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19/03/2010 - Zero Hora Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Falso reality show levanta polêmica e choca a França

Participantes acreditavam estar dando choques em um homem e ignoravam pedido de clemência.

Um documentário exibido pela TV francesa na noite de quarta-feira chocou os telespectadores e levantou uma polêmica: até onde vai o poder da televisão sobre as pessoas? O objetivo do programa era demonstrar que os candidatos de um falso reality show poderiam ser manipulados a ponto de se tornarem torturadores e até carrascos.

Os 80 participantes do Le Jeu de la Mort (O Jogo da Morte, em tradução literal) acreditavam estar em um piloto para um novo reality show, em que uma plateia e uma conhecida apresentadora de TV os incentivavam a aplicar choques elétricos, até voltagens fatais, em uma pessoa, se ela respondesse errado a alguma pergunta. Não sabiam, porém, que os choques eram falsos e que a “vítima” era um ator – ele simulava a dor e gritava muito.

Dos participantes, 64 aplicaram o nível mortal de 460 volts, mesmo quando a “vítima” implorava por clemência ou ficava em silêncio. De acordo com os produtores do programa, a experiência provou o poder da televisão, e, em particular, a influência negativa dos reality shows.

Experimento dos anos 60 teve resultado similar

A simulação é uma nova versão do experimento feito pelo professor Stanley Milgram, da universidade americana de Yale, nos anos 60. O acadêmico pesquisou como as pessoas comuns são capazes de obedecer a uma autoridade – nesse caso, científica – e cumprir ordens que vão contra sua moral. A pesquisa foi feita após o julgamento de Adolf Eichmann, nazista que afirmou ter cometido crimes de guerra porque cumpria ordens superiores. No experimento do professor Milgram, 62% das pessoas “viraram” torturadores, percentual abaixo do aferido no Le Jeu da Mort.

– Hoje em dia, é possível conceber um programa televisivo que apresente a morte ao vivo – advertiu, na sinopse repassada à imprensa, o diretor da atração, Christophe Nick.

Ele explica que, para isso, só são necessários quatro elementos: “candidatos (não psicopatas, gente totalmente normal), um público que aplauda e encoraje, uma emissora que se atreva a exibir o programa e espectadores que o assistam”. O especialista em psicologia social Jean-Leon Beauvais afirma que é “um erro crasso” achar que só as pessoas más cometem atos infames. Segundo ele, Milgram mostrou que é “possível fazer pessoas totalmente normais cometerem coisas horríveis colocando-as em situações horríveis”.

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