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11/05/2013 - Zero Hora Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Falta de fiscalização é a grande chaga do setor do leite no país

Por: Cadu Caldas e Erik Farina

A legislação brasileira do setor é considerada de nível internacional, mas há pouco efetivo para checar e fazer os testes necessários a fim de detectar algum tipo de problema no produto.

Com uma legislação considerada por especialistas como de padrão internacional e tecnologia de ponta para aplicação de testes, a falta de fiscalização é apontada como a grande chaga do setor do leite no país. Os testes do Ministério da Agricultura e da Secretaria da Agricultura do Estado costumam ser feitos diretamente no produtor ou em postos de refrigeração, mas são mais frágeis quando precisam averiguar a qualidade do produto durante o transporte e na indústria. Os fabricantes, por sua vez, muitas vezes acabam falhando no controle em razão do elevado volume de produtos que recebem.

— Os testes são feitos no leite cru, pois se espera que a indústria controle seu produto. O problema é que, como há muitos fornecedores e um movimento constante na fábrica, pode ocorrer de nem todo o leite ser submetido aos testes, e possíveis fraudes não sejam detectadas — diz Jorge Schulz, coordenador do Centro de Pesquisa em Alimentação da Universidade de Passo Fundo.

De acordo com especialistas, a falta de fiscalização pode ter facilitado a ocorrência de fraudes no Rio Grande do Sul, apresentadas pela operação Leite Compen$ado, do Ministério Público no Estado, que na quarta-feira revelou um esquema no qual transportadores adicionavam ureia, formol e água ao leite para aumentar o rendimento.

Com apenas sete fiscais e 18 agentes de inspeção, o Ministério da Agricultura é responsável por vistoriar quase todas as indústrias gaúchas de leite, já que a maioria vende o produto para outros Estados. Três das quatro unidades que receberam leite adulterado eram fiscalizadas pela esfera federal.

— Não é um problema exclusivo do Rio Grande do Sul. Em Goiás, por exemplo, ocorre o mesmo problema. Se dobrar o número de fiscais, ainda é pouco — afirma o coordenador do Laboratório de Qualidade do Leite da Universidade Federal de Goiás, Rodrigo Balduino.

Apenas uma marca investigada pelo Ministério Público, a Latvida, estava sob responsabilidade estadual. Ainda que monitore apenas duas indústrias de leite UHT no Rio Grande do Sul, a coordenadoria de Inspeção de Produtos de Origem Animal da Secretaria da Agricultura (Cispoa) só descobriu que a VRS, fabricante da Latvida, continuava em operação 22 dias após ser proibida de envasar leite — e porque o Ministério Público alertou da irregularidade.

Dessa forma, produto sob suspeita e fabricado em um ambiente inadequado continuou sendo vendido para cerca de 40 estabelecimentos comerciais em todo o Rio Grande do Sul. A Cispoa tem cerca de 300 inspetores e fiscais de agroindústrias de produtos de origem animal, como fábricas e entrepostos.

O órgão não informa, no entanto, quantos são responsáveis por acompanhar a produção de leite.

Testes são confiáveis, mas precisam ser aplicados

Embora seja comum em todo o país, a falta de fiscais não é regra para todos os setores agropecuários. A pesquisadora Darlene Venturini Moro, coordenadora do Programa de Análise de Rebanhos Leiteiros do Paraná, compara as cadeias de carne e de leite para mostrar a carência de fiscais:

— Há sempre agentes presentes na indústria de carne, mas não existe a mesma facilidade para encontrar um fiscal em postos de resfriamento. Como boa parte da carne do país é exportada, os critérios de controle são muito mais rigorosos — avalia.

Existem ainda problemas no método dos testes, que estão em constante alteração e cujos resultados podem mudar conforme a situação do gado. De acordo com a coordenadora do Laboratório de Análise da Qualidade do Leite da Universidade Federal de Minas Gerais (LabUFMG), Mônica Pinho Cerqueira, os testes rápidos aplicados nos centros de resfriamento e depois na indústria deveriam detectar a quantidade excessiva de ureia no produto. Mas como a variação de ureia no leite muda de acordo com a raça da vaca e com a alimentação do animal, quantidades excessivas podem ter passado despercebidas.

