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29/12/2010 - Expresso Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Aviso por causa da moral

Por: Inês Pedrosa

É urgente restaurar a diferença entre verdade e mentira.

A velocidade anestesiante a que vivemos, mergulhados em ondas sucessivas de informação superficial (porque a aprofundada é cara e fere sempre algum interesse político ou económico), está a desmoronar-nos o espírito crítico e autocrítico. A ostensiva secundarização da Filosofia nos currículos escolares é, mais do que um resultado deste mundo de aparências, uma acção voluntária de aniquilamento das faculdades interrogativas e morais dos jovens. O conceito de ética tem vindo progressivamente a arredar e arrastar para o caixote do lixo da História a noção de moral, considerada demasiado hirta e assertiva para os dias de hoje, que se querem flexíveis, maleáveis.

Ora a ética é a organização filosófica da moral, não uma mera compressão da estética, como pretendem dar a entender certas almas trajadas pela moda derradeira.

Sim: existe a moral, como existe a alma, esse estofo da pele onde circulam sonhos, paixões, desejos, frustrações, medos, a rede intrincada dos sentimentos e dos pensamentos. A moral começa pela responsabilização de cada indivíduo pelas suas acções e omissões e pela definição dos limites a que cada um deve submeter-se para não perturbar a esfera de individualidade dos outros: aquela ideia de que a nossa liberdade acaba onde começa a liberdade alheia. Estes são princípios universais, que não podem merecer qualquer espécie de complacência sob pretextos "culturais": o respeito pela integridade do outro é um absoluto não negociável.

Do mesmo modo, e ao contrário do que a profusão de apelos à subjectividade irredutível quer fazer parecer, é possível, desejável e urgente restaurar a diferença entre verdade e mentira. A mentira tem um vasto espectro de manifestações. Segundo o dicionário Houaiss, mentir pode ser: acto ou efeito de mentir; engano, falsidade, fraude; qualquer coisa feita na intenção de enganar ou de transmitir falsa impressão; aquilo que é enganador, que ilude, que se aproxima da verdade ou é real apenas na aparência; ilusão, fábula, ficção. Há uma assinalável diferença de grau, repercussão e efeito entre a mentira e a mentiralha ou mentirola (que o dicionário define como mentira sem importância, inofensiva). O mesmo dicionário descreve a verdade, do ponto de vista filosófico, como: correspondência, adequação ou harmonia passível de ser estabelecida, por meio de um discurso ou pensamento, entre a subjectividade cognitiva do intelecto humano e os factos, eventos e seres da realidade objectiva. Por conseguinte, a ideia amplamente difundida de que tudo é uma questão de opinião ou de que a verdade e a mentira são insusceptíveis de verificação porque dependem da posição relativa dos sujeitos ou das culturas em relação a elas, não passa de mistificação demagógica. Uma versão mental da tenda kadhafiana onde o camarada Hugo Chávez foi enfiar-se para exibir a sua generosidade em relação aos pobrezinhos.

Ao descarregar quantidades industriais e indiscriminadas de informações supostamente "secretas", o site WikiLeaks veio realçar a necessidade de traçar, com rigor, estas distinções essenciais - às quais deve ainda acrescentar-se a definição da ideia de "segredo" nas suas dimensões individual e social, ou de Estado. Onde começa o direito à informação e acaba o direito ao segredo? De que modo se pode defender em simultâneo a liberdade e a segurança? Quando uma mensagem verdadeira, secreta e perigosa é defendida, deve calar-se o mensageiro - mesmo que através de uma bateria de acusações altamente duvidosas, como as que impendem sobre Julian Assange?

Torna-se óbvio, no caso WikiLeaks como em tantos outros casos do nosso dia-a-dia político e pessoal, que a confusão deliberada entre verdade e mentira, factos e falatórios, tem um objectivo claro: impedir as pessoas de pensar. Habituar-nos a considerar que tudo é equivalente, que não vale a pena lutar por nada, que a vida não é mais do que um somatório de momentos (sejam escândalos ou segredos) desgarrados e fatais, pelo que nos resta apenas viver o instante e procurarmos passar entre os pingos da chuva sem grandes incómodos. Esta é a escola da resignação, da apatia e da conivência com a mentira. Esta é a antifilosofia que nos é proposta diariamente: desresponsabilização geral, impotência, desistência. Regressemos ao básico: os actos têm consequências, a liberdade dá trabalho, a mentira entorpece e embacia o brilho e a força da verdade.

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