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21/03/2008 - Folha de São Paulo Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Movimento de capitais assusta o mercado de commodities

Por: Diana B. Henriques


O MERCADO de commodities está florescendo e se tornando cada vez mais atraente aos investidores. Ativos sólidos como o petróleo e o ouro podem oferecer hedge seguro contra a inflação e ao mesmo tempo ganhos na casa dos dois dígitos -ingrediente que já não se vê nos mercados de ações, títulos e imóveis.
Indiferentes à instabilidade que causou queda de 4,5% ao petróleo na quarta-feira, levando-o à cotação de US$ 104,48 por barril, os grandes fundos de investimento e os investidores individuais de alta renda investiram uma torrente de dinheiro nesse complexo mercado ao longo dos últimos 12 anos, batendo todos os recordes quanto ao ingresso de capital novo.
Os pequenos investidores também estão mergulhando, usando dezenas de novos fundos de varejo de commodities a fim de participar de mercados que, de acordo com um indicador, subiram quase 20% nos últimos seis meses e dobraram seu movimento nos últimos seis anos.
Mas, a despeito de seu brilho, o mercado oferece riscos peculiares, entre os quais algumas perigosas vulnerabilidades que prejudicam a capacidade das autoridades regulatórias para patrulhar fraudes e proteger os investidores. As commodities também estão vulneráveis às mesmas preocupações que afetam o restante de Wall Street.
Além disso, os grandes especuladores e financiadores do mercado de commodities são os mesmos fundos de hedge gigantes, bancos comerciais e corretoras que se deixaram apanhar na borrasca que vem varrendo os mercados de ações, de habitação e de crédito.
Como nesses mercados, uma evaporação de crédito poderia forçar alguns grandes investidores, especialmente os fundos de hedge que especulam usando dinheiro emprestado, a vender posições, o que criaria oscilações capazes de afetar diversos preços e de varrer os pequenos investidores em minutos.

"Momento assustador"

"O momento é assustador" para as autoridades regulatórias do mercado de commodities, disse Michael Riess, diretor do Instituto Internacional dos Metais Preciosos, consultoria que aconselha investidores em commodities há mais de 30 anos. "Não se trata de uma questão de excesso ou falta de regulamentação, mas sim de excesso de volume, instabilidade e de uma virada dramática em direção dos interesses especulativos".
Walter Lukken, o comissário da agência federal norte-americana que regulamenta a maioria dos mercados de commodities, disse que sua equipe até agora conseguiu enfrentar tanto o crescimento do mercado como os tremores recentes nos mercados.
"Mesmo com o enorme volume que surgiu", disse Lukken, presidente interino da CTFC (Comissão de Transações de Commodities e Futuros), "acreditamos que nosso controle sobre o mercado esteja firme. Não se pode apanhar todos os problemas, e nos preocupamos com a possibilidade de que alguma coisa nos escape.
No entanto conseguimos ampliar o sistema de fiscalização a fim de atender ao volume mais elevado".
As autoridades regulatórias e funcionários das Bolsas se reconfortam com a alta nos preços das commodities, que gera redução no risco de que os provedores de fundos passem a se preocupar com questões de caução e suspendam o fluxo de dinheiro para o mercado.

