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19/07/2011 - Universia Knowledge Wharton Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

O escândalo contábil da La Polar provoca calafrios no Chile


O que começou como uma notificação dirigida aos supervisores do mercado de ações se transformou na revelação mais espetacular de fraude corporativa da moderna história empresarial do Chile. No dia 9 de junho, a varejista de capital aberto La Polar, a quarta maior do Chile, informou ao mercado que seus demonstrativos financeiros registravam um volume de provisões muito menor do que o necessário para dar conta das transações de cartão de crédito de seus clientes.

Com o desenrolar do escândalo, o preço da ação da empresa caiu mais de 70%. A diretoria foi demitida. Foram impetradas ações civis e criminais. Constatou-se que as provisões contábeis eram muito mais elevadas do que se acreditava inicialmente. Fundos de investimentos, corretoras, agências de classificação de risco e órgãos reguladores foram todos pegos de surpresa.

Num plano mais amplo, o escândalo colocou sob os holofotes as práticas de negócios comuns aos varejistas chilenos de capital aberto em um segmento que é, de longe, o mais desenvolvido e competitivo da América do Sul. O setor de varejo do país depende de grandes volumes de empréstimos ao consumidor contratados por meio de operações não reguladas que impulsionam seus lucros. O escândalo também suscitou protestos entre políticos e especialistas favoráveis a que o setor tenha regulamentos mais rigorosos.

Por enquanto, os maiores receios do mercado ainda não se confirmaram. Depois da débâcle da La Polar, não houve escândalo semelhante entre as demais varejistas de grande porte, principalmente Falabella, Cencosud e Ripley. De acordo com analistas e professores, embora outros varejistas enfrentem também dificuldades, sobretudo por causa da saturação do mercado doméstico, o modelo do varejo chileno, para todos os efeitos, continua bastante saudável. "Os negócios da Ripley, Cencosud e Falabella são sustentáveis", diz Gustavo Fingeret, analista de varejo do banco chileno de investimentos Celfin Capital, "contanto que as transações sejam feitas da maneira correta".

Antes e depois

Embora ninguém tenha sido condenado ainda, ou mesmo preso, notícias veiculadas pela imprensa e declarações de autoridades parecem apontar para um caso típico de fraude contábil. La Polar, uma rede de 43 lojas de departamentos que abriu o capital em 2003, cresceu mirando a população de baixa renda do varejo chileno oferecendo-lhe produtos eletrônicos, vestuário e outros produtos que sua clientela adquiria com o cartão de crédito da loja. No ano passado, a empresa informou que teve lucros no valor de 29,8 bilhões de pesos chilenos (US$ 64 milhões) sobre uma receita de 536 bilhões de pesos (US$ 1,5 bilhão). No primeiro trimestre de 2011, a La Polar tinha 586.000 cartões ativos, num total de 881 bilhões de pesos em crédito, sendo que 28,5% da carteira de crédito do varejo era composta de fundos não bancários.

As ações da La Polar eram muito cobiçadas. Os gestores dos fundos privados de pensões do Chile — as AFPs — eram donos de cerca de 1/4 da empresa. As corretoras locais mais importantes recomendavam as ações da La Polar aos investidores. "A empresa era um exemplo de todo tipo de melhor prática", diz Fernando Lefort, reitor da escola de economia e de negócios da Universidade Diego Portales de Santiago, "e não só no que dizia respeito ao modelo de negócio e ao sucesso profissional alcançado pela empresa, mas também porque não havia um acionista majoritário e contava com representantes dos principais fundos de investimentos, pensões e seguradoras" entre seus investidores.

Contudo, havia algo de errado. Durante a recente retração econômica, os concorrentes da La Polar tiveram prejuízos com a queda de receitas e com o aumento concomitante da insolvência em sua carteira de crédito. A La Polar, pelo contrário, continuou tranquila com uma carteira de crédito em constante expansão e lucros razoáveis. Ao mesmo tempo, cresciam as queixas contra a empresa junto ao ombudsman do consumidor, o Sernac. Os clientes acusavam a empresa de refinanciar unilateralmente suas dívidas sobrecarregando o principal com milhões de pesos em tarifas e juros sobre os atrasados, além de fixar valores mensais impossíveis de pagar.

