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02/07/2008 - Portal Terra Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Estudo: fraude científica é mais comum do que se pensa

Por: Saswato R. Das


Um vasto estudo da incidência de fraude científica nos Estados Unidos foi recentemente publicado com resultados alarmantes: as fraudes são mais comuns do que pensamos. Cientistas desfrutam de grande credibilidade em seus pronunciamentos públicos - como aquecimento global, clonagem e evidências de novos mundos extraterrestres. Mas esse estudo sugere que tal confiança não é merecida.

Quase nove por cento dos 2.012 cientistas de 605 instituições pesquisadas pelo Escritório de Integridade Científica (ORI, na sigla em inglês), uma agência de monitoramento de pesquisas científicas nos EUA, disseram ter testemunhado algum tipo de fraude ou conduta inadequada nos últimos três anos. A agência estima que todo ano ocorram três incidentes de fraude para cada 100 pesquisadores.

"Um pós-doutorando que muda números em testes para 'melhorar' os dados" é como um cientista descreve o que parece ser uma prática comum de fraude em pesquisas. Como qualquer cientista sabe, essa manipulação de dados é proibida e invalida qualquer conclusão científica.

Normalmente, a agência investiga apenas 24 casos por ano. O órgão estima que ocorrem pelo menos 1,35 mil casos de condutas não condizentes com a prática científica nas universidades americanas todos os anos, a maioria não reportada ao ORI.

Ocorrência das fraudes

Apesar da pesquisa se limitar às áreas de saúde e biologia nos Estados Unidos, pode-se sugerir a partir dos resultados que a fraude é provavelmente um fenômeno endêmico na ciência praticada em todo o mundo. (Na verdade, um dos casos mais notórios de fraude científica aconteceu na Coréia do Sul em 2005, quando se descobriu que Hwang Woo Suk havia fabricado os resultados que lhe permitiram alegar que havia clonado células-tronco humanas.)

É claro que a fraude na ciência não é um fenômeno recente. As mais respeitadas figuras da história da ciência já sofreram essas acusações. Galileu supostamente exagerou no resultado de seus experimentos; Newton manipulou informações em seu Principia para sustentar sua teoria do poder preditivo; e os experimentos de Mendel com ervilhas contêm dados estatisticamente bons demais para ser verdade. Dizem que no século II a.C. o astrônomo grego Hiparco se apropriou de um catálogo de estrelas babilônico e alegou que era o resultado de suas próprias observações.

Diversos escândalos de fraude têm abalado a comunidade científica recentemente. Em 2002, Jan Hendrik Schon, um jovem físico a trabalho dos Laboratórios Bell, cometeu o que possivelmente seja a maior fraude na física moderna ao falsificar, ao longo de quatro anos, resultados que abrangem campos diversos, como supercondutores e nanotecnologia.

Na mesma época, em 1999, no laboratório americano Lawrence Berkeley, na Califórnia, revelou-se que o cientista Victor Ninov havia mentido ao alegar a descoberta de um novo elemento químico superpesado, o 118.

Fatores influentes

Nunca houve tantos cientistas trabalhando quanto hoje em dia. A prática da ciência costumava ser restrita a um pequeno número de indivíduos ricos ou com patrões curiosos a respeito da natureza e que não tinham que se preocupar com o pão de cada dia. Hoje, a ciência é uma profissão estabelecida, com um salário e pressões de carreira, e as coisas funcionam de forma bem diferente. Cada vez mais só se pensa em subir na carreira e na necessidade de justificar o uso do fundo de pesquisa.

Eu estava no laboratório Bell quando o caso Schon veio à tona. Schon era jovem e carismático e parecia extremamente brilhante e produtivo (uma descrição comum quando se examina a personalidade de cientistas que praticam fraudes). Alegava realizar experimentos que causavam inveja a todos, coisas que eram tentadas há anos sem sucesso. Ele ficou conhecido como o menino das mãos de ouro.

Quando a fraude foi descoberta, um comitê investigativo encontrou evidências de inúmeras irregularidades - séries completas de dados foram reutilizadas em diferentes experimentos e alguns dados haviam sido gerados por equações.

Vendo em retrospecto os casos de Ninov e de Schon, ambos foram rapidamente desmascarados. No último caso, apenas um ano se passou entre Schon apresentar seus resultados espetaculares e se ver desempregado. Existe uma lição nisso tudo: fraudes científicas importantes são desmascaradas rápido.

Controle científico

A ciência se baseia na repetição, então qualquer grande descoberta está fadada a ser repetida e testada por grupos independentes. Se ela não puder ser reproduzida, ela está corrompida. Muitas fraudes foram descobertas dessa maneira. Muitas outras foram expostas por meio de denúncias.

Os cientistas sustentam com persistência que esse tipo de controle é o bastante. Afirmam que o fato de toda fraude ser descoberta é a prova de que o método científico funciona.

Mas obviamente há a necessidade de mais fiscalização na ciência, já que a auto-regulação parece não funcionar tão bem. O estudo publicado pelo ORI sugere que muitas fraudes podem passar despercebidas. Já que a maioria das pesquisas no mundo é financiada por contribuintes, um grau tão alto de irregularidades é inaceitável.

O ORI se posiciona a favor de uma política de tolerância zero, com proteção àqueles que denunciam (algumas vezes lamentavelmente faltantes) e exigência de comportamento-modelo de ética por parte dos líderes científicos.

Na maioria dos casos, pensamos: por que ele fez isso? Pode ser culpa daquela ciência em que o vencedor ganha tudo - a primeira pessoa a realizar um experimento específico ou a abarcar uma teoria específica fica com todo o crédito.

A realidade é que é pouco provável que nos livremos da fraude científica. As pressões para fazer um nome e a tentação de pegar atalhos sempre vão existir. Em última instância, a ciência é um engenho humano e falhas humanas fazem parte de sua história. Precisamos apenas fazer um trabalho melhor ao reconhecer isso - e criar salvaguardas contra essas falhas.


(Saswato R. Das vive em Nova York e escreve sobre astronomia e astrofísica.)

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