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30/09/2007 - Jornal Pequeno Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Os viciados em trapaça

Por: José Luiz Oliveira de Almeida


O ser humano tem vícios – aqui empregado no sentido de relaxação, de devassidão, de costume moralmente censurável – para o bem ou para o mal. Se é viciado em trabalho, não sabe viver sem laborar. E se, por alguma razão, fica impossibilitado de desenvolver o seu mister profissional, adoece, cai em depressão. O viciado em trabalho não sabe ser diferente. É por isso que muitas pessoas, ao se aposentarem, perdem a qualidade de vida e abreviam a morte. Para essas pessoas, viver sem trabalhar é um calvário. Noutra vertente, há pessoas que só sabem viver na folgança. Para essas pessoas o trabalho é sua via-crúcis. O trabalho, para elas, se traduz em sofrimento, irritação, angústia. Essas pessoas gostam mesmo é da pachorra, da lassidão, do folguedo.

Assim como entre os humanos há, num extremo, os indolentes e, noutro extremo, os desvelados e diligentes, há, também, os viciados em retidão e os viciados em falcatrua, em bandalheira. Se o ser humano recebe, diariamente, em sua família, doses de retidão e probidade, tende a, em adulto, ser, também, reto e probo; se, ao reverso, assiste imperar em sua volta a falcatrua, a bandalheira, a corrupção, a vigarice, o ludíbrio, tende a, também, seguir velejando nas mesmas águas turvas da iniqüidade, do embuste, da tapeação. Parece-me que é a ordem natural das coisas. Claro que há, sim, exceções. Mas essas só servem para confirmar a regra.

Nessa linha de pensar, não deveria surpreender que as pessoas de personalidade mal formada vivessem à margem da lei. É que essas pessoas, como os viciados em drogas e álcool, são viciadas em improbidade, em falcatrua, em impostura. Para essas pessoas, a retidão, o desvelo no trato da coisa pública, por exemplo, não importa, é irrelevante, passa ao largo de sua percepção. Essas pessoas formaram a sua personalidade transgredindo, profanando a ordem, sem remorso, sem dor na consciência.

Aquele que recebe doses diárias de retidão, tende a refutar o mal proceder, a farsa, o embuste. Mas aquele que durante toda a sua formação moral acostumou-se à pantomima, ao ardil e à fraude, caminha nessa mesma vereda, sem remorso, sem padecimento, sem pesadelo. Às vezes, de tão viciado na impostura, sequer se dá conta que está vivendo à margem da moralidade e da lei. Para essas pessoas a trapaça e a velhacaria são uma rotina, estão sedimentadas em sua formação moral, na sua consciência. E o que é mais grave, tendem a entranhar nos seus descendentes os mesmos vícios.

Para exemplificar, anoto que aquele que, todos os anos, frauda o fisco, de tanto repetir a pantomima, já procede com naturalidade, sequer se dá conta que está desafiando a ordem. Para esses, fraudar ou não fraudar é irrelevante. É que eles viciaram na prática dessa empulhação e supõem que jamais cairão na malha fina, até que, um dia... bem, um dia a casa cai. Da mesma forma, quem se acostumou, deste de sedo, a usar o cargo que ocupa em benefício pessoal e dos amigos, vai agir sempre assim, pois que não tem a dimensão da importância do cargo que exerce. Pensa que o cargo público é para ser exercido em benefício dos seus parentes e amigos. Para um profissional da saúde, uma morte a mais ou a menos, uma fratura exposta aqui e acolá, não mexe mais, significativamente, com as suas emoções, porque está acostumado a conviver com esse tipo de tragédia. É que ele, de tanto conviver com esses infortúnios acostumou-se e age, às vezes, até, com indiferença. Da mesma forma acontece com o autor de maracutaias. Se viciado nessa prática, não tem receio de praticar outras ilicitudes. Esses marginais, de tanto verem prosperar a roubalheira que também promovem, não têm remorso. E se tiverem que desviar, por exemplo, a verba destinada à saúde, o fazem, sem se sensibilizar com as pessoas que morrem nas filas de atendimento médico. Não é por outra razão que no mundo da política há quem faça apologia do apotegma “rouba mais faz”. É, pura e simplesmente, uma ignóbil inversão de valores.

Tenho dito, nas minhas pregações diárias, que nós, vítimas dessas tapeações, não podemos perder a capacidade de nos indignar. Se ficarmos anestesiados diante de tantas ilicitudes, de tantas imoralidades que se praticam no exercício do poder, não tenho dúvidas de que não evoluiremos. Seremos sempre um país terceiro-mundista e um Estado miserável, onde prepondera a cultura da enganação.

Nós, cidadãos, não podemos nos quedar inertes diante da roubalheira, da esnobação com o dinheiro público. Nós precisamos dizer aos assaltantes do erário, que não aceitamos essa prática e que estamos atentos e vigilantes. Nós temos que demonstrar que, se eles viciaram em falcatrua e nada mais temem, nós, do lado oposto da trapaça, não viciamos em retidão e não nos comprazemos com a impunidade.

Nas nossas relações diárias, até mesmo em face da nossa condição de seres humanos, cometemos erros – alguns mais; outros menos graves. Mas há diferença abissal entre os que cometem erros no seu labor diário, pela sua condição de ser humano, e aqueles de fazem apologia do embuste. É que os primeiros agem de boa-fé e quando se dão conta do erro cometido, reavaliam os seus conceitos e mudam o curso de suas ações; o que fazem apologia do engodo, do ardil e da maquinação, viciados que são, não são capazes de mudar a direção. Esses persistem navegando em águas turvas: roubando, maquinando, empulhando, ultrajando a ordem, malferindo a lei, traindo, enganando – sem peso na consciência. É que esses, diferente da maioria das pessoas, são viciados em tapeação. Esses, de tanto maquinarem, de tanto embustear e empulhar, perderam, definitivamente, a sensibilidade.

Os ilaqueadores da ordem, muito provavelmente, estão contribuindo para deformação do caráter dos que estão em sua volta. Os de personalidade ainda em formação, se abastecidos diariamente com doses cavalares de tapeação, passam, depois, a agir da mesma forma que os seus pais e de quem mais esteja em sua volta. E assim o fazem porque, muitas vezes, não têm outro paradigma e acabam viciando, também, em burla e trapaça.


*Juiz da 7ª Vara Criminal
jose.luiz.almeida@globo.com
betooliver@uol.com.br
blog: http://www.assimdecido.blogspot.com

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