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03/06/2010 - administradores.com.br Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Ética empresarial e cidadania

Por: Wagner Siqueira

O Século XXI desponta como a era da cidadania , do civismo e da ética. A humanidade estaria nos umbrais da construção de um novo tempo de fraternidade e justiça social? Subsistem muitas dúvidas e questionamentos.Como as organizações empresariais reagem a tais circunstâncias?

Se o Século XX ficou conhecido como a era da violência, da ciência e da tecnologia, o Século XXI desponta como a era da cidadania, do civismo e da ética.

Embora os primeiros movimentos desse novo século ainda arrastem os restos da cultura autoritária que marcou a era da violência, nunca o cidadão e a sociedade civil estiveram tão organizados e exigentes na cobrança de mais ética, respeito aos seus direitos e responsabilidade social. O crescimento do movimento ambientalista, a proliferação das entidades de defesa do consumidor, de denúncia da corrupção, as manifestações crescentes por maior eqüidade nas relações entre as nações – e entre as corporações e os cidadãos - começam a moldar uma nova ordem.

O tráfico de drogas, a corrupção e a lavagem de dinheiro ainda movimentam bilhões de dólares no sistema financeiro internacional. Mas o clamor da sociedade civil pela ética tem levado governos e organismos multilaterais a apertarem o cerco aos paraísos fiscais e os legislativos a tornarem cada vez mais rigoroso o arsenal de leis e dos órgãos reguladores.

Multiplicam-se, hoje, os fundos de investimento que só aplicam seus recursos em empresas socialmente responsáveis, que respeitem o meio ambiente e que sejam transparentes com seus acionistas, fornecedores e clientes. Organismos internacionais de financiamento e órgãos reguladores dos principais mercados financeiros estabelecem regras e exigências éticas cada vez mais rigorosas para a listagem de corporações que se habilitem aos seus recursos.

A responsabilidade social corporativa deixa de ser figura de retórica que emoldura as publicações institucionais das empresas para constar dos balanços e relatórios apresentados às assembléias de acionistas e ao mercado. Passa a ser parte do negócio. Não só porque os grandes fundos de investimentos não querem correr riscos de aplicar seus recursos em empresas sujeitas a multas ambientais, ações civis ou trabalhistas, mas também porque seus cotistas, mais que investidores são cidadãos que descobrem que podem cobrar não apenas lucro, mas também ética, compromisso ambiental, responsabilidade corporativa.

Observador atento que se demore na leitura de balanços e relatórios das grandes corporações e se preocupe em compará-los com publicações semelhantes de alguns poucos anos atrás perceberá com facilidade a mudança substancial na qualidade da informação, na transparência e, com certeza, no volume de recursos endereçados à área social e ambiental das companhias. Empresas que confessam em seus relatórios danos ambientais decorrentes de suas atividades, punições de empregados e executivos envolvidos em corrupção, mortes resultantes de falhas em seus sistemas de segurança constituem fenômeno bem recente no mundo dos negócios. A própria prática dos recalls é bastante recente no mundo corporativo.

Se a globalização dos mercados derruba barreiras comerciais e fronteiras políticas, a transnacionalização das empresas obriga seus executivos a negociarem cada vez mais com representantes do poder político local, com os legislativos, com órgãos reguladores mais severos e atentos. Se as comunidades abrem suas portas ao consumo e franqueiam seus mercados, cobram, também, das empresas, retribuição social, ética no relacionamento, respeito às suas leis, ao meio ambiente, aos consumidores de seus produtos.

Foi-se o tempo em que a função social da empresa era produzir, dar emprego, pagar imposto e respeitar a lei. O cidadão do novo século exige mais. Quer, mais que agente econômico, que as empresas sejam parceiras num projeto de bem-estar social. Cobram uma relação de troca de benefícios, transparência na ação, ética no relacionamento, investimento no desenvolvimento sustentável da comunidade onde atuam.

A empresa que não se ajustar aos novos padrões de exigência será varrida do mercado no século da cidadania. Sucumbirá à avalanche de multas ambientais e fiscais, ações civis e trabalhistas, à restrição gradativa de crédito e ao cerco dos órgãos reguladores. Mais ainda: perderá os seus clientes.

E para que se ajuste tem que mudar rapidamente de postura. Precisa criar nova cultura, estabelecer padrões éticos de conduta para todo o tecido funcional. Fazer com que seus executivos e empregados entendam que seu negócio é mais que vender produtos ou serviços. Que precisam, além disso, de vender credibilidade, transparência, estabelecer relação de respeito e confiança com seus acionistas, fornecedores e clientes.

O cidadão do novo século começa a entender que os governos não são os responsáveis por todos os males, nem são a solução para todos os problemas. Descobre, gradativamente, que há poucos inocentes nas sociedades contemporâneas. Mas recusa-se, também, a aceitar que a venalidade seja traço congênito dos homens. Acredita numa nova ordem e cobra soluções.

Aliás, como dizia Albert Camus diante de tantas circunstâncias escandalosas: agora já não há mais cegos ou ingênuos, apenas cúmplices.

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