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16/02/2008 - O Tempo Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Privacidade em risco na Internet

Por: Igor Veiga


Quem nunca deu buscas na Internet com o próprio nome ou com o de algum conhecido apenas para verificar o que vai encontrar? Mas o resultado pode surpreender muitas pessoas pela riqueza de detalhes. Endereço residencial e do trabalho, telefone fixo e celular, horários de atividades e outros dados pessoais podem ser obtidos na rede virtual, que promove uma verdadeira devassa na vida de qualquer anônimo. Para os especialistas, a falta de um controle adequado sobre a divulgação de informações na rede mundial de computadores é a maior ameaça ao que entendemos por privacidade. Para a polícia, a exposição representa risco.

Na avaliação da delegada Andréa Ferreira Silva Araújo, titular da Delegacia Especializada na Repressão ao Crime Informático e Fraudes Eletrônicas de Minas Gerais (Dercife), os dados da Internet podem estar alimentando vários tipos de crimes praticados mesmo fora do mundo virtual. "A Internet, infelizmente, também favorece o mundo do crime. Qualquer atividade na rede deixa rastros para pessoas mal-intencionadas, seja de forma voluntária ou não. Mas a maior problemática está nos próprios usuários que informam de forma espontânea dados pessoais na web", ponderou a delegada.

Para ela, a explosão de crimes praticados com a ajuda ou por intermédio da Internet está calcada em três bases: legislação falha, falta de efetivação da lei e contribuição indireta do usuário.

Segundo Andréa, um dos maiores exemplos de ingenuidade praticada pelos internautas no Brasil é o hábito de contar sua rotina na Internet seja em blogs ou sites de relacionamento virtual como o Orkut e MySpace. Conforme a delegada, para cada cem delitos registrados na Dercife, ao menos 80 estão relacionados a crimes contra a honra cometidos pelo Orkut. Em segundo lugar estão os crimes patrimoniais, seguidos pela pedofilia.

O delegado Edson Moreira, chefe do Departamento de Investigações (D.I) da Polícia Civil de Minas, revela que uma quadrilha desmantelada no Rio de Janeiro pela polícia garimpava informações de terceiros na Internet para aplicar o golpe do falso seqüestro por telefone. "As pessoas devem ficar de olho e tomar muito cuidado. Meu conselho é que ninguém informe dados pessoais na Internet, nem em lugar nenhum. Só em último caso e desde que você saiba para quem está fornecendo", alertou a autoridade policial.

Ainda encantadas com as possibilidades e facilidades oferecidas pela Internet, as pessoas acabam abastecendo a rede com seus próprios dados e se registram em redes sociais (Orkut, MySpace e outros), colocam fotos no Flickr e vídeos no YouTube, além de preencher cadastros nos mais variados tipos de páginas eletrônicas (bancos, locadora de vídeo, supermercados virtuais e outros). E, a partir daí, as possibilidades de controle sobre os dados se tornam remotas.


Roubo de dado deixa vítima vulnerável

A auxiliar-administrativa Dáidina Viviane Breder Penha, 28, teve sua conta bancária eletrônica invadida e teme que seus dados tenham sido todos copiados pelos criminosos. “Estou morrendo de medo de tudo, tem sido um mês em pânico. Além de roubar o dinheiro, esse sujeito teve acesso aos meus dados pessoais e receio que ela possa fazer outras coisas ruins com isso em mãos”, desabafou Dáidina. Ela teve cerca de R$ 14 mil roubados de sua conta bancária pela Internet e ainda não foi ressarcida.

Dáidina diz que está se sentindo totalmente vulnerável. Traumatizada, ela quer distância da Internet por um bom tempo. “Não dá para confiar, por mais que se venda que você não corre riscos, você nunca está navegando de forma 100% segura”, disse.

O caso serve de alerta. O advogado Alexandre Atheniense, especialista em informática, recebe em média dez novos casos de crimes praticados pela Internet a cada semana. Segundo ele, ultimamente, têm sido exitosos os processos judiciais para retirada na Internet de informações particulares. “Qualquer usuário que sinta a sua privacidade invadida na Internet tem o direito de requerer tal medida”, disse.

Mas a delegada titular da Dercife, Andréa Araújo, afirma que apagar dados na Internet não costuma ser uma tarefa simples. “É algo demorado e trabalhoso e depende muito do entendimento judicial de que houve ou não quebra na privacidade da pessoa”, disse.

Concursos

Até a divulgação de resultados de concursos públicos na Internet também se tornou um terreno fértil para se conseguir dados particulares. Isso ocorre, por exemplo, com as pessoas que participaram do concurso do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. A assessoria do órgão informou que a administração pública é obrigada a dar publicidade a seus atos e cada candidato tem o direito de conhecer a lista de classificação completa e acompanhar o concurso e fiscalizar. Além disso, não há vedação em lei relativa à publicação dos dados fornecidos pelos candidatos em concursos públicos.


Rede oferece várias maneiras de bisbilhotar a vida alheia

A Internet oferece mil e uma maneiras de se obter dados de qualquer anônimo. Bem ou malintencionado, qualquer um pode bisbilhotar a vida alheia sem dificuldade. O primeiro passo e mais óbvio é procurar o nome da pessoa que se quer obter informações em algum site de busca, que guarda registro dos dados deixados em sites diversos, lista de vestibulandos, concursos, entre outros. Se você sabe alguns dados complementares de sua “vítima”, como o nome completo e o Estado onde ela mora, a tarefa de invadir a privacidade fica mais fácil. Vários sites – desde os mais conhecidos até os de origem duvidosa – fornecem o número de telefone com o endereço da pessoa sem dificuldades.

A empresa Oi, responsável pelo gerenciamento da maioria das linhas de telefonia fixa em Minas, garantiu que não viola o direito à privacidade dos assinantes. Por meio de sua assessoria de imprensa, a companhia informou que, ao adquirir uma nova linha, o cliente é perguntado se deseja que seu nome e endereço figurem no sistema de busca disponível no site da Oi. Mas o fato de pedir para figurar na lista on-line não quer dizer nada, já que na Internet existem vários outros catálogos.

A farra não termina por aí. No site www.lili.com, de origem oficialmente desconhecida, pelo menos no Brasil, consta um catálogo de telefones de todo o país, até com o cadastro antigo dos assinantes. O site tem registro em Bruxelas, na Bélgica. Se você acha que precisa mapear mais a vida alheia, com uma pesquisa refinada pelo Google, por exemplo, consegue-se descobrir também o trabalho e o cargo do alvo. Se ela estiver cadastrada no Orkut, chega-se a atingir um nível de detalhe incrível sobre toda a vida do suposto “anônimo”. Você pode descobrir lugares que ele frequenta e outros hábitos.

Ainda pouco conhecido no Brasil, o site My Email Adress Is, por exemplo, permite que você procure por um e-mail em quatro sites diferentes ao mesmo tempo. Na Internet, fóruns criados por hackers discutem como realizar buscas avançadas nos sites a fim de de encontrar dados pessoais de qualquer indivíduo. Um deles garante ter mais de mil tipos de pesquisas capazes dessa façanha, mas o método é guardado em segredo. (IV)

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