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21/02/2008 - administradores.com.br Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

A economia da fraude, nem sempre inocente

Por: Cláudio Lembo


Quando as primeiras atividades econômicas, lá nas cidades marinheiras da Itália, começaram a se desenvolver com mais intensidade, nascia o capitalismo.
Nos primeiros tempos, o capitalismo mercantil, a mera troca de objetos entre os habitantes da bacia mediterrânea. Depois, ao norte, os ingleses implantaram o capitalismo industrial.

A caminhada do capitalismo prosseguiu. Nos tempos contemporâneos emergiu o capitalismo financeiro, sem rosto e sem pátria. Como correntes marítimas, movem-se os fluxos financeiros, com mero fito de lucro.

A palavra capitalismo tornou-se sinônimo de pecado: o pecado da usura. No jargão diário, impunha-se sua substituição. Fora marcada pela tenacidade de Marx e pelo áspero estilo de Engels.

Acadêmicos foram convocados. Especialistas em comunicação cooptados. Surgiu o novo nome do capitalismo, expressão com conotação pejorativa. Sinônimo de exploração do homem pelo homem.

Criou-se a locução verbal sistema de mercados. A todos confundiu. Os velhos senhores - titulares absolutos de suas propriedades - ou os detentores de moeda sentiram-se aliviados. Já não eram apodados de capitalistas.

Parece ingênuo. No entanto, com a adoção da nova denominação - sistema de mercados - para velhas práticas, o capitalismo, em suas três configurações, desenvolveu-se geometricamente. Derrubou muros ideológicos e regimes políticos.

No interior do sistema de mercados, plasmaram-se novas formas de captar a realidade. As pessoas preferem crer naquilo em que convém acreditar. O sistema de mercados recolheu esta verdade e agiu.

Expandiu-se o uso de técnicas altamente sofisticadas de convencimento. Surgiu uma realidade alienada. As pessoas passaram a acreditar em toda mensagem publicitária. Belas imagens e sensação de bem estar.

Dois outros temas complementam o anterior. A idéia de segurança e de previsibilidade. As instituições do mercado sempre se mostram firmes como rochas. Os economistas a tudo prevêem.

São falácias. Nada sólido. A fragilidade mostra-se inerente à condição humana. A previsibilidade mera função subjetiva. As mutações dos acontecimentos é caleidoscópica.

Os últimos episódios verificados na França, mais particularmente os que atingiram o banco Société Genérale, expõem dramaticamente a verdade das afirmativas já expostas.

Dirigido por uma personalidade brilhante e brutal, hábil e arrogante, segundo a imprensa francesa, aquele banco sofreu fraude inadmissível. Falharam os mais comezinhos controles internos de segurança.

Praticada por um jovem operador de 31 anos, a fraude atingiu a cifra de 4,9 bilhões de euros. Destruiu a imagem de um dos símbolos do sistema de mercados daquele país.

Antes, nos Estados Unidos, a busca desenfreada de bons índices de desempenho, levou bancos tradicionais a conceder empréstimos hipotecários sem cuidados. Brotou a iliquidez.

Crise nos Estados Unidos com proporção mundial. Desfaçatez na França com repercussão intensa em todo o sistema financeiro. São precedentes que incomodam.

Mostram que o sistema de mercados, como aponta John Kenneth Galbraith, em sua obra La economia del fraude inocente, vive episódios repletos de fragilidades morais. Estas levam à explosão, aqui e ali, de situações como a da França e a americana.

Uma série de reflexões surge. A primeira indica a necessidade da presença de autoridade pública no controle do mercado. Os economistas neoliberais partiram da falsa premissa da bondade infinita das pessoas.

Erraram. As pessoas agem de acordo com seus interesses imediatos. Estes comumente estão em desacordo com os valores coletivos. Daí a importância de controles externos ao sistema de mercados.

A segunda reflexão exige um olhar sobre a empáfia dos operadores de mercado. Sabem tudo. Antevêem o futuro com a facilidade de uma Cassandra. Quase sempre erram.

A terceira e última reflexão leva ao óbvio. Não adianta mudar o nome dos objetos, se eles continuarem com a mesma essência. As aparências se tornam mais palatáveis. O conteúdo, contudo, será idêntico.

O velho capitalismo transfigurou-se em sistema de mercados. Sofisticou-se. Informatizou-se. Atualizou suas práticas. Na essência, continua sem alterações. Busca o lucro sem limites. É de sua natureza.


Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

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