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20/05/2007 - O Tempo Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Crédito fácil acoberta crime financeiro

Por: Frederico Damato


Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Pelo menos deveria desconfiar. Empresas que prometem empréstimos sem burocracia, sem exigência de nenhum tipo de garantia, com juros baixíssimos, e o melhor, disponibilizando o dinheiro na hora, tome cuidado: tudo conspira para um golpe.

É agindo dessa forma que a Master Real Representações e Empreendimentos Ltda tem lucrado muito às custas da boa-fé de milhares de pessoas que procuram financiamentos facilitados.

A companhia está cadastrada na lista de empresas golpistas da delegacia do consumidor do Procon Assembléia. Enquanto a Master Real opera às claras, aplicando golpes na praça, outras 67 empresas do gênero já foram fechadas pela delegacia do consumidor nos últimos 18 meses.

A modalidade de golpe aplicada pela Master Real é praticada há décadas e, apesar de todo o esforço da Justiça no combate ao crime, o sentimento de impunidade cria coragem aos mentores das gangues golpistas, que se disfarçam de empresas e atuam livremente no mercado.

?A impunidade se torna latente quando o golpista é preso em flagrante e solto dias depois, respondendo todo o processo em liberdade?, informou o delegado de defesa do consumidor Horivelton Cabral. Das 40 pessoas presas em flagrante nos últimos meses, um está foragido e 39 respondem em liberdade.

O regime de funcionamento da Master Real, de sociedade em conta de participação, dispensa registro tanto na Junta Comercial de Minas Gerais (Jucemg) quanto no cartório de pessoas jurídicas, além de camuflar a identidade de seus sócios, o que facilita a prática dos atos ilícitos.

O golpe praticado pela Master Real funciona da seguinte forma: a pessoa entra em contato com o suposto funcionário da empresa, solicitando o crédito. Não existe limite de valor a ser pedido. O vendedor afirma que o cliente fará parte de um grupo de interessados, uma espécie de consórcio em que não há sorteio.

E é o cliente quem exige a data que quer receber o empréstimo. Geralmente, a vítima se compromete a quitar a dívida em longos financiamentos, com juros irrisórios, fora da realidade do mercado.

Antes de ser liberado o dinheiro, o suposto vendedor da Master Real pede ao cliente que deposite uma certa quantia na conta da empresa, como forma de seguro. Entretanto, a conta pertence a uma pessoa física, no caso da Master Real, em nome de Cláudio Olinto Matos de Oliveira.

?Na maioria dos casos, o dono da conta bancária costuma estar envolvido no golpe. Contudo, quando é intimado, costuma alegar que perdeu o seu cartão de crédito junto com a senha?, explica a delegada Adriana Veloso Ferraz.

?O contrato dessas empresas golpistas é muito bem elaborado e só um especialista consegue achar os seus vícios. Trata-se de publicidade enganosa, estelionato puro. Em hipótese alguma o consumidor deve assinar um documento de empréstimo antes de consultar o nome da empresa e tirar todas as dúvidas com um advogado?, observa o coordenador do Procon Assembléia, Marcelo Barbosa.

Ninguém da Master Real sequer foi encontrado, apesar das inúmeras denúncias feitas à delegacia do consumidor sobre os seus golpes praticados na praça. A delegacia do consumidor ainda não mensurou os prejuízos causados pela companhia.

A maior dificuldade em se encontrar os golpistas é o fato de a empresa não possuir uma sede fixa. Os supostos funcionários utilizam telefones móveis, como os da Vésper e da Nextel, explica Adriana Ferraz.

?Além disso, os mentores dos golpes nunca colocam a cara a tapa. Sempre utilizam laranjas para representá-los na empresa?, completa Horivelton Cabral.

Master Real pede R$ 5.000 para liberar empréstimo

A motorista M.C.S.A. não encontrava meios de quitar uma dívida de R$ 30 mil, até que viu nos classificados de um jornal o anúncio da Master Real, oferecendo crédito fácil, de forma imediata e a juros módicos.

Foi o suficiente para lhe despertar o interesse, e não pensou duas vezes em ligar para a empresa. Gentilmente atendida por Dionísio Nogueira, suposto gerente de crédito da cooperativa, ficou acordado que tomaria emprestados R$ 50 mil.

Entretanto, antes de ter o dinheiro em sua conta, a Master Real exigiu adiantamento de R$ 5.000 como forma de seguro. Como M.C.S.A. não tinha condições de adiantar tal quantia, a empresa reduziu o valor para R$ 2.500, com uma entrada imediata de R$ 300 e uma segunda de R$ 2.200.

