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30/04/2010 - O Estado de São Paulo / Ag. Estado Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Toda semana ela manda um corrupto para a cadeia

Por: Marcelo Godoy

Aos 63 anos, 22 na Polícia Civil, a ex-professora campineira e atual corregedora dezenas de casos e se tornou a mulher mais temida da corporação.

Maria Inês é a policial mais temida de São Paulo. Toda semana sua equipe manda um corrupto para a cadeia. A mulher tem uma voz calma e um sorriso que lhe aperta os olhos. Mas anda armada. As mãos pontuam as frases dessa delegada que diz virar as páginas de sua vida, como quem a divide em capítulos. No atual, vive o papel de diretora da Corregedoria da Polícia Civil, a primeira mulher a comandar o departamento em toda a sua história.

Quando chegou à Corregedoria, nomeada pelo secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto, encontrou um órgão em frangalhos. Denúncias diziam que a corrupção se havia infiltrado no próprio departamento - policiais corregedores tomariam dinheiro de colegas corruptos de delegacias para informá-los sobre investigações em andamento. O preço desse serviço? Cinco mil reais. Até funcionários fantasmas haveria ali.

A Corregedoria era frequentemente surpreendida por operações da Polícia Federal e do Ministério Público - era a última a saber de corrupção na polícia. Em vez de inquéritos, costumava abrir apurações preliminares que quase sempre terminavam no arquivamento ou se voltavam contra os denunciantes. Casos rumorosos, como os achaques aos traficantes colombianos Juan Carlos Abadía e Ramón Manoel Yepes Penagos, El Negro, ficaram paralisados durante anos. Dezenas de processos administrativos eram engavetados à espera de solução.

Prisões. Maria Inês começou a mudar isso. De saída, trocou 25 delegados - queria gente com perfil para a função. Em menos de três meses, a nova direção indiciou mais de 20 policiais pelos achaques aos colombianos. Ao todo, 267 policiais foram acusados de crimes no primeiro ano de gestão da delegada. O número de inquéritos abertos aumentou 35% - de 1.761, de março de 2008 a abril de 2009, para 2.378 depois que Maria Inês assumiu a Corregedoria.

Ocorreram ainda 49 prisões em flagrante, com 70 presos. E, pela primeira vez, a PF teve confiança para trabalhar em conjunto com o órgão. Na Operação Usurpação, corregedores e federais prenderam três delegados e um escrivão acusados de formar um esquema de venda de segurança privada. Maria Inês costuma dizer que o controle exercido pela Corregedoria não vai eliminar a corrupção, mas pode mantê-la em "nível tolerável". "Nosso trabalho valoriza os bons policiais e a instituição."

A policial nasceu há 63 anos em Campinas. Maria Inês Trefiglio Valente é filha de um fazendeiro de origem portuguesa e de uma dona de casa de ascendência italiana. O pai resolveu interná-la no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, mantido pelas irmãs de São José de Chambéry. Fez o antigo curso normal e começou a dar aulas para crianças em Campinas. Casou-se no fim dos anos 1960 e, a pedido do marido, virou a primeira página de sua vida, abandonando o magistério. Tornou-se dona de casa e teve três filhos.

Ao 35 anos, em 1982, voltou a estudar. Prestou vestibular e entrou em Direito, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Chegou à faculdade pensando que "nenhum comunista ia mudar sua cabeça". A universidade era conhecida na época pelas ideias progressistas de seus professores. No fim do primeiro ano, Maria Inês descobriu que não sabia mais o que fazer da vida.

Delegada aos 41. Decidiu, então, iniciar um novo capítulo. Influenciada pelo professor de Direito Penal Francisco de Camargo Lima, delegado que foi corregedor da Polícia Civil, resolveu deixar de ser dona de casa. Tinha 41 anos e entrou para a polícia. Não havia ninguém na família que lhe servisse de exemplo. Foi, como costuma dizer, a "única doida" entre três irmãs a fazer essa escolha. A aceitação não foi fácil. Na verdade, em quatro anos, a nova profissão implodiria o casamento. O marido engenheiro se tornou mais uma página virada na vida de Maria Inês.

