Monitor das Fraudes - O primeiro site lusófono sobre combate a fraudes, lavagem de dinheiro e corrupção
Monitor das Fraudes

>> Visite o resto do site e leia nossas matérias <<

CLIPPING DE NOTÍCIAS


Acompanhe nosso Twitter

21/03/2006 - Educacional Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Toda ferramenta pode ser usada para o mal

Por: César Munhoz


A Internet não criou novos tipos de crime. Ela apenas os “turbinou”, da mesma forma que fez com nossa vida — agilizando processos, poupando tempo durante as pesquisas e mantendo-nos em contato com amigos e colegas de trabalho. “Evidentemente, os benefícios são inúmeros. É uma evolução não só tecnológica, mas também nos campos científico e cultural,” reconhece o delegado Demetrius Gonzaga. “Mas, como acontece com qualquer ferramenta, há sempre quem queira usá-la de maneira distorcida, mal-intencionada”, destaca.

É dessa “distorção” que surgem os cibercrimes, que nada mais são do que delitos comuns cometidos com o auxílio da informática. São crimes comuns em sua finalidade, mas totalmente diferentes na forma de execução. Entram em campo a alta tecnologia, o novo conceito de espaço, a velocidade e o anonimato dos tempos da Internet. A polícia brasileira acordou para o fenômeno, e vários estados já têm núcleos específicos de combate aos cibercrimes. Demetrius, que trabalha com processamento de dados desde 1978 e atualmente chefia o núcleo da Polícia Civil do Paraná, explica a seguir como funciona essa nova modalidade de delito.


O que é cibercrime?
Cibercrime é todo delito praticado com a utilização de meios eletrônicos, como computadores e canais da telemática. Os mais comuns são calúnia, injúria, difamação, estelionato, falsidade ideológica, crimes contra o patrimônio, ameaça, interceptação de comunicação, invasão de sistemas, eliminação e alteração de informações em banco de dados e espionagem.

Quais são os cibercrimes mais freqüentes que envolvem crianças e adolescentes?
Eles são da mais variada ordem: crimes contra a honra, pedofilia, distorção de imagens (montagem de fotos para colocar uma pessoa em situação vexatória), incitação à violência...


Muitos desses crimes, na verdade, já existiam. Com o advento da Internet, o que mudou na prática deles?
A Internet é uma ferramenta a mais para se cometerem crimes, e bastante poderosa, pois possibilita uma velocidade muito grande na comunicação: é possível acessar qualquer tipo de informação com rapidez. Além disso, existem na rede canais que permitem um monitoramento constante de outras pessoas. Quem não tem domínio dessas técnicas pode estar sendo observado. Basta ter o conhecimento e os dispositivos para tal. E o criminoso usa bastante uma técnica chamada de engenharia social. Ela já existia antes da Internet, mas é potencializada pela nova tecnologia, e pode se dar de três formas diferentes:

1) Por telefone, quando alguém dissimula uma identidade pessoal ou empresarial e consegue as informações que precisa. Por exemplo: um engenheiro social se faz passar por candidato a uma vaga de emprego. Durante a conversa, faz perguntas sobre o funcionamento da empresa e descobre detalhes sobre o banco de dados dela e como acessá-lo;

2) Pessoalmente: o criminoso se “traveste” de acordo com a ocasião e atua como outra pessoa, também com o intuito de descobrir detalhes que possam facilitar a prática de um delito. E isso é tão bem feito que ninguém suspeita que a pessoa está mentindo;

3) Por meio dos phishing scams, que são mensagens que dissimulam o remetente para embutir cavalos de tróia no computador do usuário e poder monitorá-lo.

Um lugar propício para se fazer engenharia social são as redes de relacionamento, como o Orkut. Você o acessa e, no perfil de uma pessoa, vê o nome completo dela, e-mail... Alguns chegam até a publicar telefone e endereço. Expõem-se demais. Abrem comunidades que revelam interesses íntimos, onde estudam e/ou trabalham, que academia freqüentam, lugares em que passam suas horas de lazer e publicam fotos da turma inteira. Imagine a facilidade que isso não traz para alguém que está planejando um crime.


