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19/07/2013 - Diário da Manhã Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Corrupção, mercado e ética

Por: Luiz Flávio Gomes


Por detrás dos vários estilos de governança, das instituições políticas e da democracia ou mesmo do sistema macroeconômico, por detrás das críticas que lançamos contra a corrupção assim como contra o mau funcionamento dos serviços públicos, está o campo do oculto do oculto, ou seja, o ser humano e sua ética. Esquecemos, frequentemente, que os governos, as instituições, a democracia e o sistema macroeconômico, assim como uma atmosfera de corrupção generalizada, não existem por si sós, ou seja, eles não brotam naturalmente da terra ou do nada. Eles são espelhos daquilo que os seres humanos queremos que eles sejam.

Tem razão, portanto, Amartya Sen, quando afirma que o mecanismo do mercado não é a causa (última) do problema, sim, o seu veículo. Porque a causa a última somos todos que estamos por detrás dele. “O sistema de mercado reflete, de um modo particular, as preferências que as pessoas expressam em seu comportamento econômico. Se os indivíduos se preocupam somente com seus lucros e perdas específicos, o mercado também limitará seus cálculos a referidos custos e lucros em particular, ignorando o impacto das nossas ações (sobretudo para o desatendido meio ambiente). Por que culpar o mercado se o erro radica em nossos próprios valores e prioridades?” (Amartya Sen, Dessarrollo y crisis global, p. 52).

Mach escreveu o seguinte: “Ich bim ich und meine Umstände”. Ortega y Gasset reproduziu a frase e disse: “Eu sou eu e minha circunstância”. Que isso significa? Significa que nós somos nós e nossas circunstâncias, nossa cultura, nossos valores (em síntese: nossa ética). Nós somos nós e a maneira como nos comportamos perante a natureza, a tecnologia, o mercado, os animais, a convivência entre todos no planeta. Vivemos em um mundo artificial, em um mundo criado por nós (sublinha C. París, Ética radical, p. 26).

Temos capacidade para transformar o meio em que vivemos (a biosfera), podendo conduzir nosso comportamento tanto para seu aprimoramento como para sua destruição (somos um “homo faber”, ou seja, fabricamos nossa realidade). Nós é que fazemos nossas eleições, dentro de certas circunstâncias. De qualquer modo, o mundo que criamos também nos recria. Inventamos a internet e hoje é ela que nos reinventa diariamente. Sendo assim, se inventamos algo aético ele se volta contra nós dessa mesma maneira. Também a técnica não é um mundo alheio à moral (e à ética).

Nós interagimos com a natureza, com a tecnologia, com os animais e com os seres humanos. E não podemos fazer isso de forma irresponsável. Respeito ao próximo tem hoje o significado de respeito a tudo que nos cerca vitalmente (tudo e todos). Fala-se aqui em “dilatação das nossas responsabilidades, ou seja, da nossa ética” (C. París).

A crença de que a natureza humana é imutável não é verdadeira. Hoje somos uma pessoa, amanhã podemos ser outra (muito mais humana, muito mais ética com tudo e todos que nos cercam). Nós não nascemos prontos (Cortella). Ao contrário, nos construímos todos os dias. Mesmo porque, como afirma Marx: “Estamos somente na pré-história do humano”. No máximo, estamos no “grande meio-dia” de Nietzsche (se o primata é o amanhecer e o além-humano ou sobre-humano é o anoitecer, nós estamos no meio do caminho).

Ainda não alcançamos a plenitude do nosso ser, especialmente no campo ético. Ao contrário, é a vulgaridade uma das nossas marcas registradas (Gomá Lanzón). Mas não temos que ser assim, porque podemos ser de maneira diferente. Pico dela Mirandola (no Renascimento) já dizia que nós somos o modelador e o escultor de nós mesmos, conforme nosso gosto e nossa honra; que podemos forjar a forma que preferimos para nós mesmos (veja em C. París, Ética radical, p. 32).

Somos perfectíveis (Rousseau). Essa capacidade de perfeição reside em nós. De qualquer forma, tudo que devemos ser precisamos chegar a ser (Fichte, em C. París). Este último autor conclui: “Nosso ser é uma tarefa aberta em que estamos chamados a realizar nossa autenticidade”. Somos frutos de nossa ética, que determina não apenas nossas possibilidades senão nossa maneira de realizar o humano (C. París, citado, p. 33).

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