o a pousar em Pyongyang. Após terem permanecido nesta cidade, os jovens terroristas nipônicos foram mais tarde encarregados pelo regime de "missões" na Europa e na Ásia. No ano anterior, Tanaka fora descoberto morando em Pattaya, na Tailândia, escoando dólares falsos. Ele havia conseguido refugiar-se na embaixada norte-coreana em Phnom Penh, onde a Interpol o havia localizado.

Após ásperas negociações com a polícia khmer - que incluíram desde uma ameaça de "recorrer ao rei, um amigo do povo coreano", até uma oferta de propina, de US$ 10.000 (R$ 21.574) -, Tanaka foi preso. Ele estava de posse de três passaportes norte-coreanos e de US$ 40.000 (R$ 86.296) falsos. Ele teria escoado 3 milhões dessas "super-cédulas" na Tailândia. Segundo o perito japonês em moeda falsa, Yoshihide Matsumura, "essas notas não eram aquelas que circulam no Oriente Médio ou na Rússia". "Após examiná-las", diz, "eu concluí que elas provinham da RPDC e eu as batizei de "Super K" (Korea)".

Desde então, os coreanos do Norte adotaram um "perfil baixo" no Camboja. Com exceção de alguns incidentes envolvendo navios com nacionalidade de "complacência" - dentre os quais um cargo interceptado em inspecionado em alto-mar, na orla do Iêmen em 2002, que transportava peças de mísseis -, nenhuma atividade ilegal lhes tem sido imputada neste país, cuja economia "dolarizada" facilita, contudo, a lavagem de dinheiro. Eles tampouco têm sido flagrados exercendo atividades ilegais nos cassinos novos em folha da fronteira com a Tailândia, nesta que é uma espécie de terra de ninguém imprensada entre a linha de demarcação e o posto fronteiriço cambojano. Os dólares falsos pululam. Em Phnom Penh, uma "boa" nota falsa não é destruída.

Os cambistas de rua os compram com um desconto de 30% a 40%. Qual é a sua origem? Nenhum indício "vem escorar a pista norte-coreana", afirma a polícia cambojana. A mesma resposta por ser ouvida na delegacia de investigação das infrações econômicas na Tailândia. Por enquanto, as "super-notas" conservam seu mistério.


Tradução: Jean-Yves de Neufville

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