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12/01/2008 - 24 Horas News Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

O Ministério Público já tem pistas sobre a quadrilha, que vem sendo investigada desde o ano 2000

Por: Hugo Marques


Há uma rica loja no País que não tem logotipo, endereço ou CNPJ. Os “sócios” andam em carros luxuosos, moram em mansões, se hospedam em resorts, arrecadam em dólar. Seu nome: “Loja”, simplesmente “Loja". Trata-se de uma sofisticada organização criminosa, que atua em cinco Estados, conforme investigação do Ministério Público do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. Eles retiraram da maçonaria a terminologia “loja”. Como os maçons, têm seus rituais, entre eles a linguagem em código. A Loja vem agindo desde 1996. Seus integrantes se revezam em subgrupos nos Estados e aplicam golpes dos mais variados tipos, sem derramamento de sangue, mas se especializaram mesmo em convencer empresários a trocar grandes quantias em dólar por reais. Dinheiro nunca entregue às vítimas. Os criminosos raramente são apanhados. Eles ameaçam as vítimas que procuram a polícia. Unidos, como os maçons, também saem da cadeia com facilidade. O MP encontra dificuldades para punir a organização, que, segundo os procuradores, tem infiltrados na Polícia Federal e nas Polícias Civis de alguns Estados. Os processos contra a organização se arrastam por anos e a investigação no País é fragmentada. A 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília julga nas próximas semanas um dos processos contra a Loja, investigação que corre sob segredo de Justiça.

ISTOÉ conseguiu encontrar alguns rastros da Loja. Em Valparaíso de Goiás, a organização enganou o empresário Adip Salomão Júnior surrupiando-lhe o equivalente a US$ 500 mil. Também em Goiás, outro empresário perdeu R$ 280 mil. Os golpistas se apresentaram como assessores de um senador de Brasília que queria lavar dinheiro ilícito de campanha. Não é fácil convencer esses empresários a falar, pois muitos se sentem envergonhados por ter caído nas falsas promessas da quadrilha. “Foi terrível, não gosto de falar”, lembra Marcus Folador, 33 anos, empresário paulista de Monte Alto, onde a família toca uma rede de postos de gasolina. “Eu fui burro, acreditei, fui idiota.” Ele perdeu R$ 180 mil para os golpistas, que se apresentaram como intermediários de uma campanha política que precisava trocar reais por dólares. Na hora de receber os reais, armaram um falso flagrante policial e Folador ficou sem nada. Ele se sentiu ameaçado e se retraiu no dia de depor. “O cara que estava preso, uma semana depois estava solto, na porta da minha casa”, diz. “Já tinha perdido o dinheiro, não ia reaver nada. Me senti ameaçado pela quadrilha.”

O promotor criminal Frederico Schneider Medeiros, de Porto Alegre, que investiga a Loja há dois anos, já identificou “núcleos” da quadrilha espalhados pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Goiás. Este último núcleo opera também em Brasília. “Eles alugam casas suntuosas, apartamentos luxuosos e carros importados para aparentar poder econômico e seduzir as vítimas” diz Schneider. “É urgente diferenciar quadrilha de organização criminosa. A pena é baixa e eles voltam a agir. Uma organização que se dá nome é muito organizada”, completa. Em 2006, Schneider ajudou a levar à prisão 29 pessoas numa operação interestadual contra a organização criminosa, mas a maioria já foi solta. Segundo o promotor, em sua mais recente investida a Loja tentou dar um golpe nos locatários da sofisticada loja Daslu, em São Paulo, e para isso fizeram compras na loja.

Outro empresário que teve sua vida estragada foi o paulista Denis Edgar Botelho, 56 anos. Ele era a imagem do homem bemsucedido. Ex-gerente da multinacional Gillette, Botelho abriu o próprio negócio, uma distribuidora de publicações. Andava em carros importados novos. Descia para as praias do Guarujá todos os finais de semana. Tinha R$ 20 mil mensais para gastos pessoais e familiares. Seu apartamento em Moema valia R$ 700 mil. “Mas eu perdi tudo”, lamenta Botelho. “Perdi uma família maravilhosa, os imóveis, os carros, o nome.” Ele foi vítima do braço paulista da Loja. Em dólares, a quadrilha lhe arrancou o equivalente a R$ 370 mil. “Esse golpe foi uma pancada financeira e emocional, em todos os níveis”, diz. “Isso acabou por me abalar.” Ele viajou de São Paulo até o Rio Grande do Sul quatro vezes, até entregar o dinheiro à quadrilha, cujos membros andavam de Mercedes-Benz e alugavam mansões para aplicar o golpe. Vítima de um flagrante policial falso, até hoje ele não viu a cor do dinheiro. Os golpistas alegavam ter saldo vultoso da penúltima campanha eleitoral e ofereciam 50% de ágio na troca.

A lista de crimes da Loja só cresce. A partir das escutas telefônicas, o Ministério Público concluiu que foi a organização criminosa a responsável pelo golpe de US$ 500 mil, envolvendo o então secretário executivo do PFL (atual DEM) em Goiás, André Luiz da Silva Moura, em 2000. Silva recorreu a um doleiro para intermediar lavagem de dinheiro da quadrilha, que oferecia recursos de caixa 2 de uma igreja evangélica. A quadrilha armou um falso flagrante policial e sumiu com a dinheirama do doleiro. Após o escândalo, o partido não reivindicou os US$ 500 mil. “Note-se que quem avalizava a operação era simplesmente o secretário executivo do PFL de Goiás”, diz ação do MP, anexada ao processo. A mesma Loja subtraiu R$ 205 mil do empresário Carlos Antônio Luciano, no Hotel Alvorada, em Brasília.

O MP pede ainda investigação da quadrilha por violação de sigilo bancário, fraude em concurso da Polícia Federal e da Polícia Civil de Brasília e contrabando de armas via Porto de Santos. O delegado Juracy José Pereira, de Goiás, que investigou o braço da quadrilha no Estado, diz que a apuração se torna difícil na medida em que vários empresários não querem denunciar o crime. “Os crimes com violência já têm progressão, imagina um crime sem violência, cometido com a ajuda da vítima?”, questiona o delegado. “É a chamada torpeza bilateral, tem má-fé dos dois lados.”

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