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26/01/2008 - Diário de Notícias Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

A história verdadeira de um falsário muito a sério

Por: Fernanda Câncio


Alves Reis. "O homem que vendeu Portugal", chamou-lhe um autor inglês, o primeiro a contar-lhe a história. Por cá, nada havia até que em 1997 Francisco Teixeira da Mota editou, em quatro fascículos, no 'Público', a sua biografia. Vendeu 17 500 exemplares. É reeditada agora, pela Oficina do Livro
Diz "Alves Reis" e não "Alves dos Reis", como toda a gente se habituou a repetir. "Tornou-se quase o nome verdadeiro dele, por tanto as pessoas acrescentarem o 'dos'". Em nome do rigor é sem, mas Francisco Teixeira da Mota, que cresceu ao lado da casa dele, um palacete na rua de São Marçal (hoje o Instituto Britânico), "do qual os meus pais me faziam relatos de grande luxo e onde, vim a descobrir, ele nunca viveu" e que durante a investigação dormiu com uma fotografia da mulher do biografado na cabeceira, condescende e nunca emenda quando alguém diz "Alves dos Reis". O acrescento faz parte da lenda, e falsificar o nome para melhor soar é uma homenagem irónica ao falsário que ficou na história mundial das burlas conseguindo, por artes de sedução e trapaça, fazer notas falsas com as chapas das verdadeiras, encantar meio mundo, vender-se aos 20 anos como engenheiro formado numa universidade inglesa inexistente para um cargo nos comboios de Angola e, mesmo quando já preso, virar um comandante da polícia a seu favor e fazer dele seu criado.

"Não há nenhum vigarista grande que não seja também um grande sedutor, um encantador, um ilusionista da vida. É uma questão de manter o olhar das pessoas num sítio enquanto se está a fazer outra coisa ao lado", resume Teixeira da Mota. Alves Reis, Artur Virgílio: filho da pequena burguesia, de um cangalheiro, pensou sempre alto. Jogou, ganhou muito e perdeu tudo. Do diploma forjado que mandou reconhecer num notário - "Como não havia fotocópias", explica o autor da biografia, "na altura pedia-se a um notário para copiar e autenticar. E ele, esperto, destruiu o original e ficou só com a cópia autenticada" - à teia de relações tecida em Angola, onde chegou, sem qualquer competência académica e com apenas 22 anos, a director interino dos caminhos-de-ferro de Angola, administrador delegado do conselho de administração dos portos e director e inspector das obras públicas da então colónia, para culminar no golpe de 1925, nos dois milhões de notas de 500 escudos falsificados, na riqueza e ostentação de dez meses seguida da desgraça, da pena de prisão de 20 anos e da conversão religiosa na cadeia.

Uma vida e peras, que fascinou Teixeira da Mota e com a qual se encontrou quando um amigo alfarrabista lhe ofereceu "20 livrinhos, opusculozinhos", com as alegações dos advogados do processo que ficou conhecido como "Angola e Metrópole". "Comecei a ficar fascinado pela personagem e pela mulher, a Maria Luísa Jacobetti. Quando ele esteve preso antes do grande golpe, por causa de um cheque sem cobertura, eles correspondiam-se diariamente, com palavras de grande ternura e paixão. Ela devia ter a noção de que ele era um homem muito especial."

Terá sido durante os dois meses na cadeia devido a mais uma burla (desta vez a tentativa de compra de um a empresa ferroviária angolana com um cheque sem fundo) que Artur Virgílio, regressado à "metrópole" em 1919 e sem emenda nos seus sonhos de grandeza, terá idealizado a sua obra-prima, iniciada em Janeiro de 1925 e terminada em Dezembro do mesmo ano.

Arquitecta um esquema que mete intercepção de cartas, falsificação do papel timbrado do Banco de Portugal e da assinatura do seu governador, Inocêncio Camacho. Este chegaria até a ser preso, por Alves Reis, depois de "apanhado", ter mantido que estavam mancomunados. "Toda a gente desconfiava de toda a gente, houve imensa gente presa à esquerda e à direita. O golpe dele também contribuiu muito para a descrença na 1.ª República. Quando se descobriu foi preciso trocar todas as notas de 500 escudos... Havia a ideia de que era preciso 'limpar isto' - que é uma ideia que me arrepia, essa ideia de que a vida pode ser simplificada, que alguém toma conta. Abriu caminho para a ditadura militar, para Salazar, que é, de certo modo, o oposto de Alves Reis."

Lesado o sistema no seu núcleo sagrado, o da emissão de dinheiro, alcandorado a inimigo público número um, Alves Reis foi "esmigalhado": "O crime de falsificação era punido com prisão até três anos, mas recuperaram uma lei que já não estava em vigor à data dos actos para o poderem condenar a 20 anos, o que era completamente inconstitucional. A coisa foi de tal ordem que o júri era constituído só por juízes, o que é a negação da ideia de júri." Um massacre, uma lição. Pôr no lugar o filho do cangalheiro e com ele todos os rebeldes que sonham anular as barreiras, subverter as convenções, a "ordem natural das coisas". Os que não têm "respeitinho" e querem, como escreve Teixeira da Mota, "construir o seu próprio mundo" . Sim, é um belo romance. E verdade, ainda por cima.

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