A Internet revolucionou os conceitos de espaço e fronteira. Hoje você pode, do seu quarto, desencadear uma ação que vai repercutir, imediatamente, no outro lado do mundo. De que forma a polícia e as leis lidam com isso?
A Internet diminuiu as fronteiras. E o criminoso que tem um conhecimento aprofundado se vale disso para praticar delitos a longa distância. Isso dificulta a investigação desses tipos de crime, uma vez que alguns dos sites mais acessados e que são os principais palcos deles (como o Orkut e o Hotmail, por exemplo) estão hospedados fora do Brasil. Ou seja, mesmo um colega de escola, que mora a algumas quadras de sua casa, beneficia-se do fato de que o site que ele usa para difamá-lo está fora do Brasil. E, no campo do direito, temos de atuar respeitando os territórios tradicionais. Para tomar qualquer providência, dependemos de um procedimento mais complexo. Se o site que foi palco para o delito estiver hospedado no Brasil, as coisas ficam um pouco mais fáceis e rápidas. Posso usar uma carta precatória e solicitar, diretamente ao administrador do site, os dados relativos ao acesso da pessoa que cometeu a infração. O tipo de crime também vai influenciar no tempo de resposta. Mas, no caso de sites hospedados em outros países, é mais difícil. Para solicitar dados do Orkut, por exemplo, preciso expedir uma carta rogatória à Corte norte-americana. Se esta entender que a solicitação é cabível, determina ao Orkut, lá em Nashville, que os forneça. A partir desse momento, as informações são enviadas à Corte e só então chegam aqui.


Quanto tempo leva, em média, esse trâmite?
É difícil precisar, pois, a partir do momento em que a carta sai da autoridade policial encaminhada pelo juiz, existe todo um processo de análise que envolve o Ministério Público. Além disso, a solicitação pode ser deferida ou não. Dependemos ainda do sistema judiciário do outro país. Na melhor das hipóteses, pode levar de seis meses a dois anos.


Existe um caminho alternativo?
Não. Ao criar um perfil ou uma comunidade no Orkut, os dados que você submete (e que são registrados do seu computador) não podem ser cedidos a ninguém. Se tentarmos obter essas informações por outro meio que não o tradicional legal, estaremos cometendo violação de privacidade. E a privacidade, em qualquer lugar do mundo, é uma garantia constitucional.


As pessoas que elaboram as leis sobre cibercrimes no Brasil estão qualificadas para isso?
Ninguém impulsiona a criação de um projeto visando a transformar em lei se não houver um bom assessoramento. Nem todos têm o domínio das tecnologias que esses delitos envolvem, mas acredito que nossos legisladores estejam recebendo esse tipo de assessoria e buscando os canais adequados para se capacitarem a fazer boas leis.


Esse bom assessoramento se reflete na qualidade dos projetos de lei?
Com certeza. Tenho observado nos projetos detalhes que só quem tem conhecimento do assunto poderia ter pensado.


Que países apresentam as legislações mais avançadas em crimes eletrônicos?
Os EUA são, com certeza, a nação mais experiente nesse tipo de legislação. Eles têm muito cuidado e equipes especializadas, não apenas em telemática, mas no campo da inteligência como um todo. E a National Security Agency (NSA) possui um grupo especializado em crimes cibernéticos. As melhores obras a esse respeito vêm dos norte-americanos.


E o Brasil?
Nosso país está caminhando e num passo até bem interessante. Temos muita gente capacitada aqui. Os resultados estão começando a aparecer nos projetos de lei. Ainda não somos uma referência mundial nesse sentido, mas temos tanta gente brilhante que acredito que seja só uma questão de tempo.