Aos poucos, a situação foi ficando clara. No final de maio, um grupo de acionistas minoritários entrou com uma queixa junto ao SVS, órgão regulador de valores mobiliários, solicitando uma audiência para exame da carteira de crédito da La Polar. Pouco depois disso, a Sernac fez a mesma solicitação. No dia 9 de junho, uma declaração da empresa informava ao mercado que "haviam sido detectadas práticas de gestão não autorizadas pela diretoria em sua carteira de crédito as quais contrariavam os parâmetros e padrões da empresa". A declaração dizia também que a empresa estimava entre 150 e 200 bilhões de pesos o valor necessário para corrigir a situação.

Ocorre que com o refinanciamento unilateral da dívida, os índices de não pagamento ficaram em patamares baixos, inflando ao mesmo tempo o volume da carteira de empréstimos da empresa em decorrência das numerosas tarifas e dos juros aplicados. Os investidores ficaram horrorizados. Em um dia, o preço da ação da La Polar caiu 42%, a maior queda já registrada num único dia. A negociação das ações foi suspensa durante uma semana, mas a situação piorou ainda mais. O cálculo final das provisões necessárias para cobrir as dívidas vencidas chegava a 420 bilhões de pesos, mais do que o dobro da estimativa inicial. No momento em que as ações da empresa voltaram a ser negociadas em 20 de junho, a cotação caiu mais de 60%.

O escândalo repercutiu por toda a comunidade empresarial por vários motivos. Em primeiro lugar, diz Lefort, da Diego Portals, o fato é praticamente inédito na história recente do Chile. "Em casos anteriores, havia sempre a figura de um acionista majoritário do mal", disse ele. "Essa era a distorção que prevalecia."

Todavia, diferentemente de outros varejistas — e, a bem da verdade, da maior parte de outras companhias chilenas —, a La Polar não tem um acionista majoritário. Não se trata aqui de mau comportamento do proprietário, e sim da diretoria. "É um problema bem mais próximo do que se vê nos EUA", diz ele.

Além disso, o elevado percentual de participação minoritária das AFPs (para não falar da dívida de quase US$ 600 milhões da La Polar em seu poder) aponta para o fato de que o escândalo afeta diretamente a poupança de aposentadoria de muitos chilenos. A miopia dos órgãos reguladores do setor bancário e de valores mobiliários foi total, com exceção do Sernac. Tanto a Fitch Ratings quanto a agência local de classificação de risco Feller foram ludibriadas, enquanto o auditor da empresa, a PricewaterhouseCoopers, parece ter dormido no ponto.

Como se não bastasse tudo isso num país repleto atualmente de grandes manifestações populares como não se viam há décadas em reação às novas políticas do governo de Sebastian Piñera, de inclinação direitista, a La Polar vinha engordando seus resultados batendo pesado nos clientes das classes subalternas por meio de tarifas e de taxas de juros exorbitantes. Desde que o escândalo estourou, a Sernac já recebeu mais de 5.000 queixas de clientes da empresa, e há mais a caminho. Há um toque de populismo nesse escândalo contábil.

Só o começo?

A preocupação imediata é com as possíveis implicações do caso da La Polar para os demais varejistas chilenos. O que mais chama a atenção são os volumes elevados de crédito que os varejistas chilenos proporcionam aos seus clientes através do seu negócio de cartão de crédito não regulado. De acordo com o SBIF, órgão regulador dos bancos, o número de cartões de crédito do varejo sem regulação responde por 75% de todo o segmento de cartão de crédito do Chile. Até o final do primeiro trimestre de 2011, o valor total de cartões não regulados era de 3 trilhões de pesos chilenos, ou 22,5% de todos os empréstimos contratados pelo consumidor.

A Falabella é líder no varejo chileno em market share e em emissão de cartões com 1.8 milhão de cartões ativos e uma carteira de cartão de crédito de 890 bilhões de pesos. A Cencosud aparece em segundo lugar com uma carteira de crédito de 426 bilhões de pesos e 1,2 milhão de cartões variados no mercado. A Ripley vem em terceiro lugar com uma carteira de 376 bilhões de pesos e 965.000 cartões ativos. A dívida média dos cartões ativos das três empresas gira entre US$ 750 e US$ 1.000, cifras estas que vêm subindo de acordo com a inflação e com o crescimento do PIB.

Nem todos os créditos, porém, são iguais. Os analistas fazem diferença entre varejistas chilenos de negócio único e varejistas de múltiplos negócios, uma vez que os ganhos destes últimos dependem menos de um braço financeiro. Apesar de liderar o segmento de cartões, a receita bruta resultante do financiamento ao consumidor da Falabella — uma holding que conta com lojas de departamentos, supermercados, depósitos de construção e negócios imobiliários — é menos de 60%. De igual modo, a renda financeira da Cencosud, que é também uma empresa com vários negócios e muito forte no segmento supermercadista, é de menos de 10% do EBITDA.

