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04/04/2010 - O Estado de São Paulo / Ag. Estado Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Suíça passa por crise de identidade

Por: Jamil Chade

Intolerância étnica e leis sobre segredo bancário isolam cada vez mais o país, que vem perdendo a boa imagem construída ao longo dos anos.

Filho de imigrantes bósnios, Haris Seferovic, de 19 anos, virou herói nacional na Suíça. No ano passado, ele calou 60 mil torcedores nigerianos ao marcar o único gol da final da Copa do Mundo sub-17, em Abuja, na Nigéria, dando aos suíços o primeiro e único título relevante dentro um campo de futebol. Na mesma seleção jogam o português André Gonçalves, o chileno Ricardo Rodríguez e mais uma dezena de "estrangeiros".

O fenômeno que ocorre com a seleção suíça sub-17 é a ponta do iceberg de uma transformação social que está vivendo o até então pacato país alpino, que sempre se gabou de sua neutralidade. As mudanças, contudo, estão mergulhando o país em uma autêntica crise de identidade.

A mudança mudou a maneira pela qual a comunidade internacional enxerga o país e tem aumentado a pressão para que a Suíça repense suas leis, alianças e sua estrutura de poder.

No campo econômico, a maior crise está no setor bancário. Cerca de 30% da fortuna do mundo está depositada nos bancos suíços - quase US$ 3 trilhões. Dizem, no mercado financeiro, que se houver um banco suíço em crise, o mundo deve começar a se preocupar. E foi isso o que ocorreu em 2009.

Só o banco UBS viu seus clientes retirarem do país mais de US$ 250 bilhões com o temor de mudanças nas leis de segredo bancário. Pressionados pela crise financeira e por déficits colossais, os países ricos querem garantir que seus cidadãos não desviem dinheiro para a Suíça.

Uma caça às contas secretas começou. Na França, processos foram abertos com a ajuda de dados roubados de computadores de bancos de Genebra. Diretores do Credit Suisse foram aconselhados a não viajarem para a Alemanha porque correm o risco de serem presos por lavagem de dinheiro.

A chiadeira global contra as leis bancárias suíças é, no fundo, um questionamento do papel da Suíça no mundo de hoje. A Suíça estabeleceu sua neutralidade no Congresso de Viena, em 1815 - desde então, o país nunca lutou em uma guerra. Na Europa, no entanto, essa pose não convence mais ninguém.

Isolamento. A Suíça é avessa ao multilateralismo. O país se tornou membro da ONU apenas em 2003 e a adesão à União Europeia é rejeitada pela maioria da população. O isolamento tem consequências práticas: em caso de pressão externa, ninguém a defende.

"Não estamos em nenhum grupo que nos apoie", reclamou Doris Leuthard, presidente do Conselho Federal, órgão que corresponde ao Poder Executivo na Suíça. "Precisamos repensar se essa é mesmo a melhor estratégia."

O isolamento ficou claro na pressão feita pela G-20 para que o país acabasse com o segredo bancário. A Suíça bem que tentou uma aliança com outros paraísos fiscais, como Luxemburgo e Liechtenstein, que por motivos óbvios não conseguiu frear o lobby de França, EUA e Grã-Bretanha.

A posição suíça também cobrou um alto preço no bate-boca diplomático do país com o líder líbio Muamar Kadafi. Há dois anos, a polícia de Genebra prendeu o filho do ditador por haver espancado funcionários de um hotel de luxo no país.

Em represália, Kadafi sequestrou dois empresário suíços e defendeu uma jihad contra a Suíça. Como Berna integra o Tratado Schengen, que unifica a política de vistos na Europa, a intransigência suíça arrastou todo o continente para a briga. Para a surpresa dos suíços, a UE ficou do lado dos líbios. "Estamos vivendo um momento ruim", admitiu ao Estado o presidente do Parlamento de Genebra, Guy Mettan.

Outro ponto de atrito é a chegada de estrangeiros. Nos últimos anos, partidos de extrema direita se transformaram na principal força política da Suíça. Como bandeira, a luta contra a imigração, que estaria descaracterizando o país. Hoje, 20% dos 7,7 milhões de habitantes são estrangeiros. O Partido do Povo Suíço (SVP), que tem quase 30% do eleitorado, defende a expulsão de estrangeiros - e da família - em caso de crime, o que é considerado uma aberração jurídica.

Recentemente, o SVP conseguiu em referendo banir a construção de minaretes no país. "Os minaretes não são construções inocentes. São levantadas para marcar o território e a progressão do Islã", diz Oskar Freysinger, deputado do SVP.

O argelino Hafid Ouardiri, presidente da Fundação para o Intercâmbio de Conhecimento, rejeitou o resultado da votação e apelou à Corte de Estrasburgo. "Somos tratados primeiro como muçulmanos, depois como cidadãos. Queremos exatamente o contrário", disse Ouardiri. "A Suíça vive uma crise de identidade e acredita que os estrangeiros sejam os responsáveis por ela."

A prisão de Genebra é um reflexo do tratamento dado ao estrangeiro. Os muçulmanos são 5% da população, mas 57% dos prisioneiros. Estudos realizados pela Universidade de Genebra apontam que essa é uma das provas que os muçulmanos são menos integrados à sociedade e acabam caindo em redes do crime.

Segundo o porta-voz da prisão, Daniel Scheiwiller, o risco é de que parte dos prisioneiros acabem se transformando em extremistas. Um imã selecionado pelo governo visita todas as semanas a prisão para passar mensagem de tolerância. Outra forma de evitar a proliferação do radicalismo é encontrar trabalho remunerado para os prisioneiros menos perigosos.

PONTOS-CHAVE

Bancos

30% da fortuna do mundo está depositada em bancos suíços. Com a crise financeira, os países ricos passaram a criticar as leis de sigilo bancário da Suíça para evitar lavagem de dinheiro

Isolamento

Maioria da população é contra a adesão à União Europeia. No entanto, cada vez que o país recebe críticas externas os suíços sentem falta de aliados que os Defendam.

Islamismo

Referendo aprovou a proibição da construção de minaretes. Muçulmanos representam 5% da população, mas são 57% dos presos. Para muitos, prova de que eles são excluídos da sociedade

Turismo de suicídio

ONGs que defendem a morte assistida se aproveitam das leis locais para promover a eutanásia. A Suíça virou o paraíso do "turismo de suicídio", o que não contribui para a boa imagem do país

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