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10/03/2008 - Gazeta Online Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

O golpe do DPVAT: a máfia que se aproveita da tragédia do trânsito


Um esquema milionário, que se aproveita da dor e da falta de informação das pessoas, a máfia do seguro DPVAT sobrevive graças a uma bem armada rede de golpistas. Investigações feitas na Grande Vitória, às quais A GAZETA teve acesso exclusivo, apontam para o envolvimento de despachantes, advogados e até médicos no esquema.

Conhecido como seguro obrigatório, o DPVAT é pago às vítimas ou às famílias das vítimas de acidentes de trânsito. Em 2007, a arrecadação do seguro chegou a R$ 3,7 bilhões no país. No Estado, foram pagas quase 5 mil indenizações — no país, a média é de duas indenizações por minuto. Só que boa parte desse dinheiro vai parar nas mãos erradas.

Despachantes que percorrem a cidade atrás de acidentes de trânsito ou que ficam na porta de hospitais e do Departamento Médico Legal (DML) são o primeiro degrau da fraude. O papel deles é pressionar os familiares a assinar uma procuração para dar entrada na liberação do seguro. No desespero, muitos caem na armadilha.

"Essas pessoas criam dificuldades, falam que os familiares não conseguirão receber o seguro sozinhos. No fim, ficam com metade da indenização, quando não levam tudo", explicou o presidente do Convênio DPVAT da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados, Ricardo Xavier.

Segundo ele, 50% das pessoas que fazem os pedidos de indenização são de baixa renda. Além da falta de informação, elas não têm conta em banco, o que facilita a ação dos golpistas. De posse de uma procuração, eles sacam a indenização na boca do caixa, com uma ordem de pagamento, e somem com o dinheiro. Nesta reportagem, os nomes das vítimas do golpe serão preservados por segurança.

Mercado da informação

Funcionários de hospitais estão sendo investigados como fornecedores de informações de vítimas para os despachantes. Há indícios de que médicos também fazem parte do esquema, passando laudos irregulares. A reportagem não está divulgando nomes para não comprometer as investigações.

As indenizações do seguro DPVAT podem chegar a R$ 13,5 mil, o que dá um rendimento mínimo de R$ 4 mil para os intermediários, que costumam cobrar 30% do valor da indenização. Porém, na hora do pagamento, são criadas várias despesas, e muitas vezes o beneficiário fica com uma quantia mínima.

Também não é raro que o intermediário suma com todo o dinheiro. Na maioria das vezes, o beneficiário fica com o trabalho de juntar a documentação. O advogado só dá entrada no processo e recebe a indenização.

Família é coagida por advogado

Quando a dona de casa Ivone (nome fictício), moradora de um bairro nobre de Vitória, chegou ao local onde o marido havia acabado de sofrer o acidente, foi surpreendida por um rapaz que só falava em um seguro que ela tinha para receber. "Ainda nem sabia o que tinha acontecido com o meu marido. E o rapaz não desgrudou mais de mim", conta.

No hospital para onde o marido foi encaminhado, o despachante continuou a insistir. "Ele veio me perguntar que tipo de caixão eu ia querer, sendo que eu nem sabia que meu marido havia morrido. Também quis me vender uma sepultura e disse que o funeral era pago pelo seguro", recorda. A filha de Ivone lembram que para tudo o rapaz tinha pressa. "Ele ligava para a gente sem parar. Como ninguém sabia desse seguro, a gente caiu direitinho." Ela lembra que em nenhum momento o despachante esclareceu para a família o que era o seguro DPVAT nem qual era o procedimento para receber a indenização.

O despachante queria que Ivone entregasse os documentos dela e do marido. "Disse que não daria os documentos. Então ele marcou um encontro no dia seguinte ao enterro, no escritório do advogado para quem trabalhava." No escritório, a dona de casa foi ameaçada pelo advogado, que disse que a processaria se ela desistisse dos serviços dele para receber a indenização. Ivone tentou argumentar, mas o advogado exigiu que ela assinasse a procuração.

"Tentei desfazer a procuração, mas o advogado sempre dizia que eu teria que pagar para ele uma multa alta", conta. O advogado ficou com 20% da indenização, no valor R$ 13,5 mil.

Abordagem desde o hospital

O dinheiro que o vigilante Marcos (nome fictício) contava para comprar um barraco onde poderia morar com a esposa, vítima de atropelamento, quase foi parar nas mãos de uma mulher que se apresentou como advogada e se ofereceu para resgatar o seguro DPVAT.

"Ela me abordou na enfermaria do São Lucas, quando minha mulher ainda estava sendo atendida. Fica um monte deles lá na frente do hospital, pressionando a gente. Mesmo sem saber ler direito, ela assinou a procuração. A gente acaba confiando, porque está num momento de desespero", conta.

Pouco depois, um policial alertou Marcos. "Ele disse que ela não era advogada e que já havia passado a mão no dinheiro do seguro de muita gente. Foi por um fio. Ainda bem que consegui anular a procuração."

O vigilante procurou o Sindicato dos Corretores, por onde fez todo o processo de graça. Marcos conta que, mesmo com a gravidade das lesões sofridas pela mulher, ele não conseguiu receber o valor total do seguro por invalidez.

Na própria seguradora onde foi feita a perícia, ele foi abordado por uma moça que lhe deu um cartão de uma despachante. "Ela me disse para procurá-la caso não conseguisse receber tudo. Enfermeiros e policiais também entregam esses cartões."

O dinheiro da indenização acabou com o pagamento de dívidas e das despesas médicas. Agora, Marcos vai arriscar e contratou outra despachante para tentar conseguir o restante do seguro.

"Vamos ver se esta é honesta. Estou afastado do trabalho e morando de favor. Preciso desse dinheiro", lamenta.

Por dentro do seguro

O que é. Seguro por Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT). É o seguro obrigatório pago pelos proprietários de veículos. Não cobre acidentes com trens, barcos, bicicletas e aeronaves. É pago para vítimas de acidentes de trânsito, sejam pedestres, caronas ou motoristas, independente de quem causou o acidente

O que cobre. O seguro não cobre roubo, colisão ou incêndio do veículo e pode ser resgatado em caso de:


  • Morte: decorrente de acidente com veículos ou cargas transportadas por eles
    R$ 13,5 mil é o valor do seguro

  • Invalidez permanente: a indenização é calculada com base no percentual de invalidez especificado em tabela e de acordo com o órgão lesado. São necessários laudos médico e pericial
    Até R$ 13,5 mil

  • Despesas médicas: reembolso de despesas médicas comprovadas
    Até R$ 2,7 mil

Prazo. A solicitação, feita pela vítima ou por familiares, no caso de morte, deve ser feita até três anos da data do acidente. O recebimento é feito 30 dias após entrada no processo, aproximadamente

Documentação. Varia de acordo com o tipo de indenização. Mas o boletim de ocorrência policial do acidente é fundamental

Desespero

O despachante veio me perguntar que tipo de caixão eu ia querer. Eu nem sabia que meu marido havia morrido"
Ivone, nome fictício

Insensibilidade

Ela me abordou na enfermaria do São Lucas, quando minha mulher ainda estava sendo atendida"
Marcos, nome fictício

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