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13/05/2010 - Visão Online Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

A "carta da Nigéria" que veio da África do Sul

Mais uma crónica da secção Gestão de Fraude, desta vez da autoria de Mariana Costa.

Escrevo hoje na primeira pessoa do singular.

Recentemente, no regresso a casa depois de um normal dia de trabalho, fui, como habitualmente, à caixa de correio buscar a correspondência. No meio de um conjunto amorfo de envelopes brancos com janela e endereços escritos a computador encontrava-se um envelope vindo da África do Sul, com uma espécie de moldura tracejada de azul, branco e vermelho e três selos de cores fortes e desenhos de flores, completado pela identificação manuscrita do destinatário: eu.

Pousadas as coisas, dirigi de imediato a minha atenção para o envelope em causa e abri-o. Dentro, encontrava-se uma folha A4 escrita a computador, que apresentava como cabeçalho a identificação de uma sociedade de advogados situada em Joanesburgo.

A carta vinha redigida em Inglês e no assunto constava a promissora expressão "Acordo Legítimo" (Legitimate Arrangement).

Resumindo o conteúdo da extensa missiva, o Sr. Advogado X tinha a pesada tarefa de me informar que o Sr. Engenheiro Y, empreiteiro há longos anos estabelecido na África do Sul, tinha falecido juntamente com a mulher e os seus três filhos num acidente de viação. Apesar de várias tentativas efectuadas, não tinha sido possível encontrar nenhum parente sobrevivo do referido senhor, razão pela qual eu estava a ser contactada.

A proposta era simples: apresentar-me como legítima herdeira do de cuius e sua família e assim reclamar o direito aos quase US$20,000,000.00 que este detinha numa conta bancária no First National Bank of South Africa. Para tal, eu tinha apenas que me deslocar à África do Sul para assinar alguns documentos (apenas?!) ou, caso não pudesse deslocar-me (ah!), o solícito autor da carta trataria de tudo em meu nome, pedindo em troca apenas uma pequena parcela do montante envolvido, se eu nada tivesse a opor.

A carta termina afirmando que a transacção em causa está isenta de qualquer risco legal, visto o funcionário do banco responsável pela gestão da conta estar também envolvido e pedindo a minha resposta, o mais rapidamente possível, através de telefonema, fax ou email.

O esquema associado à carta que recebi não é novo e é habitualmente designado, nos meandros do estudo da fraude, como "Carta da Nigéria". O modus operandi, se bem que com ocasionais variações, é o seguinte: a vítima é contactada (actualmente com maior frequência através do envio de um email ou através das redes sociais na Internet) e aliciada a participar numa operação ilícita de desvio de dinheiro, seja proveniente de supostas heranças (como foi o caso), seja de falsas transacções, seja dinheiro de empresários de sucesso ou antigos políticos que pretendem assim acautelar o seu património contra a corrupção e incerteza instaladas no país, ou até mesmo, num rasgo de imaginação que faria corar Hollywood, de soldados Norte-Americanos no Iraque ou Afeganistão, que, numa qualquer rusga, se depararam com uma elevada quantia monetária, qual caverna escondida do Aladino.

Se a vítima retribuir o contacto, recebe então diversos documentos falsos para assinar e, com frequência, para preencher com o fornecimento de dados pessoais. Por fim, quando a vítima se encontra já suficientemente envolvida no processo, é-lhe solicitado que envie uma contribuição financeira para a libertação final do dinheiro, sendo esta contribuição financeira o principal objectivo do esquema.

Uma outra variante desta fraude, mais perigosa pela sua aparência de licitude, é a publicitação da concessão de créditos bancários a taxas de juros muito apelativas, para cuja obtenção a vítima teria apenas de disponibilizar pequenas quantias de dinheiro para cobrir custos administrativos. O crédito vem a revelar-se fictício e a vítima vê-se despojada do dinheiro que adiantou.

Quanto a mim, não fosse a fictícia morte de uma família de cinco inocentes que nunca existiram, o fictício envolvimento de um funcionário de uma instituição bancária de prestígio na África do Sul, a publicitada impunidade de um esquema jurídico ilícito e a perda de US$20,000,000.00 que nunca foram meus, poderia encontrar alguma ironia poética na escolha do destinatário daquela carta, que me permite agora partilhar estas linhas.

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