Monitor das Fraudes - O primeiro site lusófono sobre combate a fraudes, lavagem de dinheiro e corrupção
Monitor das Fraudes

>> Visite o resto do site e leia nossas matérias <<

CLIPPING DE NOTÍCIAS


Acompanhe nosso Twitter

05/12/2002 - Trópico Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

A arte da falsificação

Por: Humberto Pereira da Silva

Hans van Meegeren, que criou seis quadros de Vermeer, permanece um incômodo para a crítica.

Um dos traços mais característicos da cultura de massa é a possibilidade de utilização de técnicas para a reprodução de obras de arte. O filósofo alemão Walter Benjamin produziu aquele que talvez seja o ensaio mais significativo sobre o tema: A Obra de Arte na Época das Técnicas de Reprodução. A idéia básica de Benjamin é que, com as técnicas de reprodução, a arte perdeu sua aura, que vem a ser algo como a evocação ritualística de um objeto naquilo que ele tem de único e autêntico. Se, como decorrência da carência da aura, os elementos que possibilitam a apreciação das obras de arte para a cultura de massa não são os mesmos que para arte a clássica, e as técnicas de reprodução ganham relevo, um tema que inequivocamente fascina é o que diz respeito à falsificação de obras de arte.

Um enfoque caro ao tema da falsificação é o que se refere ao plágio e, com ele, os condicionantes legais para o interdito da reprodução. Embora as querelas acerca dos condicionantes para o interdito da reprodução de uma obra sejam por demais interessantes, para escapar a uma discussão forense e ficar no âmbito da arte, creio ser interessante pensar no tema da falsificação a partir de coisas como a possibilidade de uma cópia perfeita e do acaso que pode cercar nossas crenças acerca da autenticidade. E para falar da arte da falsificação, nada melhor que colocar em jogo o caso do falsificador holandês Hans van Meegeren (1889-1947).

Antes, porém, um preâmbulo. Em 1937 afluíram ao Museu Boymans, de Roterdã, verdadeiras multidões para admirarem a obra Cristo e os Discípulos em Emaús, um quadro pintado por Jan Vermeer, o mestre holandês do século XVII. Tal momento revestiu-se de importância inequívoca, pois Vermeer não foi exatamente um artista prolífico: o conjunto de sua obra forma um número pequeno de quadros que podem ser apreciados nos dias de hoje. De modo que a descoberta de um Vermeer não foi (não é) um acontecimento qualquer; e o Dr. Abraham Bredis, uma conhecida autoridade em assuntos de arte, a quem se ficara a dever a descoberta, gozava a glória do momento. Só que o Cristo e os Discípulos em Emaús não era um Vermeer, e sim uma falsificação realizada por Meegeren. Diante dessa situação insólita, importa realçar os episódios que envolveram a falsificação de um Vermeer.

Meegeren, quando jovem, foi um pintor altamente prometedor e dotado de um verdadeiro talento que, supostamente, se recusou a subornar um crítico para obter uma crítica favorável (esse ponto de partida pode ser posto em suspenso, já que sua veracidade ou falsidade não afeta a discussão sobre falsificação de obras de arte). Com isso, ganhou a antipatia dos críticos em geral e teve sua promissora carreira ceifada. Para o que interessa, ele só entra em cena quando, em 1945, depois da queda da Alemanha nazista, a coleção de obras de arte de Hermann Goering foi encontrada em Berchtesgaden.

Incluía 1200 quadros, entre os quais, Mulher Surpreendida em Adultério, com a assinatura de Vermeer, o qual não tinha sido pilhado por Goering, e sim comprado por um agente em Amsterdã. Seguindo uma complexa pista para saber a fonte desse Vermeer que se encontrava entre os quadros de Goering e, com isso, descobrir que holandeses colaboraram com os nazistas durante a Ocupação, a polícia holandesa chegou a Meegeren, então um próspero proprietário de um clube noturno. Meegeren declarou à polícia que sua fortuna provinha da venda de seis Vermeer, que adquirira de uma família italiana.

Apesar de tentar justificar que não houvera colaborado com os nazistas, Meegeren, sob pressão, confessou que o Vermeer encontrado na coleção de Goering na verdade era um Meegeren pintado de forma a parecer um Vermeer. Em seguida, confessou ter falsificado obras de Hals, Hoock e Vermeer, totalizando 14 obras-primas, entre as quais se incluía Cristo e os Discípulos em Emaús. Com essa declaração, Meegeren abalou a reputação de Bredius e de todos os conhecedores da arte holandesa do século XVII. E, para provar que não estava mentindo, pintou, na prisão, seu último Vermeer -O Jovem Cristo Ensinando no Templo- que não deixa dúvida de que Meegeren era dotado de incrível talento para falsificação de obras de arte.

