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09/10/2010 - Veja Online / New York Times Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Fraudes fora de controle ameaçam ascensão chinesa

Cultura de trapacear ou fraudar se alastra nos setores de saúde e educação, com a multiplicação de diplomas falsificados e pesquisas plagiadas.

Ninguém consegue superar Zhang Wuben como vendedor. Por meio de programas na TV, DVDs e um livro que é um best-seller, ele convenceu milhões de pessoas de que berinjela crua e uma grande quantidade de feijão verde eram capazes de curar lúpus, diabetes, depressão e câncer. Ele é um fenômeno. Por 450 dólares, pacientes com doenças sérias conseguem uma consulta de dez minutos e uma prescrição com qualquer médico – exceto com Zhang, 47, famoso como um dos principais praticantes da tradicional medicina chinesa, com agenda cheia até 2012.

Quando o preço do feijão verde subiu com velocidade na primavera, porém, jornalistas chineses começaram a pesquisar Zhang a fundo. Descobriu-se que, ao contrário do que afirma, ele não vem de uma antiga família de médicos (seu pai era tecelão). Tampouco possui um diploma da Universidade de Medicina de Pequim (a única educação formal legítima que tem é um curso à distância que fez logo após perder o emprego em uma fábrica têxtil chinesa).

A exposição de Zhang e sua falsa credibilidade causaram nervosismo e discussão sobre o que estudiosos dizem ser uma prática desonesta recorrente na sociedade chinesa, presente entre alunos que trapaceiam em vestibulares, estudiosos que desenvolvem pesquisas falsas ou enganosas e empresas de laticínio que vendem leite envenenado para crianças.

Revelações mais recentes foram ainda mais chocantes. Depois de um acidente aéreo em agosto que resultou em 42 mortos no nordeste da China, a polícia descobriu que cem pilotos da companhia falsificaram seus históricos de experiência em vôo. Além disso, surgiu uma história sobre Tang Jun, o milionário e antigo líder da Microsoft chinesa, sobre como ele ostentava um falso doutorado no Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Poucos países continuam imunes a fraudes de grande repercussão. O doping esportivo e a corrupção em Wall Street são escândalos quase comuns nos Estados Unidos. Mas na China a falsificação numa área específica – como educação ou pesquisa científica – é suficiente para gerar preocupação a respeito do futuro econômico do país.

A China dedica recursos significativos para construir um sistema educacional mundial e pesquisas pioneiras em ciência e mercados competitivos, e tem conseguido grande êxito em rede de computadores, energia renovável e tecnologia militar. Mas a falta de integridade entre os pesquisadores está obstruindo o potencial do país e prejudicando a colaboração entre pesquisadores chineses e seus colegas de outros países.

“Se não mudarmos, seremos excluídos da comunidade acadêmica global”, afirma Zhang Ming, professor de relações internacionais da Universidade Renmin em Pequim. “Precisamos ter foco e buscar a verdade, não podemos somente seguir a pauta da agenda de um burocrata qualquer ou satisfazer o desejo de benefício pessoal.”

A pressão feita sobre estudiosos, por parte da administração de universidades do estado, para que tenham artigos publicados, resultou num dilúvio de pesquisas plagiadas. Em dezembro, uma publicação britânica anunciou a remoção de mais de setenta dissertações chinesas cuja originalidade ou legitimidade estava sendo questionada.

Em editorial publicado no início deste ano, The Lancet, a publicação médica britânica, alertou que pesquisas falsas ou plagiadas eram uma ameaça à palavra do presidente Hu Jintao de tornar a China “uma potência em pesquisas” até 2020. “Está claro que o governo chinês precisa tratar esse episódio como exemplo para renovar a ética nas pesquisas”, registrou o editorial.

No mês passado, uma coletânea de trabalhos científicos publicados pela Universidade Zhejiang em Hangzhou jogou mais lenha na fogueira ao divulgar resultados de uma experiência de 20 meses com um software detector de plágio. O programa, conhecido como CrossCheck, rejeitou cerca de um terço de todos os trabalhos. Em alguns casos, mais de 80% do conteúdo não foi considerado original.

A editora do jornal, Zhang Yuehong, enfatizou que nem todas as dissertações plagiadas eram da China, mas se negou a revelar detalhes sobre os trabalhos. Disse apenas que alguns trabalhos eram “da Coréia do Sul, Índia e Irã”. Publicações especializadas em medicina, física, engenharia e ciência da computação foram as primeiras na China a usar o software. E no momento são as únicas a fazer isso, acrescentou ela.