Montanha-russa

Mas o mercado vive uma montanha-russa: as alterações diárias nos preços das commodities atingem percentuais que deixam no chinelo as movimentações das ações. Ontem, o petróleo perdeu parte de seu avanço de 85% no ano, e o ouro caiu cerca de 6% depois de ter avançado 44,5%; o índice Standard & Poor's 500 caiu 2,4%, o que o deixa 7,4% abaixo de sua marca no final em 2007.
Assim, os investidores em ações que estão em busca de ganhos formidáveis como esses enfrentarão território desconhecido. O coração do mercado de commodities é o mercado à vista, um lugar "apenas para profissionais", no qual operadores vendem cargas completas de minérios de ferro, petróleo ou trigo, para uso imediato.
Em torno desse núcleo, existem diversos mercados futuros de commodities. Neles, os fundos de hedge e os especuladores negociam diversas versões de um derivativo conhecido como contrato futuro, que determina a entrega de determinado volume de uma determinada commodity em data determinada e a preço determinado.
Os preços aos quais esses contratos são negociados indicam a força potencial da oferta e da procura de commodities ainda não extraídas ou cultivadas. Isso os torna importantes para todos que produzam, comprem e usem esses bens -agricultores, fabricantes de alimentos, redes de varejo, petrolíferas, geradoras de eletricidade e consumidores.
Os preços desse mercado também podem influenciar os cada vez mais populares ETFs, fundos negociados em Bolsa cujo foco são investimentos em commodities. Criados há apenas quatro anos, esses fundos detinham ativos líquidos de US$ 32,8 bilhões em janeiro, ante menos de US$ 4,8 bilhões em 2005.
Mas à medida que os mercados futuros cresciam, a capacidade das autoridades regulatórias para policiá-los se reduzia, como resultado de lacunas legislativas e de decisões judiciais adversas. E, a despeito da concordância generalizada de que essas lacunas fazem mal aos investidores e aos consumidores, elas continuam a existir.
A mais antiga delas é a chamada "lacuna Enron", uma cláusula acrescentada no último minuto à lei de modernização dos mercados futuros de commodities aprovado em 2000, sob a qual mercados privados de energia, como o criado pela Enron antes de seu escandaloso colapso em 2001, ficam isentos de regulamentação.
Posteriormente, as autoridades regulatórias acusaram a Enron de usar esse mercado para causar prejuízos a inúmeros usuários de energia elétrica, quando a empresa manipulou os preços dos contratos de energia da Califórnia.
Há uma segunda lacuna, ainda mais grave, vinculada àquela, que cobre uma categoria conhecida como "mercados comerciais isentos". A lei de 2000 criou essa categoria como uma maneira de estimular mercados profissionais inovadores para commodities não-agrícolas, que podem não precisar de tanto escrutínio como os produtos negociados em aberto.
O que os legisladores não antecipavam era que um desses mercados isentos, conhecido como ICE, se tornaria o pólo de operações de um produto que espelha as transações futuras de gás natural realizadas na Bolsa Mercantil de Nova York.
Em 2006, operadores de um fundo de hedge usaram o contrato de imitação da ICE como parte do que as autoridades regulatórias posteriormente definiram como esquema de manipulação dos preços do gás natural, uma vez mais causando imensos prejuízos aos consumidores. O fundo nega a acusação, e o processo civil sobre o caso ainda não foi decidido.
O caso persuadiu a comissão de que ela precisava de mais poder para fiscalizar os mercados isentos, pelo menos nos casos em que eles influenciam a formação de preços de commodities. Mas até agora o Congresso não autorizou essa ampliação de poderes.
Os tribunais também cercearam os poderes da comissão. Em três casos posteriores a 2000, juízes interpretaram as leis federais de uma maneira que limita severamente a capacidade da comissão para combater fraudes envolvendo mercados de balcão e contratos de câmbio dúbios, usados para prejudicar investidores.
A comissão apelou dessas decisões, mas uma solução bem mais rápida seria que o Congresso simplesmente revisasse as leis da maneira solicitada pela comissão.

"Burro" x "inteligente"

Por fim, o mercado de commodities ainda não enfrentou aquilo que alguns economistas apontam como conflitos inerentes, surgidos quando as Bolsas de futuros, que sempre tiveram importantes poderes de auto-regulamentação, foram convertidas em empresas com fins lucrativos, cujas responsabilidades para com seus acionistas poderiam conflitar com as funções de fiscalização.
Em contraste, quando a Bolsa de Valores de Nova York e a Nasdaq se converteram em empresas com fins lucrativos, elas transformaram seus departamentos de fiscalização em organizações independentes, hoje unidas sob o nome de Autoridade Regulatória da Indústria Financeira.
A CTFC jamais encorajou essa abordagem, optando por adotar princípios que encorajassem as Bolsas com fins lucrativos a apontar conselheiros independentes que supervisionassem suas operações de auto-regulamentação. Mas alguns participantes experientes do mercado de commodities continuam nervosos com a entrada tão rápida de tamanho volume de dinheiro. "As tradings de commodities que sobreviveram por longo período têm excelente administração de riscos", disse Jeffrey Christian, diretor executivo do CPM Group. Ele disse que não estava tão seguro quanto à competência dos recém-chegados para lidar com o risco.
"O dinheiro que está chegando agora ao mercado é o dinheiro burro", disse ele na semana passada. "E creio que o dinheiro inteligente vai se assustar um pouco quanto ao que o dinheiro burro pode fazer."

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