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26/05/2012 - Dinheiro Vivo Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Falsos acidentes triplicaram em cinco anos

Há cada vez mais gente disposta a arriscar por pouco dinheiro: nas pequenas fraudes, o número de casos detetados disparou 582% .

Alguém lhe bate no automóvel e danifica o para-choque, mas quando vai reclamar à seguradora tenta ser indemnizado por outros danos que o carro já tinha antes do acidente.

Tem um eletrodoméstico avariado há semanas, mas uma inundação que entretanto ocorreu em casa dá-lhe argumentos para tentar incluir os custos da reparação da televisão no seguro. Ou então aproveita uma trovoada como argumento para acionar o seguro multi-risco que cobre o risco elétrico em caso de descargas elétricas anormais.

É um trabalhador por conta própria e magoa-se a jogar futebol com o seu filho, mas diz que a lesão aconteceu no trabalho e aciona o seguro por acidentes de trabalho. Trabalha numa empresa que sente dificuldades económicas e combina com o seu patrão que vão acionar um seguro por acidente ou lesão de modo a “poupar” o seu salário à empresa, garantindo que continua a receber rendimento.

Estes são alguns exemplos de fraudes no setor dos seguros cuja incidência têm vindo a aumentar de forma muito significativa, sobretudo com o agravamento da crise financeira e económica.

Não existem dados oficiais sobre a dimensão do fenómeno em Portugal, mas um estudo realizado pela seguradora Liberty a partir da sua atividade nacional revela que a fraude duplicou em cinco anos, passando de 1% dos sinistros totais em 2007 para 2% em 2012.

O ramo automóvel será um dos mais vulneráveis a este fenómeno. Comparando os resultados dos anos de 2007 e 2011, por exemplo, nos sinistros auto houve um aumento de 112% das fraudes detetadas.

Será isto apenas o resultado da crise? “Parece não haver dúvidas que a crise em que Portugal “mergulhou” tem os seus reflexos não só económicos mas também sociais. A fraude aos seguros não ficou imune aos efeitos desta crise e verificamos que houve sem dúvida um aumento do número de fraudes detetadas, em todos os ramos”, responde Alda Correia da Unidade Especial de Investigação da Liberty Seguros.

Ainda mais expressiva é a subida de 240% na deteção de fraude nos seguros multirrisco para habitação e comércio que garantem o risco elétrico. Estes números refletem um procedimento mais rigoroso da seguradora na análise dos processos, “mas também ao impacto da crise no dia a dia das pessoas”.

O forte aumento das práticas fraudulentas foi confirmado ao Dinheiro Vivo por um especialista na investigação de sinistros. Na sua estimativa, entre 15% a 20% das ocorrências casos que investiga têm origem em fraudes, sendo que em média os casos detetados serão de 5%. O ramo automóvel, mas também os acidentes de trabalho, em que a seguradora é chamada a substituir a empresa ou o rendimento do próprio em caso de trabalhador por conta própria, estão entre as áreas onde a fraude mais cresces. Ainda de acordo com este testemunho as regiões onde se verificam mais casos são o Vale do Sousa, em redor do Grande Porto, a margem Sul de Lisboa e a região Oeste.

Nas chamadas pequenas fraudes, onde os valores reclamados são inferiores a 500 euros, o número de casos detetados disparou 582% desde 2007. É também um sinal da crise já que “significa que se arrisca mais por menos dinheiro”, realça Alda Correia.

O empolamento de danos num sinistro que efetivamente ocorreu será o caso mais comum de fraude, tendo-se verificado um crescimento de 413% nos casos identificados nos últimos cinco anos, segundo dados da Liberty que está entre as dez maiores seguradoras a operar em Portugal.

Mas mais significativo é o aumento em 211%, o que corresponde ao triplo no número de sinistros fictícios. Mas também o nível de sofisticação é preocupante. Se em 2007 eram detetados sinistros em que os veículos já batidos eram colocados à socapa em determinado local, onde se reclamava ter acontecido o embate, hoje há relatos em que os automóveis são preparados para circular até ao lugar do suposto acidente e chocam intencionalmente, de preferência com testemunhas idóneas, tornado muito difícil refutar a veracidade e acidentalidade desses sinistros.

Para Alda Correia, o grau de cuidado nos detalhes nos casos mais recentes “levam-nos a refletir muito seriamente na crise de valores que vivemos”.

Um dos casos mais conhecidos que já foi levado a julgamento é o da Rotunda de Santo Ovídio (Vila Nova de Gaia) onde 43 pessoas foram acusadas de terem provocado 138 acidentes automóveis, entre 2000 e 2006, com o objetivo de burlar as seguradoras. Os automóveis eram equipados com pelas danificadas para agravar os custos de reparação. As indemnizações pedidas pelas empresas lesadas rondavam um milhão de euros.

Mais recentemente, a revista Sábado divulgou um caso em que uma rede envolvendo 28 arguidos a operar na zona de Lisboa que se dedicava a comprar carro em leilões e depois provocar acidentes para receber as indemnizações das seguradoras que terão chegado aos 700 mil euros.

A maior atenção das entidades judiciais na investigação destes crimes é uma das respostas à crescente dimensão do fenómeno, mas também se tem apostado na prevenção, designadamente pelo reforço da deteção prévia das tentativas de fraude antes de ocorrer o pagamento. No caso da Liberty, as situações detetadas nesta fase subiram 94%.

Não são só as empresas de seguros que saem a perder. Segundo estatísticas internacionais, os segurados prémios 10% a 15% superiores por causa do aumento do número de sinistros provados por fraudes.

Alda Correia, que também está na Comissão Técnica de Fraude da Associação Portuguesa das Seguradoras, entidade, defende que o reforço de meios de combate passa, também, pelas campanhas de sensibilização no combate à fraude. “Deixou de ser um assunto para especialistas”.

A fraude vai ser um dos temas do III Congresso “Prevenir e Reparar: Acidentes em tempo de crise que a Liberty Seguros vai promover no dia 1 de Junho na Culturgest em Lisboa.

Exemplo de tipos de fraude correntes:
1. Nos acidentes de trabalho
, para além da tentativa de inclusão do trabalhador na garantia da apólice após o sinistro, detetamos com frequência que os sinistrados, não respeitam o período de incapacidade temporária definido pelos serviços médicos. Continuam a trabalhar (agravando a lesão e correndo o risco de sofrer novos acidente). Durante este período (inatividade laboral definida clinicamente para recuperação) ganham a indemnização do segurador e também do produto do seu trabalho.

A incapacidade financeira de suportar os custos de tratamentos médicos, leva a que lesões produzidas na vida privada, sejam participadas como se de acidente de trabalho se tratasse de modo a garantir os tratamentos necessários. Em alguns casos, o sinistrado nem sequer trabalhava para o tomador de seguro.

2. Os transportes de carga inexistente, mas para a qual se fez um seguro, são também uma forma de burlar seguradores, quando se participa o furto da carga do camião, ou incêndio total deste.

3. Mas os incêndios e furtos são também usados muitas vezes para participar sinistros em instalações comerciais e industriais, em especial quando se faz um reforço de capital seguro previamente.

4. Nos seguros de habitação e de automóvel, é frequente, a tentativa de imputar danos decorrentes da falta de manutenção, a um sinistro que ocorra.

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