Na prisão, Meegeren trabalhou num estúdio fechado –ao qual ninguém tinha acesso- e, sob olhares permanentes de um grupo de testemunhas oficiais, foi-lhe permitido usar o seu conjunto habitual de produtos químicos para reproduzir os pigmentos da época de Vermeer. As acusações de colaboracionismo foram retiradas, e Meegeren acabou sendo acusado de falsificar assinaturas.

O curioso caso desse falsificador holandês poderia ficar apenas para o anedotário. E a história da cultura, aliás, está repleta de anedotas que, fora do pitoresco, não têm implicações que vão além da curiosidade ou das incursões psicanalíticas. Assim, há evidente curiosidade em saber até que ponto Hitler efetivamente flertou Leni Riefenstahl, quando esta apresentou o projeto para filmar O Triunfo da Vontade, ou saber se Hemingway e Fitzgerald mediram suas respectivas virilidades num banheiro de Paris, como é descrito pelo primeiro em Paris É uma Festa.

Desses episódios, além da anedota ou de supostos condicionantes psicanalíticos, não se pode inferir, com segurança, caminhos que sejam reveladores das obras de Riefenstahl, Hemingway ou Fitzgerald. Verdadeiros ou falsos, episódios como esses apenas realçam a curiosidade em torno do caráter do artista. Contudo, o caso Meegeren, para além do anedotário (sim, pois um verbete qualquer sobre Vermeer pode incluir, a título de curiosidade, que um holandês ganhou notoriedade falsificando Vermeer e esse episódio não afetar a aura das obras reconhecidas como autênticas), envolve embaraços, quando se tem em vista coisas como autenticidade de uma obra de arte e correlatos, como critérios para classificá-la, descobri-la, e a fronteira entre conhecimento e crença de que uma obra não é fruto de engano.

Se não vejamos, Meegeren ficou para a história como um mago na arte da falsificação. Mas ele falsificou o quê? Ora, ele simplesmente falsificou assinaturas? Os quadros de Hals, Hooch e Vermeer que ele diz ter falsificado não são autênticos porque não têm a assinatura Hans van Meegeren? O que se sabe é o que ele confessou, ou seja, que ele não copiou um Vermeer, mas que pintou um quadro como se fosse um Vermeer e falsificou a assinatura.

A partir do relato, o que se sabe, então, é que os quadros pintados por Meegeren não são autênticos porque a assinatura não corresponde à do autor -no caso, à assinatura de Meegeren- e não porque ele tenha copiado, com a máxima fidelidade, um quadro qualquer de autoria reconhecida de Vermeer. O caso é que os Vermeer que Meegeren diz ter pintado (Cristo e os Discípulos em Emaús, Mulher Surpreendida em Adultério e outros quatro) não estavam no catálogo das obras de Vermeer e passaram a fazer parte do catálogo tão logo foram reconhecidos por especialistas. Por causa da autoridade da crítica, um Vermeer descoberto, como qualquer obra que escapa ao catálogo de um artista, passa a ser autêntico.

O fato de, aparentemente, Meegeren não ter copiado e sim pintado quadros idênticos aos que Vermeer faria multiplica as dúvidas. Se fosse um copiador, seu gênio seria de outro tipo e, quanto a isso, bastaria contrapor um quadro original à cópia para ver a precisão com que ele reproduziria um original. Deixaria marcas ou faria uma cópia perfeita? (Não é o caso considerar que Meegeren pode ter copiado supostos quadros desaparecidos de Vermeer, pois uma cópia e um quadro idêntico de Vermeer rondando pela Europa, é óbvio, causaria alvoroço). De modo que, não sendo um copiador, vejamos os embaraços provocados pela situação.

Por que infortúnio Meegeren estaria impedido de possuir um autêntico Vermeer? Como saber que Cristo e os Discípulos em Emaús não é um Meegeren e sim um Vermeer? Do fato de Meegeren pintar exatamente como Vermeer não se pode dizer que entre os Vermeer aos quais, supostamente, ele emprestou a assinatura, não estivesse um Vermeer efetivamente pintado pelo próprio Vermeer. Meegeren poderia, sem problemas, e para se vangloriar como falsificador genial -eis o sentido mais irônico de sua arte-, afirmar que um Vermeer autêntico é uma falsificação. E quem não descobriu que um Vermeer autêntico é falsificado, não teria, do mesmo modo, como descobrir que um Vermeer falsificado é autêntico.