As descobertas não são tão surpreendentes se considerarmos os resultados de um recente estudo do governo, onde um terço dos 6 milhões de cientistas, em seis das melhores instituições do país, admitiram ter se envolvido com plágio ou atuar diretamente na “fabricação” de dados para pesquisas. Em outro estudo publicado no verão passado, dos 32 milhões de cientistas da Associação de Ciência e Tecnologia, mais de 55% afirmaram conhecer algum acusado de fraude acadêmica.

Fang Shimin, um dos escritores que vem revelando falcatruas e se consolidando como defensor da integridade acadêmica, diz que o problema começou com o sistema de ensino do estado, onde burocratas indicados por meio de política possuem pouca experiência nas áreas que supervisionam. Por conta da grande competição por bolsas de estudo, auxílio-moradia e aperfeiçoamento de carreira, os funcionários tomam decisões com base na quantidade de artigos publicados.

“Até mesmo dissertações fraudadas contam, pois ninguém realmente as lê,” explica Fang, que é mais conhecido por seu pseudônimo, Fang Zhouzi, cujo website – o New Threads - já expôs mais de 900 casos de falsificação, alguns envolvendo reitores de universidades e pesquisadores renomados.

Quando o plágio é exposto, os colegas e aqueles que possuem cargos de chefia nas escolas geralmente demonstram seu apoio ao acusado. Fang explica que parte disso é feita para preservar e proteger a reputação da instituição. Mas uma outra razão, ele afirma, é mais racional: são poucos os acadêmicos idôneos que podem apontar o dedo e acusar os demais.

O resultado é que o plágio geralmente segue sem punição, o que motiva ainda mais sua prática, diz Zeng Guoping, diretor do Instituto de Ciência Tecnológica e Sociedade da Universidade Tsinghua em Pequim, que ajudou no levantamento feito com os 6 milhões de acadêmicos.

Ele mencionou o caso de Chen Jin, um cientista da computação que comemorava ter inventado um sofisticado multiprocessador, mas que, na verdade, usou um chip feito pela Motorola, riscou o nome da empresa e disse ter sido ele o fabricante. A revelação da história, em 2006, foi uma vergonha para a organização científica que o apoiava. Mesmo perdendo seu cargo na universidade, Chen nunca foi processado.

O problema não está restrito à área da ciência. Muitos educadores dizem que a cultura de trapacear ou fraudar tem raiz no ensino médio, onde a competição por vagas nas melhores universidades do país é acirrada e notas altas nos testes de proficiência são os critérios mais importantes para a admissão. Redações escritas por terceiros e perguntas de exames podem ser compradas. Além disso, o aluno pode contratar alguém para comparecer em seu lugar aos dois dias massacrantes de exames admissionais para a faculdade.

Sem contar as engenhocas – relógios de pulso e canetas com microcâmeras escondidas – capazes de transmitir sinais para colaboradores do lado de fora, que então passam aos estudantes as respostas corretas. No ano passado, alunos gastaram 150 milhões de dólares em dissertações compradas pela internet e subterfúgios de alta tecnologia, cinco vezes mais que em 2007, de acordo com um estudo da Universidade de Wuhan, que identificou 800 websites oferecendo serviços ilícitos.

A fraude acadêmica não é exclusividade dos alunos de ensino médio. Em julho, o Centenary College, uma instituição de Nova Jersey, fechou suas unidades de ensino em Xangai, Pequim e Taipei depois de constatar o charlatanismo descontrolado entre os alunos. Embora a direção da escola se recuse a discutir a natureza da má conduta, o caso foi sério o bastante para reter os diplomas dos 400 alunos do curso. Após uma segunda chance para conseguir finalizar seus MBAs sob a condição de fazer um segundo exame, todos – com exceção de dois alunos – recusaram a oferta, disseram os funcionários da escola.

Pergunte a qualquer aluno chinês sobre as artimanhas acadêmicas e a resposta é surpreendentemente banal. Lu Xiaoda, estudante de engenharia que se formou na última primavera na Universidade Tsinghua, considerada umas das melhores do sistema universitário do país, fala que é comum os alunos trocarem as provas entre si ou plagiar redações uns dos outros.

“Talvez seja uma diferença cultural, mas não há nada de vergonhoso nisso”, disse Lu, que este semestre deu início ao curso de mestrado em Stanford. “Não é que os alunos não consigam dar conta dos trabalhos. Eles apenas enxergam isso como uma forma de poupar tempo.”

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