Em 2002, o Brasil era o maior “exportador” de cibercrimes do mundo, o que mostra que também temos uma boa quantidade de gente brilhante usando esse conhecimento para o “mal”. Como estamos nesse ranking hoje?
O Brasil ainda é o primeiro nesse ranking. Fala-se que 80% das tentativas de cibercrimes são feitas aqui. Na verdade, há uma confusão. Não temos 80% dos criminosos virtuais de todo o mundo. O que acontece é que o assunto desperta muito interesse entre nossos jovens, em parte, por causa do clima de mistério e glamour que alguns filmes criam. Então, eles compram revistas, pesquisam bastante na Internet e acabam fazendo pequenas experiências, sem qualquer conhecimento aprofundado. São pequenos ataques que dificilmente causariam algum estrago, até porque as empresas já estão preparadas para eles. Mas, por menores que sejam, são sempre reportados e se transformam em estatística. Entre as pessoas que passam por aqui, apenas 2% são crackers, ou seja, têm domínio da técnica. É preciso muito estudo e dedicação para executar um cibercrime. O computador trabalha com base em cálculos matemáticos. É uma ciência. Muitos “aprendizes” desistem quando percebem isso. Esse tipo de conhecimento ainda não está assim tão popularizado, mas há preocupação de que isso venha a acontecer em breve. Precisamos nos preparar. Quando a grande parcela de criminosos descobrir que não precisa mais ir para a rua e trocar tiros para assaltar um banco e que pode tirar até uma vantagem maior sem correr qualquer risco, sem levantar da cadeira, aí, sim, teremos sérios problemas.


O que realmente são hackers?
Existe toda uma hierarquia dentro desse mundo dos especialistas na área da computação. Há inúmeras classes, mas vou falar das principais. Os hackers são “buscadores de conhecimento”, querem se aperfeiçoar. Alguns poucos tentam provar que têm esse conhecimento e fazem pequenas invasões, sem o intento de provocar danos. Mas o verdadeiro hacker não precisa desse tipo de demonstração. Há todo um código de conduta, discrição, respeito e ética entre eles. Não existe exibicionismo entre hackers. Isso é coisa dos defacers, que são pessoas especializadas em invadir e distorcer páginas de empresas e órgãos públicos. Há também os crackers, que detêm o conhecimento avançado dos hackers e o usam para cometer crimes. E existem ainda os phreakers, que dominam as telecomunicações. São os garotos que, por exemplo, usam orelhões para fazer ligações gratuitas.


Kevin Mitnick, que foi o maior cracker da história dos EUA, foi descoberto, preso e hoje tem uma empresa que oferece serviços de segurança eletrônica. O senhor conhece algum caso desse tipo aqui no Brasil?
Pelo menos na polícia, não. Até porque a lei proíbe que pessoas estranhas ao nosso quadro institucional possam praticar trabalhos que são de nossa competência. Mas é claro que, se eu receber uma denúncia anônima feita por um desses indivíduos, ela vai receber o tratamento adequado. No entanto, até por uma limitação institucional, não posso me envolver com pessoas que não estão autorizadas a trabalhar dentro do processo investigativo. E é preciso lembrar que a linha que separa o bem e o mal é tênue. Ter aqui uma pessoa dessas seria um perigo nesse sentido. Estaríamos dando a ela acesso a informações privilegiadas, e ela poderia ter uma recaída e causar um prejuízo muito maior. Poderíamos criar um monstro.


Na sua opinião, o que é navegação segura?
Imagine um salão escuro, com milhares de pessoas. Você não enxerga ninguém. E, mesmo assim, você conta toda a sua vida para quem queira ouvir. Você não sabe quem está escutando. Pouca gente teria coragem de agir assim, mas muitas o fazem no mundo virtual, sem pensar nas conseqüências. Meu conselho para os jovens é: pensem bem antes de tomar qualquer atitude. Também recomendo sempre aos pais que acompanhem a navegação de seus filhos. É preciso saber em que chats eles estão encontrando seus amigos, com quem estão conversando e que tipo de conversa estão tendo. Uma pessoa pode se valer de informações que os jovens fornecem na rede. E eles são facilmente influenciáveis, não têm malícia.

Página principal do Clipping   Escreva um Comentário   Enviar Notícia por e-mail a um Amigo
Notícia lida 615 vezes




Comentários


Nenhum comentário até o momento

Seja o primeiro a escrever um Comentário


O artigo aqui reproduzido é de exclusiva responsabilidade do relativo autor e/ou do órgão de imprensa que o publicou (indicados na topo da página) e que detém todos os direitos. Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores. O site "Monitor das Fraudes" e seus administradores, autores e demais colaboradores, não avalizam as informações contidas neste artigo e/ou nos comentários publicados, nem se responsabilizam por elas.


Patrocínios




NSC / LSI
Copyright © 1999-2016 - Todos os direitos reservados. Eventos | Humor | Mapa do Site | Contatos | Aviso Legal | Principal