O caso ficaria mais simples se Meegeren apenas tivesse copiado fielmente um quadro já reconhecido de Vermeer, mas, por azar, não é esse o caso. E, a não ser que se descubram técnicas absolutamente precisas (e isso é apenas uma disposição bastante forte) para a certificação da data de um quadro, não há como dizer que um Vermeer do século XVII não é um Vermeer do século XX.

Se a questão da autenticidade pode levantar uma série de embaraços no caso Meegeren, tais embaraços não se esgotam, contudo, nesse ponto (está claro que, se um acidente histórico não o obrigasse a falar -e, mesmo assim, ele bem poderia não ter falado-, a posteridade ficaria com um falso Vermeer por autêntico). Ora, já que a imaginação permite, pensemos na situação em que -uma vez que Meegeren falsificou a assinatura- estivéssemos diante de uma tela sobre a qual diversos matizes de tinta estivessem sobrepostos ao acaso reproduzindo um Jackson Pollock ou um Wilhelm de Kooning e, por azar, com a assinatura Vermeer.

Se, por obra da imaginação, isso ocorresse, não haveria quem pudesse atribuir a Vermeer os quadros descobertos. E, talvez, sequer fosse necessário lançar mão de técnicas para comprovar que as tintas utilizadas não eram do século XVII e sim do XX. Para um caso bizarro assim, teríamos uma falsificação de Pollock ou de Kooning com uma brincadeira agregada: a assinatura de um pintor do século XVII. Ocorre que não há razão alguma para não supor que artistas contemporâneos falsifiquem uma assinatura para criar polêmica em torno de suas obras. A situação é esdrúxula e colocaria um autêntico Pollock sob suspeita, caso o próprio artista não viesse a publico para relatar a farsa.

O incômodo sobre a falsificação, no caso, ganharia outros contornos. Pollock estaria falsificando o quê? Como Meegeren, apenas a assinatura? Mas, para fazer um quadro idêntico ao que ele próprio faria com a assinatura Pollock? Sendo assim, apelando para o bom senso, não é possível falar em falsificação. Claro que só um excêntrico ou um insano para expor um Pollock ou um Kooning com uma assinatura de Vermeer como se fosse um Vermeer falsificado. Isso seria absurdo, ainda que, num lance de dados, de fato o próprio Vermeer, num acesso de fúria em conseqüência do fracasso de levar adiante um quadro, tivesse jogado tinta na tela e, por obra do acaso, a assinatura tivesse ficado intacta. Mas isso só porque a imaginação permite pensar numa situação como essa.

O caso Meegeren -e com ele a arte da falsificação- dá margem a outras inquietações. Como não reconhecer o gênio Meegeren e não colocá-lo lado a lado com os grandes mestres da pintura holandesa do século XVII? Esse anacronismo causa perplexidade, mas se é possível dizer quais são os critérios para afirmar quem são os mestres da pintura na época de Rembrandt, a ausência de Meegeren é uma falha gritante.

O que falta em sua arte, e que não foi percebido pelos especialistas em 1937, para que Meegeren não seja um mestre tanto quanto Vermeer, Hals e Hoock, dos quais falsificou a assinatura? Creio não ser possível notar o que falta a um Meegeren, pois nada falta à pintura de Meegeren e que esteja presente nos artistas que ele falsificou. Bem entendido, ninguém descobriu que um Meegeren não é um quadro do século XVII. Foi o próprio Meegeren que disse que havia pintado um Meegeren parecido com um Vermeer. Então, um autêntico Meegeren deve expressar a sua genialidade, o que desconforta, porque se trata, na mesma medida, de um engenho do embuste.

Meegeren é aquele cujo êxito consistiu em enganar. Mas quem engana à perfeição, justamente, não engana, pois o engano não pode ser outra coisa senão uma falta. Se alguém realizar algo para enganar, não disser que sua obra tem por artifício enganar e esse artifício não for descoberto, não se pode dizer, sem o risco de se cair num absurdo, que houve o engano. Por isso, se há engano diante do caso Meegerem, este consiste em não inclui-lo como um mestre da pintura holandesa do século XVII, já que ele apenas revelou que é um gênio.

Um último aspecto embaraçoso do caso Meegeren a ser destacado aqui é o que se refere à aura. Seguindo Benjamin, o que a arte clássica tem e que permanece é a aura. Vale dizer: a aura possibilita o sentimento de que a experiência propiciada pela presença de uma obra de arte não se repete a qualquer momento, em qualquer lugar e em qualquer circunstância.

