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23/01/2008 - G1 Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Funcionários compram atestados falsos para faltar ao trabalho


Médicos e funcionários do setor de saúde contribuem para um crime que vem aumentando em diversas empresas do país. Eles vendem atestados falsos para que funcionários possam faltar ao trabalho.

Com uma microcâmera escondida, a equipe de reportagem foi a uma fábrica e perguntou o que é preciso para fazer o carimbo de um médico.

'Não precisa de nada não?'
'Não. Só o nome dele e o CRM.'
'Qualquer um pode trazer e pegar depois?'
'Tranqüilo'

Em uma outra empresa, mais uma comprovação de que ninguém confere as informações do cliente.

'Fica pronto em quanto tempo?'
'Se você quiser, em 20 minutos, eu faço agora.'
'Só precisa dos dados do médico, não precisa de mais nada?'
'Não.'

A facilidade abre caminho para um crime: a falsificação de atestados médicos. Uma indústria que provoca rombos nos cofres públicos e das empresas. Só na Prefeitura de Uberlândia (MG), são 60 atestados falsos todos os dias. Marly Vieria da Silva, secretária de Administração, diz que quem paga a conta são os contribuintes.

R$ 5 por dia

Quase sempre quem sustenta a indústria dos atestados são os próprios profissionais da área de saúde, como o enfermeiro Remisson Batistel Silva, preso em flagrante, mas já liberado pela Justiça. Ele conseguia blocos de receita nos postos de saúde e hospitais da rede pública onde trabalhava e, usando falsos carimbos de médicos, vendia atestados.

O enfermeiro cobrava dos interessados R$ 5 por dia de afastamento do trabalho. Em uma única empresa da cidade, foram identificados 50 funcionários que compraram os atestados médicos falsos. Todos já foram demitidos por justa causa.

Em Porto Alegre, um empresário desconfiou de uma funcionária que, em apenas um mês, apresentou três atestados do mesmo médico, e foi ao consultório com uma microcâmera para provar a fraude.

'Se eu precisar, agora, pro final do mês, com o carnaval, aí pode passar aí?'
'Mas quantos dias o senhor quer?'
'Ah, três, eu acho.'
'Três dias?'
'Isso, näo tem problema, né?'
'Não, näo.'
'E o que nós botamos que o senhor tá, o que, quer o quê?'
'Ah, pöe, põe algum problema intestinal, coisa assim.'
'Diarréia, né?'
'Isso.'

Outra pessoa procurou o mesmo médico, que vendeu um atestado como se tivesse examinado alguém que nem conhece.
'Botar garganta?'
'Pode ser, pode ser.'
O médico entregou o documento e recebeu o dinheiro.

O Conselho Regional de Medina em Porto Alegre abriu sindicância para apurar a conduta do médico.

A solução para acabar com as fraudes passa pelos departamentos de recursos humanos das empresas. Basta confrontar dados que estão no atestado com as informações disponibilizadas na internet pelo Conselho Federal de Medicina (www.cfm.org.br).

Na página estão os CRMs e os nomes de todos os médicos do país. Quando o suspeito for o próprio médico, também é possível apurar a autenticidade do atestado, a partir de uma denúncia no CRM. Segundo Alexandre de Menezes, delegado do Conselho Regional de Medicina, a investigação dura 15 dias úteis e é gratuita.

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