A Ripley, por sua vez, assim como a La Polar, opera apenas uma cadeia de lojas de departamentos. Para ambas as empresas, os ganhos financeiros são muito importantes para o seu negócio e correspondem a 100% do EBITDA. De acordo com Peter McMenamin, analista de varejo do Banchile, o segmento extremamente competitivo de loja de departamentos no Chile não produz boas margens. "Essas empresas foram em grande parte alijadas da concorrência pelo novo varejo e hoje operam com crédito", diz ele.

É o que pensa também Fingeret, da Celfin. "Todas as lojas de departamentos vendem a crédito ao consumidor porque as margens no varejo são realmente muito estreitas", diz ele. "Dependendo da empresa, a margem fica entre valores negativos e 5% [...] É o tipo de negócio que depende muito do cartão de crédito."

A opinião geral é de que enquanto a La Polar fraudou os livros durante a crise financeira para ocultar a inadimplência, a Ripley sofreu suas consequências. A rede teve três trimestres seguidos de resultados negativos durante a crise e a cotação de suas ações ficou prejudicada no momento em que ela decidiu com muita firmeza que faria provisões em torno de 20% do valor de sua carteira. "Tudo indica que a empresa passou pelo processo que a La Polar deveria também ter passado àquela altura. Hoje, pelo que se sabe, seu portfólio é muito mais limpo", diz McMenamin.

McMenamin e Fingeret chamam também a atenção para uma tendência de expansão no exterior que está ajudando a atenuar a importância do financiamento não regulado do varejo chileno. A Cencosud é líder do segmento de materiais de construção e é o segundo maior supermercado da Argentina e o primeiro do Peru, mercados em que o financiamento ao consumidor tem um papel secundário.

A Falabella também está investindo US$ 3,5 bilhões no decorrer dos próximos cinco anos na ampliação de suas atividades no Brasil, Peru e Colômbia. A Ripley também está expandindo sua presença no Peru, onde já tem 15 lojas. Segundo analistas, as margens do varejo são melhores nesses mercados maiores e menos competitivos. Além disso, em países como o Peru, o varejo precisa de licença dos bancos para trabalhar com crédito, de modo que o negócio é menos lucrativo e mais bem regulado.

Ativos e passivos

Contudo, a enorme dependência de financiamento no Chile continua a preocupar. Em Santiago, Juan José Soro, diretor do programa de varejo da Universidade Adolfo Ibáñez, diz que uma maneira de lidar com o problema consistiria em os varejistas aperfeiçoarem a maneira como definem e delimitam a tributação fiscal das suas atividades financeiras em relação ao varejo, que é seu negócio principal. "Uma empresa varejista tem de ser bem-sucedida pelo que é, e não porque concede empréstimos", diz ele. "No futuro, o desafio consistirá em separar esses segmentos de negócios" nas divulgações públicas de documentos.

Será que com isso as novas regulações obrigarão os varejistas a adaptarem seu modelo de negócios? O impacto do escândalo da La Polar já é de tal ordem que algum tipo de regulação nova parece já ter sido decidida. McMenamin do Banchile diz que os órgãos reguladores talvez estipulem um teto sobre as taxas de juros com que trabalham os emissores não regulamentados de cartões de crédito. Além disso, é praticamente certo que sejam estipulados também novos requisitos de provisão. Contudo, o varejo vai reagir a qualquer medida que requeira mais transparência no que diz respeito ao histórico de crédito do cliente, inclusive dados que as empresas coletam em grande quantidade e que guardam com muito ciúme.

"Para o varejo, esse tipo de informação é um bem precioso", observa McMenamin. No míniimo, isso dá a elas uma vantagem em relação a possíveis rivais que trabalham com cartão de crédito, inclusive bancos, os quais não dispõem da informação que os ajude a saber quem tem bom histórico de crédito.

No fim das contas, porém, os órgãos reguladores pouco podem fazer em relação à negligência profissional pura e simples da administração, ressalta Lefort , da Diego Portales. O máximo que se pode esperar no caso da La Polar é que o sistema funcione desta vez e que as leis já aprovadas sejam devidamente aplicadas, evitando assim futuros malfeitos. "Essas empresas não têm o tipo de supervisão que tem um banco. É diferente", diz ele. "Portanto, a pergunta é a seguinte: será que é suficiente dizer a PricewaterhouseCoopers 'Você tem de supervisionar isso'? No caso em questão, não foi."

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