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24/09/2007 - O Estado de São Paulo Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Fé, razão e tolerância

Por: Carlos Alberto Di Franco


Em recente artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, o escritor e jornalista Gilberto de Mello Kujawski, armado de uma lógica afiada e de um bom senso cortante, desnudou o laicismo intolerante que se oculta em certo proselitismo do Estado laico.

Kujawski afirma, com razão, 'que laico é o Estado, não o país, a nação, a sociedade brasileira. A laicidade estatal não se estende por lei ou decreto a toda a sociedade. Pensar o contrário e admitir que o Estado absorve em si a sociedade significa incidir em cheio no totalitarismo'. Separação entre Igreja e Estado quer dizer independência. O envolvimento de setores da Igreja na luta contra a privatização da Vale do Rio Doce não tem sentido. Não há nada na Doutrina Social da Igreja que se oponha às privatizações. Ao mesmo tempo, tentar expulsar a Igreja do debate em defesa da vida é arbítrio laicista. A independência é um bem para a Igreja e para o Estado. Mas não significa ruptura e, muito menos, virar as costas para o Brasil real.

Como já escrevi neste espaço opinativo, o laicismo, tal como hoje se apresenta e 'milita', não é apenas uma opinião, um conjunto de idéias ou uma convicção, que se defende em legítimo e respeitoso diálogo com outras opiniões e convicções, como é próprio da cultura e da praxe democrática. Também não se identifica com a 'laicidade', que é algo positivo e justo e consiste em reconhecer a independência e a autonomia do Estado em relação a qualquer religião ou igreja concreta, e que inclui, como dado essencial, o respeito pela liberdade privada e pública dos cultos das diversas religiões, desde que não atentem contra as leis, a ordem e a moralidade pública.

O laicismo-militante atual é uma 'ideologia', ou seja, uma cosmovisão - um conjunto global de idéias, fechado em si mesmo -, que pretende ser a 'única verdade' racional, a única digna de ser levada em consideração na cultura, na política, na legislação, no ensino, etc. Por outras palavras, o laicismo é um dogmatismo secular, ideologicamente totalitário e fechado em sua 'verdade única', comparável às demais ideologias totalitárias, como o nazismo e o comunismo. Tal como as políticas nascidas dessas ideologias abomináveis, o laicismo execra - sem dar audiência ao adversário nem manter respeito por ele - os pensamentos que divergem dos seus 'dogmas', e não hesita em mobilizar a 'Inquisição' de setores da mídia, para achincalhar - sem o menor respeito pelo diálogo - as idéias ou posições que se opõem ao seu dogmatismo. Alegará que são interferências do pensamento religioso ou de igrejas, quando um democrata deveria pensar apenas que são outros modos de pensar de outros cidadãos, que têm tantos direitos como eles; e sem reparar que o seu laicismo-militante, dogmático, já é uma pseudo-religião materialista e secular, como o foram o comunismo e o nazismo.

Pratica-se, então, o terrorismo ideológico, pelo sistema de atacar os que, no exercício do seu direito democrático, pensam e opinam de modo diferente do deles, acusando-os de serem - só por opinarem de outra maneira - intransigentes, tirânicos, ditatoriais (três características das quais o laicismo, na realidade, parece querer a exclusividade).

A humanidade, imaginam os defensores de uma cultura agnóstica e laicista, seria mais civilizada e feliz num mundo liberto das amarras espirituais. Será? Penso que não. Na verdade, a história das utopias da razão está manchada de sangue, terror e privação. Freqüentemente, salienta Oscar Wilde com boa dose de argúcia, 'as melhores intenções produzem as piores obras'. A Revolução Francesa, por exemplo, não gerou apenas um magnífico ideário. A utopia de 1789, em nome da 'igualdade', da 'fraternidade' e da 'liberdade', desembocou no terror da guilhotina.

A 2ª Guerra Mundial não foi acionada por gatilhos religiosos. O holocausto do povo judeu, fruto direto da insanidade de Hitler, teve alguns de seus pré-requisitos na filosofia da morte de Deus. Nietzsche, o orgulhoso idealizador do super-homem, está na raiz imediata dos campos de concentração e de extermínio programado. E não foi a religião que desencadeou o Arquipélago Gulag do stalinismo. Feitas as contas, com isenção e honestidade intelectual, é preciso reconhecer que o sonho racionalista projetou poucas luzes e muitas sombras.

O autêntico fenômeno religioso, ao contrário, só pode medrar no terreno da liberdade. Na verdade, entre uma pessoa de convicções e um fanático existe uma fronteira nítida: o apreço pela liberdade. O fanático impõe, fulmina, empenha-se em aliciar. A pessoa de convicções, ao contrário, assenta serenamente em suas idéias. Por isso, a sua convicção não a move a impor, mas a estimula a propor, a expor à livre aceitação dos outros os valores que acredita dignos de serem compartilhados. Sabe que somente uma proposta dirigida à liberdade pode obter uma resposta digna do homem.

É preciso, sem dúvida, desenvolver o senso crítico contra os desvios da intolerância, do fanatismo e de certas manifestações de estelionato religioso tão freqüentes nos dias que correm. Mas não ocultemos os estragos causados pelo fundamentalismo racionalista. A isenção é o outro nome da honestidade intelectual. A busca da verdade não enfraquece o afã de liberdade. Ao contrário, é sua mola propulsora, pois a autêntica liberdade é a adesão voluntária à verdade que se impõe a uma inteligência lúcida, aberta e não condicionada por preconceitos ou interesses.


Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor
em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia
E-mail: difranco@ceu.org.br

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