Quando o relacionamento acabou, ela era delegada em Osasco, na Grande São Paulo. Não fazia muito que havia apertado o gatilho pela primeira e última vez na vida. Durante um assalto, a delegada e dois colegas passaram em frente a um banco. O ladrão saiu da agência disparando e os policiais reagiram. Todos atiraram. Até Maria Inês. O assaltante morreu. "Alguém acertou o ladrão. Não me pergunte quem."

Trabalhou na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), das quais seria coordenadora na capital de 1995 a 2002. "Nosso maior desafio era vencer o machismo das mulheres policiais no atendimento às vítimas de violência doméstica."

"Jararaca". Ao mesmo tempo, dava aulas de Direito Penal na PUC-SP. "Eu era uma jararaca." Até uma de suas filhas, que foi sua aluna, entrou com recurso contra a nota recebida em uma prova. Perdeu. Em 2006, deixou a faculdade, onde era professora desde 1989. Encerrou outro capítulo e nunca mais voltou à PUC-SP. Hoje integra o conselho fiscal da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, controlando verbas para projetos sociais.

Em 2008, teve de descascar um abacaxi ao assumir a Corregedoria do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Policiais dali eram acusados de achacar colegas que vendiam carteiras de motorista em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. Foi essa tarefa que lhe serviu de trampolim para se tornar em abril de 2009 a corregedora-geral da Polícia Civil.

Começava ali uma batalha na polícia, que se acirrou em agosto com a decisão do governador José Serra (PSDB) de tornar a Corregedoria independente da Delegacia-Geral, subordinando-a diretamente à Secretaria da Segurança Pública. Muito policial criticou a medida como uma perda de prestígio para a Polícia Civil.

Maria Inês começou a incomodar - e a ser odiada por alguns. Pôs o delegado Luiz Antônio Rezende Rebello na direção da Divisão de Operações Policiais (DOP). "Há na polícia quem não vê a hora de o governo chegar ao fim. Acham que a próxima administração vai acabar com a independência do departamento", conta Rebello. Houve até um delegado que afirmou isso a Rebello ao gritos após depor na Corregedoria sobre a fraude em uma licitação. "Vou ser delegado-geral. Vou acabar com essa Corregedoria. Vocês vão ver."

Há ainda os policiais que reprovam na diretora o rigor de suas decisões, que julgam excessivo. Foi esse mesmo rigor que a fez mandar abrir inquérito no qual ela mesma é alvo como integrante da banca do último concurso para investigador de polícia. Tomou a decisão de receber uma denúncia sobre suposta irregularidade na aprovação de candidatos. O caso ainda está em andamento.

Relâmpago. "É preciso dar uma reposta rápida às queixas", diz Maria Inês. Para tanto, montou as operações relâmpago, para prender policiais em flagrante. Foi assim que surpreendeu a "blitz da propina". Ela era feita por investigadores de Osasco que fingiam fiscalizar carros na Rodovia Castelo Branco com o objetivo de achacar motoristas incautos.

Maria Inês costuma andar a pé. Está sempre sozinha, sem seguranças, mas com a pistola calibre 40. Há pouco tempo, espalharam para jornalistas e promotores um boato sobre um atentado contra sua família. "Não me sinto ameaçada. Para que haja ameaça, é preciso sentir medo, e isso eu não tenho." Maria Inês parece aguentar firme. Até quando a Corregedoria se tornar mais uma página virada em sua vida.

Perfil
Maria Inês Trefiglio Valente

1.Indiciou os acusados pelo delegado Roberto Fernandes, que filmou e denunciou corrupção

2.Desarquivou mais de 40 processos administrativos que estavam paralisados

3.Reuniu provas de fraudes em vários setores do Departamento Estadual de Trânsito

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