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05/12/2005 - Globo.com Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Novo golpe com cartão de crédito


Noite movimentada no Rio de Janeiro.

Em um lugar lotado e barulhento, um grupo de homens conversa sem chamar a atenção. De longe, uma câmera registra o encontro. Quem filma são agentes da Polícia Federal, numa investigação que começou há um ano e meio.

Os homens reunidos à mesa fazem parte de uma quadrilha internacional de fraudadores, com conexões na Europa, Estados Unidos e América do Sul. A quadrilha clonava cartões de crédito e débito automático, num golpe aplicado em postos de gasolina – sempre em bairros de classe média alta. Um chip era instalado nas máquinas onde são passados os cartões.

“Um circuito impresso gravava a leitura de dados do cartão – tanto os dados como as senhas de seus proprietários”, explica Laior Servino, chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Patrimônio.

O passo seguinte era trocar a máquina do posto de gasolina por outra adulterada, com o chip que armazenaria os dados dos clientes. Mas o golpe não contava com a conivência dos frentistas. Como fazer a substituição?

“Eles enfaixavam a perna de uma pessoa, como se ela estivesse com uma fratura na perna. Botavam a gasolina. Na hora de digitar a senha, ele alegava que o dono do cartão estava com a perna quebrada e pedia para a máquina ser levada até o carro. O frentista, de boa vontade, levava”, conta Servino.

Os integrantes da quadrilha distraíam a atenção do frentista enquanto o homem da perna enfaixada trocava as máquinas.

“Quando se passava o cartão, a máquina não estava configurada. O que acontecia? Dava um erro. O frentista ligava para a empresa administradora e dizia que a máquina havia sido desconfigurada. Pelo telefone, online mesmo, eles configuravam a máquina. Ou seja: a máquina voltava a funcionar normalmente”, continua o delegado Lanoir.

Quinze dias depois, eles voltavam ao posto e desfaziam a troca. “A operação era a mesma: perna quebrada, levavam a máquina, botavam a verdadeira e levavam a falsa. Eles recuperavam a máquina com todos os dados que tinham obtido em 15 dias”, completa o delegado.

Cada chip tem a capacidade de armazenar os dados e senhas de 1,4 mil cartões. Segundo a Polícia Federal, mais de 20 mil cartões foram clonados pela quadrilha, que ainda vendia parte das informações a outros grupos no exterior.

As imagens dos policiais revelam quem são os fraudadores. O homem que criou o projeto do chip é Arlei de Oliveira Lima, engenheiro da Eletrobrás com 26 anos de empresa e salário em torno de R$ 8 mil.

Arlei disfarça e entra no carro. Logo em seguida, aparecem os irmãos André e José Guilherme Soares. José Guilherme olha desconfiado para o carro onde estão os policiais.

A quadrilha foi presa horas depois, numa pousada em Teresópolis, Região Serrana do Rio. O computador com os dados clonados ainda estava ligado.

Alexandre Schultz era o homem que ia aos postos de gasolina com a perna enfaixada. Ao lado de Alexandre, estão José Guilherme Soares, o irmão, André Soares, e o engenheiro Arlei Lima.

A ironia: Arlei disse no depoimento que já havia tentado vender às administradoras de cartão de crédito um projeto contra fraude.

“Um projeto de criptografia, em que ninguém poderia fazer o que ele estava fazendo. Ou seja: violar aquela criptografia. Mas ele disse que procurou, e as empresas não aceitaram. Então, ele resolveu passar para o outro lado”, conta o delegado Laior.

José Guilherme e André são donos de mansões no Rio.

Em e-mail enviado ao Fantástico, a Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços (SIGLA) informa que "o setor vem fazendo elevados investimentos no sentido de prevenir e dificultar a fraude com cartões" e também que "considera o nível de segurança nas transações totalmente compatível com os padrões internacionais e um dos mais seguros meios de pagamento usados no país".

Arlei, Alexandre, André e José Guilherme vão responder pelos crimes de formação de quadrilha, interceptação telefônica, furto de dados e tentativa de estelionato. Podem ser condenados a até seis anos de prisão. Por enquanto, o prejuízo causado por esse novo golpe ainda não foi calculado.

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