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04/12/2007 - O Estado de São Paulo / Ag. Estado Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Tiro certo na indústria da corrupção

Por: Flávia Guerra


'Manda Bala: Um filme que não pode ser mostrado no Brasil.' É assim, provocador, que este documentário dirigido por Jason Kohn, um jovem norte-americano, filho de mãe brasileira e pai argentino, abre-se diante das retinas. A pergunta é óbvia: Por que não? 'Você foi a primeira jornalista que não me perguntou isso antes de perguntar tudo sobre o filme', disse Kohn, após mais de uma hora de conversa com o Estado, quando o filme integrou a mostra competitiva do Festival de Cinema de Roma, em outubro, durante o qual ele explicou como conseguiu montar um caleidoscópio cinematográfico e, claro, por que seu filme não pode, a priori, ser exibido no Brasil.

'Não posso. E é mentira que não quero mostrá-lo no Brasil. Mas não posso porque um dos personagens entrevistados no filme me disse que se eu exibi-lo aí, vai me processar', respondeu Kohn. 'No Brasil, não há leis que protegem os documentaristas, como há as que protegem um jornalista que faz uma denúncia em um jornal. Estou tentando achar uma forma legal de isso não acontecer. Quero muito mostrar o filme para o público brasileiro.'

Motivos não faltam para muitos se irritarem com Manda Bala. Mas diga-se o que disser. O menos que se sai é indiferente após uma sessão dessas. Totalmente filmado no Brasil, com equipe brasileira, o documentário joga literalmente a sujeira, para não dizer o óbvio impronunciável, no ventilador. E essa ciranda bizarra retratada por Kohn em seu primeiro filme não poupa ninguém. A trama desse tecido esgarçado que retrata Manda Bala é intrigante: uma fazenda de rãs fantasma se entrelaça às entranhas de uma grande cidade, São Paulo, detentora da maior frota de helicópteros particulares do mundo; que se costura a uma malha social puída e corrompida pela indústria da violência, que fabrica desde seqüestradores sem o mínimo de remorso a um cirurgião plástico premiado (o brilhante Dr. Juarez Avelar) por desenvolver uma técnica de reconstrução de orelhas (as mesmas que são decepadas pelos seqüestradores e enviadas às famílias dos seqüestrados), passando por carros blindados e cursos de direção defensiva. Para arrematar, a corrupção que passa impune e rende remendos cinematográficos em casos de escândalo de desvio do dinheiro público. Sob o efeito borboleta, a teoria do caos evocada por Kohn se instala no Brasil e a impunidade impera em um País onde um programa para desenvolver uma das regiões mais ricas, e, ao mesmo tempo, mais carentes da nação resulta em um rombo astronômico nas contas públicas. Que brasileiro mais atento ao noticiário não se lembra do rombo da Sudam (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia), em que cerca de R$ 2 bilhões foram desviados dos cofres públicos, e cujas principais suspeitas recaíram sobre o ex-senador da República Jader Barbalho, que tinha, vejam só, uma fazenda de rãs fantasma no norte do Brasil? Barbalho também possui uma estação de rádio, uma TV , a RBA, e o jornal Diário do Pará.

Nesta terra onde a cadeia alimentar é cruel, sapo come sapo. A metáfora óbvia, mas adequada, incomodou a muitos brasileiros que assistiram ao filme nos festivais internacionais pelos quais já passou. 'Uma menina, em Sundance, ao fim da sessão, só faltou chorar. Disse que eu estava fazendo desserviço à imagem do Brasil. Me disseram também que um gringo, de um país presidido por alguém como Bush, não pode abrir a boca para falar dos problemas brasileiros', disse Kohn. 'Mas, primeiro, eu não vivo no Brasil, mas sempre vivi na comunidade brasileira de Nova York. Meu pai mora no Brasil ainda. Conheço São Paulo como se fosse a minha casa. Segundo que eu nem no Bush votei', brada o jovem diretor que tinha 23 anos quando decidiu vender o carro e, com o dinheiro, filmar Manda Bala, em 2006.

Muito da gênese do projeto nasceu da indignação de seu pai. 'Ele mora há décadas no Brasil. Foi ele quem me chamou a atenção sobre este escândalo todo da Sudam. Ele não se conforma com esta impunidade que há em um País onde também há pessoas que trabalham tão duro e são tão honestas. Foi a partir daí que comecei a pensar em filmar algo que falasse desse fenômeno da corrupção e da violência urbana. Está tudo ligado', declara Kohn, que investiu cinco anos de sua vida, a verba do carro e adoada por amigos, equipe trabalhando a preço de custo. Valeu a pena. O filme, que tem na trilha sonora clássicos de Mutantes a Tim Maia, recebeu o Grande Prêmio do Júri por melhor documentário e melhor fotografia (para Heloísa Passos) no Festival de Sundance 2007. Em Roma, em outubro, levou o prêmio especial 'pela forma inovadora e corajosa com que se atreve a fazer cinema'.

Há quem chame esta forma de apelação. Se apelar é mostrar cenas reais de orelhas serem decepadas diante de uma câmera caseira, de fato Kohn apela. Seria cômico se não fosse trágico. O diretor e equipe foram ao olho do furacão desta realidade que mais parece ficção. Chegaram até o reduto de Barbalho, sua rádio no Pará. 'Ele estava dando a entrevista achando que eu fosse só um gringo que fazia um documentário sobre o Brasil e usando o filme como plataforma de campanha. Quando perguntamos sobre o ranário fantasma, saiu na hora da sala e não voltou', conta Kohn. Já as cenas (sur)reais das mutilações foram gentilmente cedidas por Magrinho, um seqüestrador paulistano, filho de migrantes baianos, que encontrou uma brecha na imensa periferia paulistana para 'fazer seus corres' e garantir o leite dos dez (!) filhos que tem. Magrinho cobrou um 'cachê' para dar a entrevista. E diz não se lembrar da primeira vez que matou. Mas que foi um 'gambé'. 'Todo mundo tem lado bom e mau. Conheço o meu lado mau. Mas não posso parar. Tenho de sustentar meus filhos. Quem sabe um não vira presidente e conserta este País?', diz ele . 'Sou o político deles (os moradores da favela na periferia paulistana onde ele 'se maloca'). Pego o dinheiro do seqüestro e dou gás, compro remédio, mando fazer o esgoto, o asfalto. Eles me protegem. Eu protejo eles', diz Magrinho, que esconde o rosto, mas não disfarça a hipocrisia: 'Quem é mais ladrão? Eu ou os políticos?'

É a lei da selva. Seja a amazônica. Seja a de pedra. Há 50 companhias de blindagem de carros em São Paulo, onde uma pessoa é seqüestrada todos os dias. A frota de helicópteros da cidade cresce a cada dia. Jader ainda tem seus negócios no Pará. Já Magrinho está morto. Foi assassinado pela polícia. E Manda Bala não tem previsão de estrear no Brasil.

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