Benjamin observa que a obra de arte, por princípio, sempre foi susceptível de reprodução: com a gravura na madeira conseguiu-se, pela primeira vez, a reprodução do desenho, muito tempo antes de a imprensa permitir a multiplicação da escrita. Mas com as técnicas modernas de reprodução há um dado totalmente novo: não é possível separar o original da cópia: ambas se indiferenciam na multiplicidade de reproduções. Uma decorrência interessante da tese de Benjamin é que a singularidade e a autenticidade, enquanto critérios para estabelecer o valor de uma obra de arte, não têm, na cultura de massa, o mesmo valor que para as obras clássicas.

Ocorre que, se olharmos um Meegeren, o que, talvez, salte aos olhos é que a aura que o cercaria é quebrada por um detalhe: a assinatura. Se tivesse assinado Meegeren ao invés de Vermeer, seria acusado de não ser um autor original, ao copiar os temas e os motivos de outro artista. Só que, aquilo que a crítica de arte do século XX chama de originalidade não se aplica a um artista do século XVII. Até o surgimento das vanguardas artísticas no século XX, a necessidade de romper com estruturas e apresentar originalidade não era tão determinante para estabelecer o valor de uma obra. Os temas e motivos de um artista como Rembrandt, Bosch, Dürer eram passados indiscriminadamente para seus discípulos e não havia nenhum problema com a cópia de temas e motivos. Basta olhar com atenção a história da pintura.

Eis a ironia suprema, todo o culto em torno de um Meegeren se quebra na exata medida em que ficamos sabendo que não se trata de uma obra autêntica (não se pode falar que, em relação a Vermeer, lhe falte originalidade). Ironia porque, com isso, o valor da obra estaria menos no traço, na pincelada, na noção de perspectiva, enfim, nos elementos internos ao quadro do que nos condicionantes externos; mais especificamente: no culto.

Nesse sentido, o caso Meegeren exige que se pense não exatamente na obra -no fundo, um instrumento para o culto-, mas sim nas razões quer de cunho psicológico quer de cunho moral ou ideológico que levam à apreciação de uma obra em detrimento de outra. O problema, posto nesses termos, não estaria na obra e sim no autor. Uma vez que na correspondência obra e autor o segundo é um falsificador, há um interdito: a obra carece de aura (ainda que possua os critérios estabelecidos por Benjamin -singularidade e autenticidade- já que um Meegeren com a assinatura de Vermeer é um Meegeren autêntico).

Mas, ironia suprema, se um Meegeren carece de aura, que mal há -se ele não puder ser classificado como um mestre da pintura holandesa do século XVII- em catalogá-lo como um dos ícones da arte contemporânea? Ou seja, se alguém utilizar argumentos suficientemente persuasivos para dizer que é uma heresia colocar um falsificador lado a lado com Vermeer, talvez, na mesma medida, tenha de lançar mão de vasto arsenal para que Meegeren não fique lado a lado com Dali, Duchamp, Andy Warhol e outros transgressores de motivos e de imagens na arte do século XX.

A arte da falsificação de Hans van Meegeren desafia o bom senso porque se trata principalmente de um caso que escapa a uma classificação precisa (não sendo, nesse sentido, aliás, um caso isolado na arte contemporânea); confunde a compreensão de que o nexo entre estética e moral seja claro; balança a crença acerca da autenticidade da obra de arte. Enfim, Meegeren é uma pedra no sapato. Numa situação social, a etiqueta recomenda que se agüente o incômodo até o fim. Caso não se queira correr o risco de constrangimento, deve-se aplicar essa moral a esse estranho personagem do tempo das técnicas de reprodução da obra de arte.

Página principal do Clipping   Escreva um Comentário   Enviar Notícia por e-mail a um Amigo
Notícia lida 827 vezes




Comentários


Nenhum comentário até o momento

Seja o primeiro a escrever um Comentário


O artigo aqui reproduzido é de exclusiva responsabilidade do relativo autor e/ou do órgão de imprensa que o publicou (indicados na topo da página) e que detém todos os direitos. Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores. O site "Monitor das Fraudes" e seus administradores, autores e demais colaboradores, não avalizam as informações contidas neste artigo e/ou nos comentários publicados, nem se responsabilizam por elas.


Patrocínios




NSC / LSI
Copyright © 1999-2016 - Todos os direitos reservados. Eventos | Humor | Mapa do Site | Contatos | Aviso Legal | Principal