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02/07/2007 - O Estado de São Paulo Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Escândalo com milhões do narcotráfico abala gestão Calderón


CIDADE DO MÉXICO - O empresário chinês Zhenli Ye Gon, que vive no México, afirmou nesta segunda-feira, 2, que os US$ 207 milhões apreendidos em sua residência em março pertenciam ao partido da situação no país, o Partido Ação Nacional (PAN), do presidente Felipe Calderón.

Foi a maior apreensão de dinheiro na história do combate ao narcotráfico, a maior parte em notas novas de US$ 100, encontrados em paredes, closets e valises na residência de Ye Gon na Cidade do México.

Ye Gon disse à Associated Press que a maior parte do dinheiro pertencia ao PAN, que autoridades do partido lhe entregaram o dinheiro no ano passado, em bolsas de lona recheadas com US$ 5 milhões cada uma, e ameaçaram matá-lo se ele não guardasse os valores.

Em comunicado divulgado na noite de domingo, o governo mexicano disse que a história de Ye Gon era "uma tentativa perversa de chantagem" com a qual ele pretendia livrar-se das acusações de lavagem de dinheiro, compra de armas e narcotráfico, e neutralizar a guerra do presidente contra as drogas.

Segundo o governo, Ye Gon lucrou milhões fornecendo aos traficantes a matéria-prima para produzir uma forma de metanfetamina pura, com alto poder viciante, que inundou os mercados dos EUA. O governo ressaltou que a história "não era apenas falsa, mas ridícula".

Ning Ye, advogado de Ye Gon nos EUA, enviou uma carta de quatro paginas à embaixada mexicana em Washington levantando as acusações de natureza política e sugerindo que os mexicanos fizessem um acordo com seu cliente.

"Solucionar este problema é do interesse de todas as partes (...) devemos nos sentar e trabalhar em conjunto para chegarmos a uma solução e um acordo sobre esta questão", escreveu Ye. Um comunicado do procurador-geral qualificou a carta de tentativa de extorsão.

Onze pessoas, incluindo diversos parentes de Ye Gon, foram acusados no México de narcotráfico e crime organizado.


Versão do chinês

Ye Gon, 44 anos, recentemente reuniu-se com a Associated Press no escritório do seu advogado em Nova York e repetiu sua versão dos fatos, que incluiu guardas misteriosos e ameaças aterradoras.

Grande parte da história sobre seu suposto relacionamento com o PAN tem por base afirmações difíceis de serem provadas.

Se verdadeiras, Ye Gon teria sido vítima de uma trama bizarra e complicada, sendo forçado a esconder um enorme volume de dinheiro de estranhos que não o gastaram, apesar de estarem envolvidos na campanha eleitoral, a mais disputada da história do México.

Ye Gon disse que nunca teve relação com o PAN e não sabia porque foi escolhido para guardar o dinheiro. O nome do seu principal contato não se encaixou com nenhuma das pessoas que trabalharam na campanha de Felipe Calderón.

Nascido em Xangai, Ye Gon emigrou para o México em 1990, obtendo a cidadania mexicana em 2002. Era importador de têxteis, roupas e sapatos e fez fortuna como revendedor de mercadorias confiscadas pela alfândega mexicana.

Em 1997 criou a empresa farmacêutica Unimed. Disse que se tornou um dos maiores importadores de pseudo-efedrina, usada em remédios para resfriados e também para a fabricação da metanfetamina.

Mas, após 2004 teria deixado de importar a substância por causa dos controles estabelecidos para substâncias químicas. Ye Gon disse que nunca vendeu drogas ilegais e nem sabia como era a metanfetamina.


Versão do governo

O governo afirma o contrário. No ano passado, os agentes teriam interceptado um navio da China que, supostamente, transportava 19 toneladas de acetato de pseudo-efedrina, importada ilegalmente por Ye Gon.

As autoridades dizem que ele estava construindo uma enorme fábrica no México para processar o componente e transformá-lo numa forma utilizável para os traficantes mexicanos, que fornecem 80% da metanfetamina para o mercado americano.

O advogado Ning Ye disse que o México destruiu o carregamento para "acabar com as evidências de fraude". Ye Gon disse que a substância era material químico registrado, usado em remédios para resfriados.

Uma pesquisa divulgada nesta segunda indicou que 40% dos mexicanos acredita que Calderón chegou ao poder por meio de fraude eleitoral. Calderón foi eleito em 2006 com uma diferença de apenas 0,58 pontos porcentuais de seu oponente, Andrés Manuel López Obrador. Mas 65% da população aprova o governo do atual presidente.

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