?Somente depois de pagar a primeira parcela é que fiquei desconfiada das facilidades que me deram?, disse M.C.S.A..

A motorista estava tão afoita em conseguir o crédito que não se atentou pelas taxas de juros cobradas pela Master Real. Pelo acordo, a empresa tinha se comprometido a emprestar os R$ 50 mil e financiar o montante em 200 parcelas de R$ 305. Na última prestação, ela teria pago R$ 61 mil à Master Real.

Os juros cobrados seriam de 0,21% ao mês (e 22% no total), menor que os juros imobiliários (1,01% a.m.), os mais baratos do mercado.

Se M.C.S.A tivesse adquirido o mesmo valor numa financeira independente, devidamente legalizada, teria pago R$ 1,516 milhão, conforme levantamentos da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead).

Seriam 200 parcelas de R$ 7.580, compondo juros totais de 2.932%, ou 15,16% ao mês. A motorista foi assistida pelo advogado e sócio do escritório Almeida Soares Advocacia, Leonardo Augusto Pires Soares.

?Liguei para a empresa me identificando como filho de minha cliente e me propus a ir até a sede administrativa, mas o funcionário dizia que não era necessário. Perguntei porque eles não exigiram garantias, e responderam que não precisava, pois tinham um seguro contra inadimplência. Pedi então a cópia do seguro e me negaram?, disse Soares.

A reportagem de O TEMPO teve acesso ao contrato firmado entre a Master Real e M.C.S.A. O documento, de cinco páginas, é escrito de forma simples e promete ao cliente todas as facilidades possíveis.

Numa das cláusulas do contrato consta que a pessoa ?não depende de sorteio nem lance, pois o crédito é liberado por ordem de inscrição.?

Nossa equipe de reportagem fez duas simulações com Dionísio Nogueira, funcionário da Master Real. Nos dois casos foram solicitados créditos de valores diferentes, de R$ 20 mil e R$ 50 mil, e Nogueira não viu empecilho algum em liberar a verba. Sequer perguntou qual a renda mensal do suposto cliente.

Nas duas simulações, foi perguntada a sede administrativa da empresa. Na primeira vez, Nogueira disse que a firma situava- se em Nova Lima. Na segunda ligação, afirmou ser em Betim. Os dois endereços passados pelo suposto gerente da Master Real não existem.

Assim que constatou o estelionato, Leonardo Soares se identificou como advogado da motorista e pediu o dinheiro depositado de volta. ?Até hoje não vi a cor do dinheiro?, salienta M.C.S.A.

Há centenas de empresas similares na praça

A Master Real Representações e Empreendimentos Ltda não está sozinha no mercado. Centenas de empresas concorrem com ela na praça, aplicando as mais variadas modalidades de golpes e arrematando fortunas incalculáveis, prejudicando tanto o consumidor, que fica sem ver a cor do seu dinheiro, quanto o poder público, que deixa de receber os seus devidos impostos.

Nos últimos 18 meses, a delegacia do consumidor fechou mais de 60 empresas golpistas. A ação envolveu a prisão de 40 pessoas. Todas as prisões foram em flagrante. Dos detidos, 39 respondem os processos em liberdade, exceto Adair Alves Escolástico, foragido da polícia.

?Hoje os golpes são praticados por telefone e não tem como rastrear os golpistas pois eles utilizam telefones móveis. Podem estar num galpão, num shopping center ou até mesmo dentro de casa?, afirma o delegado Horivelton Cabral.

Investigado

O caso mais estranho se refere aos supostos golpes praticados pelas mais de 20 empresas de Paulo Cardoso da Silva. ?São empresas dos mais variados gêneros, que aplicam golpes contra consumidores?, explica a delegada Adriana Veloso Ferraz.

Paulo Cardoso comparecia pontualmente às intimações feitas pela delegacia do consumidor. Contudo, quando os agentes foram intimá-lo no dia de 18 de abril, em sua residência localizada no bairro Jardim Atlântico, em Belo Horizonte, ele havia se mudado sem avisar a Justiça.

?Se nas próximas duas intimações não for encontrado, pediremos a sua prisão preventiva e ele será dado como foragido. Por enquanto, o enquadramos como desaparecido?, observou Adriana Ferraz.

O suposto golpista possui uma outra identidade, com o nome de Paulo Cardoso Souza.

A reportagem de O TEMPO foi até a residência que Paulo Cardoso acabou de vender. Uma luxuosa casa de exatos 579,73 metros quadrados, com muro de 3,5 metros de altura, seis câmeras de segurança na porta de entrada, cerca elétrica e uma guarita.

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