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02/01/2008 - Revista Época Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

As acusações contra o casal

Por: Solange Azevedo e Wálter Nunes


A cena lembra um programa de auditório. Um homem com um microfone na mão domina um palco de cerca de 20 metros de largura. Fala a uma platéia apreensiva, formada na maioria por jovens. Faz brincadeiras e é acompanhado por uma banda de música. O conjunto toca um ritmo indecifrável, mas o público parece gostar - todo mundo tem a letra na ponta da língua. No meio do ato religioso, o apresentador, bispo Ricardo, pergunta aos fiéis: "As notícias que vêm do demônio vão nos separar do amor de Deus?". As cerca de cem pessoas respondem em coro: "Nãããããão". É o ponto alto do "espetáculo".

O discurso do pastor ocorreu na noite da terça-feira 9, na igreja Renascer do Alto da Lapa, em São Paulo. Àquela mesma hora, a bispa Sônia e o apóstolo Estevam Hernandes, líderes e fundadores da Renascer, estavam presos no Federal Detention Center (Centro Federal de Detenção), uma penitenciária em Miami, nos Estados Unidos. Pela manhã, haviam sido presos por agentes do serviço de imigração ao desembarcar com US$ 56.467 não declarados à alfândega americana.

A prisão do casal Hernandes é decorrente dos inúmeros problemas acumulados pelos líderes da Renascer com a Justiça. No Brasil, o apóstolo, a bispa e outras pessoas ligadas a eles são investigados e processados pelo Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. A ficha de acusações inclui crimes de estelionato, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. A apuração do Ministério Público começou depois da publicação, em maio de 2002, de duas reportagens de capa de ÉPOCA: "Os caloteiros da fé" e "Onde está o dinheiro". Elas relatavam denúncias de fiéis que acusavam os fundadores da Renascer de desviar vultosas quantias arrecadadas durante os cultos e eventos da igreja.

Segundo as denúncias, o dinheiro servia para financiar extravagâncias da bispa Sônia e do apóstolo Estevam, como a compra de uma fazenda em Mairinque, interior de São Paulo, por R$ 1,8 milhão, e de uma casa em Boca Raton, na Flórida, por cerca de R$ 1 milhão. As reportagens chamaram a atenção do promotor Marcelo Mendroni, que pediu a instauração de inquérito policial. "As reportagens de ÉPOCA eram tudo o que tinha quando iniciei as investigações", diz Mendroni.

Com o prosseguimento das investigações policiais, o Ministério Público acredita ter desvendado um esquema de desvio e lavagem de dinheiro coletado nos templos e nos eventos religiosos comandados pelo casal Hernandes. Uma das descobertas dos investigadores foi a existência de várias empresas, contas bancárias e bens registrados em nome de pessoas ligadas aos líderes da Renascer. A bispa e o apóstolo têm um haras em Atibaia, cidade serrana a 67 quilômetros de São Paulo, com 259 cavalos da raça manga-larga, avaliado em R$ 5 milhões. Ele está registrado no nome de Fernanda, filha de Estevam e Sônia (leia o quadro na sequência da matéria).

Parte dessas contas bancárias e desses bens encontra-se hoje seqüestrada ou bloqueada pela Justiça brasileira. Em novembro, o promotor Arthur Lemos, do Gaeco, pedira a prisão do casal, que faltou a uma audiência judicial. Mas a ordem acabou sendo revogada a pedido da defesa dos réus. Mesmo com a anulação, os promotores paulistas vinham monitorando os passos dos Hernandes e trocando informações com autoridades americanas. No setor de imigração dos Estados Unidos, os nomes de Sônia e Estevam estavam marcados com o "alerta azul" - código usado para pessoas que podem entrar no país, mas respondem a processos acompanhados pela Justiça americana.

O "alerta azul" chamou a atenção de agentes do Department of Homeland Security (DHS), o departamento de segurança interna dos EUA. De acordo com documento do DHS, obtido por ÉPOCA, ao desembarcar em Miami Estevam apresentou uma declaração à alfândega americana para ele, Sônia e o filho Gabriel, na qual mencionava não portar mais de US$ 10 mil - o limite permitido pela lei americana. Segundo o relatório assinado pelo agente especial Edwin Santiago, quando as malas do casal começaram a ser inspecionadas, Sônia e Estevam apressaram-se em retificar a declaração anterior. Preencheram novo documento, afirmando portar US$ 21 mil. Mas a revista continuou. No final, os agentes descobriram os US$ 56.467, distribuídos da seguinte forma: US$ 17.679 na bolsa de Sônia, cerca de US$ 9 mil escondidos sob a capa de uma Bíblia da bispa, US$ 10 mil dentro de uma jaqueta na mala de Estevam, US$ 10 mil na mochila do filho Gabriel e mais US$ 9.700 num estojo de CDs.

Até o fechamento desta edição, o casal continuava encarcerado em Miami. Os Hernandes terão uma audiência num tribunal americano no dia 24 de janeiro. Responderão por falsificação de documentos e evasão de divisas. Até lá, não poderão deixar os Estados Unidos. No Brasil, eles tiveram nova ordem de prisão preventiva decretada. O pedido de extradição do casal já foi feito pelo Ministério Público.

