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13/07/2011 - Sol Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Quadros falsos inundam mercado

Por: Sónia Graça


O acto de pintar é sempre mais importante que a coisa pintada – já dizia um famoso escritor francês. José podia fazer jus a esta máxima. Divorciado e desempregado, aos 55 anos o homem tinha um único luxo: ser pintor. Só que deixava o génio para outros artistas que aprendeu a imitar, em ateliês que montou nos seus dois apartamentos, em Odivelas.

Outras vezes, afundado em depressões, era no Júlio de Matos que pincelava. Assim sobreviveu desde 1999, até que estudiosos da obra do pintor Almada Negreiros desconfiaram do traço e as suspeitas chegaram à Polícia Judiciária (PJ).

Na semana passada, José – já com um longo cadastro e prisão por forjar autores – foi acusado de mais um crime de falsificação e burla por ter copiado, por decalque, o desenho de Almada ‘Marinheiro Americano’ (hoje arrecadado no acervo do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian).

A história começou em 2001: invocando uma herança, o burlão entregou o desenho na leiloeira ‘Leiria&Nascimento, Lda.’, na Lapa (Lisboa), que o pôs à venda por quase oito mil euros e uma cliente acabou por comprar. Nove anos depois, essa mesma mulher desfez-se do desenho, entregando-o noutra conhecida leiloeira de Lisboa.

Desta vez, alguém mais atento avisou a Polícia, que descobriu que a peça não passava de um embuste. Nove anos depois, a mulher fica a saber que afinal tinha comprado ‘gato por lebre’.

Mais uma vítima de um fenómeno que a PJ conhece bem. Só nos últimos três anos, em Lisboa, o número de quadros falsos apreendidos em leiloeiras, antiquários e até galerias de arte disparou: em 2008, os inspectores da secção de obras de arte detectaram sete ‘falsos’, no ano seguinte 16 e em 2010 foram 154.

Crise traz negócios fáceis

Quase todos de autores portugueses contemporâneos e alguns já mortos: Álvaro Lapa, René Bertholo, Costa Pinheiro, José de Guimarães, José Escada, Bual e Joaquim Rodrigo. Este ano, já foram recolhidos quadros suspeitos de Costa Pinheiro, Vespeira e René Bertholo e desenhos de Malangatana, Almada Negreiros e Mário Elóy.

«Regra geral, os estabelecimentos adquirem os quadros na presunção de que são verdadeiros, só que depois pessoas conhecedoras dos meandros ou até familiares dos artistas desconfiam do estilo e denunciam» – explica Luís Baptista, coordenador de investigação criminal da PJ, admitindo que muitas vezes também há «algum desconhecimento ou falta de cuidado por parte dos comerciantes e dos clientes».

A crise, sublinha Baptista, tem contribuído bastante para aquilo a que chama «negócios de risco»: «Os galeristas têm de garantir que a pessoa a quem compram é idónea. Se entrar pela loja alguém com um quadro na mão para vender por ‘tuta e meia’ e sem certificado, há-que desconfiar. Há comerciantes mais aventureiros que arriscam sem grandes garantias».

Por trás dos quadros falsos, os burlões montam geralmente histórias de «heranças» para conseguir fechar negócio: «Há um argumento fraudulento por parte de quem vende mas também uma ganância de quem compra. Muitas vezes ficam cegos com esse ganho».

Uma vez na posse do quadro suspeito, a Polícia tem de reconstituir todo o percurso da obra para tetar chegar aos marchands e falsários. E isso pode muito bem implicar uma visita a casa de clientes que adquiriram a peça, pensando que era boa.

Que o diga Manuel, de 60 anos, que, há dois anos, comprou um quadro de Álvaro Lapa. Tinha-o já pendurado na parede da sua sala, quando um dia recebeu um telefonema do dono da galeria, uma das mais conceituadas do país. Atarantado, o empresário comunicou-lhe que a Judiciária suspeitava daquele quadro. E pediu-lhe que deixasse os inspectores entrar em sua casa para levar a pintura e submetê-la a exames periciais. Algum tempo depois veio o resultado: a tela era mesmo falsa (ver caixa).

Para compensar a fraude, a galeria acabou por dar outro quadro ao cliente, que tinha investido milhares de euros na primeira aquisição.

Às vezes, o vilão é a própria família

«O mercado alargou-se nos últimos anos e as falsificações tornaram-se uma coisa aflitiva. A toda a hora vêm cá particulares tentar vender falsos. Ainda há um mês passei uma série de ‘certidões de óbito’, como costumo dizer, a vários quadros de um artista» – assume Arlete Silva, da conhecida galeria 111, fundada em 1964 em Lisboa, onde

«Há muitos falsos sobretudo de naturalistas como Amadeu Souza Cardoso, António Soares, António Carneiro, José Malhoa. Por vezes, as famílias dos artistas também são um filão, fazem certificados muito dúbios. Há processos pendentes em tribunal», diz a especialista, que durante muito tempo analisou, com o marido, Manuel de Brito (um dos maiores galeristas e livreiros portugueses do século XX, já falecido) obras duvidosas a pedido da Judiciária.

«Todo o cuidado é pouco hoje em dia: ou se trabalha directamente com o artista, que é o nosso caso, ou, se o artista já morreu, só se deve comprar um quadro com certificado passado por pessoas credíveis e com uma história bem consolidada», previne a galerista, com 47 anos de experiência no meio.

O problema, vinca, é que «as pessoas compram às cegas» e, em contrapartida, «como estes crimes não dão cadeia no imediato, os vigaristas ficam em liberdade e conseguem ir vendendo e pôr dinheiro em caixa».

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