— A cadeia do leite é muito frágil. Fraude é questão de polícia. Os testes são muito confiáveis, mas precisam ser aplicados para ter efetividade — afirma Mônica.

Fraude amedronta consumidores

Um dia após a denúncia do Ministério Público sobre a adulteração de lotes de leite, era grande a fila de consumidores em um supermercado na Capital para trocar os produtos. Os lotes não faziam parte da lista de adulterados, mas a desconfiança dos clientes era grande. Alguns queriam trocar as caixas de leite por outra de marca diferente, outros queriam apenas o dinheiro de volta.

— A partir de agora, não entra mais leite em casa. Até os gatos vão mudar de dieta — dizia Eduardo Menezes.

Acostumado a alimentar os animais de estimação com o leite da mesma marca que ele próprio consumia, o funcionário público aposentado era um dos mais revoltados na fila. Menezes trazia de volta 25 caixas das 36 que havia comprado uma semana antes, 11 delas já tinham sido consumidas. A alternativa encontrada foi dar aos gatos leite em pó.

A atendente Gislaine Pedrozo ficou surpresa ao ver no noticiário que a marca que costumava comprar tinha lotes com produto adulterado. Mãe de um bebê de colo, que ainda mama no peito, ela conta que o sentimento é de alívio por não ter dado ao filho um produto que poderia fazer mal para a saúde dele. Gislaine não sabe se chegou a consumir leite adulterado — nunca sentiu gosto nem cheiro estranhos — mas, na dúvida, promete ser mais criteriosa na hora de escolher o que vai levar para casa.

— Antes eu só olhava o preço. Se estava em promoção, eu levava. Mas o barato saiu caro — afirma.

Quem também quer distância de leite é o gerente comercial Lorran Lopes, 27 anos. Ao saber que a fraude havia chegado ao seu leite predileto, Mu-mu, decidiu dar um tempo com os lácteos até que tenha certeza de que é seguro consumi-los.

— A partir de agora, é só suco no café da manhã.

Embora muitos pensem como Gislaine, Menezes e Lopes, nem todos vão riscar o leite do cardápio, mas a sombra da dúvida vai precisar mais do que declarações tranquilizadoras para ser retirada. O escândalo envolvendo a adulteração, que a cada dia tem novos desdobramentos, como antibiótico em leite em pó e nova descoberta de formol em leite cru, antes do processamento, têm causando apreensão entre consumidores. O presidente da Associação de Criadores de Gado Holandês, Marcos Tang, estima queda de 5% no consumo em razão do impacto da notícia.

Autoridades, entretanto, ressaltam que não há motivo para medo. Eraldo Marques, diretor do departamento de defesa agropecuária da Secretaria da Agricultura do Estado, afirma que a fraude ocorre em uma quantidade restrita de produtos lácteos, e denúncias da população e de empresários do setor têm possibilitado que sejam descobertas rapidamente.

Autoridades prometem maior rigor

Em resposta à fraude do leite, autoridades estaduais e federais prometem reforçar a fiscalização e endurecer o trato com os intermediários na cadeia do leite. A Secretaria da Agricultura prepara concurso público que prevê a contratação de 217 médicos veterinários, além de fiscais para área de produção vegetal. Mas por ora não há data para o edital.

Conforme a chefe da defesa do Ministério da Agricultura no Estado, Ana Stephan, os problemas com o leite serviram de alerta para um aperto na fiscalização, e já surge em Brasília a discussão para que se emita uma normativa a fim de regularizar a atuação dos transportadores. Ana informa que há possibilidade de que um concurso federal seja aberto para reforçar a estrutura de fiscalização.

Os intermediários também estão na mira da Secretaria da Agricultura. O titular, Luiz Fernando Mainardi, afirmou que o Estado vai propor a eliminação do transportador autônomo neste segmento produtivo.

As empresas que colocaram à venda leite supostamente adulterado anunciaram mudanças. A LBR, fabricante da marca Líder, informa que descredenciou cinco transportadoras de leite e fechou um posto após o esquema ser revelado. A Vonpar, dona da Mu-mu, avisou que passou a fazer os testes para identificar formol em fevereiro, quando este exame, no entendimento da empresa, teria se tornado obrigatório. A Italac apontou o problema como pontual, e a VRS, fabricante da Latvida, informa que os testes são feitos regularmente, e uma contraprova não teria confirmado a contaminação.

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