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30/04/2013 - Público.pt - Última Hora Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Presidente afegão usou dinheiro da CIA para comprar lealdade de "senhores da guerra"

Por: João Manuel Rocha

Malas, mochilas, por vezes sacos de plástico, chegavam todos os meses. Dezenas de milhões de dólares em dinheiro vivo eram, na prática, um fundo para subornos.

O Presidente afegão, Hamid Karzai, reconheceu: os serviços secretos americanos, CIA, deram, nos últimos dez anos, importantes somas de dinheiro ao seu gabinete. Segundo o The New York Times, que deu a notícia, parte do dinheiro foi distribuído por "senhores da guerra", alguns ligados ao tráfico de droga e aos taliban, para comprar a sua lealdade.

O dinheiro norte-americano, dezenas de milhões de dólares, segundo o jornal, foi entregue ao Conselho Nacional de Segurança (CNS), um organismo dependente da presidência. “Sim, o CNS recebeu dinheiro da CIA nos dez últimos dez anos”, disse Karzai, numa declaração feita durante uma visita a Helsínquia, que confirma uma investigação do NYT. "Não foram montantes importantes”, acrescentou

Karzai não quantificou os montantes recebidos, mas falou em “pequenas quantias” que eram entregues mensalmente. Não deu explicações claras sobre o modo como o dinheiro foi gasto. “Esse dinheiro foi usado para diversos fins: operações, ajuda a feridos e doentes, arrendamento de casas, entre outros".

O jornal escreveu na segunda-feira, citando antigos e actuais colaboradores do líder afegão, que, a partir de Janeiro de 2003, a CIA começou a entregar mensalmente ao departamento presidencial malas, mochilas, por vezes sacos de plástico de compras, com dezenas de milhões de dólares em dinheiro vivo ao CNS, com o objectivo de apoiar a luta clandestina contra a Al-Qaeda e os seus aliados e reforçar a influência norte-americana no Afeganistão. Acrescenta que não foi feito qualquer controlo sobre o modo como foi gasto.

O dinheiro terá sido gasto com pagamentos a "senhores da guerra", políticos e outras figuras de cujo apoio Karzai dependia. Antigos e actuais dirigentes afegãos citados pelo New York Times consideram que esse dinheiro foi basicamente usado como fundo para subornos e para cobrir despesas que a presidência pretendia manter secretas. Não há dúvidas de que contribuiu para fazer crescer a corrupção. Um responsável norte-americano não identificado pelo jornal considera que os Estados Unidos têm sido “a maior fonte de corrupção no Afeganistão”.

“Chamávamos-lhe dinheiro fantasma”, disse ao jornal Khalil Roman, vice-chefe de gabinete de Karzai entre 2002 e 2005. “Chegava em segredo e partia em segredo.” Segundo o diário norte-americano, Abdul Rashid Dostom, cuja milícia fazia parte da coligação que derrubou os talibans, receberia cerca de 100 mil dólares por mês. Ahmed Wali, irmão de Karzai, líder de uma milícia apoiada pela CIA, assassinado em 2011, foi outro dos dirigentes que recebeu dinheiro.

A notícia da existência de financiamentos secretos à presidência do Afeganistão não é nova. Em 2010, quando foi revelado que o Irão tinha feito entregas de dinheiro a um conselheiro de Karzai, o Presidente disse, numa declaração agora recuperada pelo NYT: “Os Estados Unidos fazem a mesma coisa. Fornecem dinheiro a alguns dos nossos departamentos”. Na altura, colaboradores do líder afegão disseram que se estava a referir à ajuda oficial de Washington, mas um antigo conselheiro afirmou recentemente que estava a falar concretamente das malas e sacos da CIA.

Teerão interrompeu, segundo fontes afegãs, o envio de dinheiro depois de, no ano passado, contra as objecções do Irão, os governos de Cabul e Washington terem assinado uma parceria estratégica. Mas o financiamento norte-americano continuou, segundo o jornal.

Ainda antes de ter começado a financiar directa e secretamente a presidência afegã, os Estados Unidos pagaram a “senhores da guerra” afegãos que lutarem contra os talibans, na fase da invasão, em 2001, e, depois disso, na luta contra a Al-Qaeda. “Pagámos-lhes para que derrubassem os taliban”, disse um responsável norte-americano citado pelo The New York Times.

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