A prisão deflagrou o início de uma "guerra espiritual" pela Renascer. Nos templos e nos programas da Rede Gospel, uma emissora de TV UHF pertencente à igreja, os pastores passaram a conclamar os fiéis a reagir ao que eles classificam como uma perseguição do "demônio" - encarnado pela imprensa e pelos promotores. No dia seguinte, os devotos já estavam com o discurso na ponta da língua. "O anticristo está divulgando mentiras sobre nós", disse uma mulher ao sair de uma das igrejas. "O demônio está inventando essas coisas para abalar o povo de Deus", afirmou outro rapaz. Ao lado da sede da Renascer, em São Paulo, cartazes de apoio aos líderes da igreja podiam ser vistos em vitrines de lojas e paredes de lanchonetes. "Bispa Sônia e Apóstolo Estevam, nós te amamos", dizia um deles.

De acordo com especialistas em religião, o comportamento dos fiéis é coerente com a pregação feita dentro dos templos das igrejas neopentecostais, que não pertencem à linha das denominações evangélicas tradicionais - e são as que mais crescem no Brasil. "Nessas igrejas, como a Renascer, o sobrenatural exerce um poder imenso no cotidiano. Deus e o demônio são responsáveis por tudo o que acontece no cotidiano dos fiéis", diz Ricardo Mariano, sociólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. Mariano diz duvidar que a prisão de Sônia e Estevam abale a crença dos seguidores da Renascer. "Tradicionalmente, esses grupos neopentecostais colocam-se como perseguidos. Usam muito bem os exemplos bíblicos de pessoas que foram injustiçadas", diz o antropólogo Flávio Conrado, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser), do Rio de Janeiro. Em 1992, o bispo Edir Macedo, líder máximo da Igreja Universal do Reino de Deus, foi preso, acusado de charlatanismo e estelionato. O que parecia um duro golpe na imagem do religioso tornou-se peça de propaganda de Macedo. Segundo Mariano, nas publicações da própria Igreja Universal o bispo costuma aparecer atrás das grades com uma Bíblia na mão, posando de mártir.

O cuidado com a imagem, segundo os especialistas em religião, é uma das razões por trás do vertiginoso crescimento da Renascer desde sua fundação, em 1986. A igreja começou com reuniões que não excediam 15 pessoas, na sala de jantar dos Hernandes, num apartamento pequeno na zona oeste de São Paulo. Em 2002, quando surgiram as primeiras denúncias contra a igreja, ela já somava 400 templos. Hoje, são cerca de 1.200 no Brasil e em cinco outros países. Esse crescimento em grande parte também se deve à maneira profissional com que a igreja se relaciona com seus devotos.

O apóstolo Estevam trabalhou no departamento de marketing de grandes empresas, como Xerox e Itautec. Levou o conhecimento adquirido no mercado para dentro dos templos. Em cursos internos, em que investe na formação de pastores, ele adota uma apostila intitulada "A Igreja Usando o Marketing como Arma Espiritual". Como nas empresas, os pastores têm metas a cumprir. Devem fundar, por exemplo, uma quantidade determinada de novos templos a cada ano. As doações são aceitas em dinheiro vivo, cheques e até cartões bancários.

A Renascer se especializou também em promover seus eventos religiosos com uma produção semelhante à dos grandes shows de rock. A maior estrela desses eventos é a bispa Sônia, que canta nos cultos e os anima com sua retórica inflamada e emocional. A igreja também incentiva grupos musicais, cria e patenteia marcas e produz programas de rádio e televisão. O devoto mais famoso é o craque Kaká, jogador do clube italiano Milan e da Seleção Brasileira de Futebol. O atleta casou-se com a estudante Caroline Celico num templo da Renascer, numa cerimônia comandada pelo apóstolo Estevam e pela bispa Sônia. O craque ainda teve como padrinhos dois dos filhos dos Hernandes, Felippe e Fernanda. Até pouco tempo atrás, a chuteira de Kaká trazia a inscrição "Deus é fiel", o slogan adotado pela Renascer e por outras igrejas evangélicas brasileiras.

Filho de um jardineiro, Estevam diz ter trabalhado na juventude como açougueiro e vendedor. Estudou Administração de Empresas. Filha de classe média, Sônia afirma ter estudado francês, inglês, piano, teatro, regência, canto, coral e balé. E ainda ter praticado esportes como natação. Depois, fez faculdade de Nutrição, mas nunca exerceu a profissão. O casal se conheceu na adolescência, numa igreja pentecostal que ambos freqüentavam. Estevam tocava saxofone e Sônia participava do coral. Oito anos depois do primeiro encontro, os dois subiram ao altar. Estevam tinha 23 anos e Sônia 19. O apóstolo costuma afirmar que ele e a mulher vivem em clima de namoro até hoje. Mas eles já tiveram sérios problemas conjugais. A bispa declarou certa vez que, no passado, crises matrimoniais a fizeram pensar em colocar veneno na comida dos filhos e depois cometer suicídio.

Com a prosperidade adquirida, o casal Hernandes passou a cultivar hábitos refinados, segundo pessoas que os conhecem. Estevam coleciona relógios de luxo, só gosta de andar de carro importado com motorista e tem especial apreço por sapatos Gucci e ternos da grife italiana Ermenegildo Zegna. Segundo os investigadores do MP, a bispa é cliente da Daslu, uma das lojas mais caras do país, e costuma andar com vestidos do badalado estilista Cacau Brasil. Ela tinha o hábito de tomar emprestados brincos caros e colares com pedras preciosas da H.Stern para gravar seus programas. Por causa disso, nos corredores da igreja, já foi chamada de "a perua de Deus". Costuma usar a sacristia como camarim e não descuida da maquiagem e do penteado nem para ir ao portão. Já fez também plásticas e lipoaspiração para manter a silhueta. Apesar da fidelidade dos devotos da Renascer, as recentes decisões da Justiça brasileira e da americana ameaçam esse estilo de vida glamouroso.




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