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21/02/2007 - Veja Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Terror pelo telefone

Por: Juliana Linhares / Wanderley Preite Sobrinho


O vergonhoso rol de crimes-que-só-existem-no-Brasil (onde estão listadas, entre outras criações autóctones, o arrastão carioca e o seqüestro-relâmpago) agora inclui mais um item: o disque-seqüestro. A modalidade – em que presidiários munidos de celular extorquem pessoas de boa-fé convencendo-as de que têm em mãos seus filhos ou cônjuges – disseminou-se por todo o país nos últimos meses. É a prova da inépcia do Estado brasileiro, que não consegue coibir crimes e ilegalidades flagrantes nem nas suas próprias dependências. Em 2006, só nas cidades de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília, quase 10.000 pessoas declararam à polícia ter sido vítimas do golpe. Levando-se em conta que o número de casos não registrados é até quatro vezes maior do que o de notificados – e que há registros crescentes de ocorrências também no Ceará e na Bahia –, pode-se concluir que o disque-seqüestro atingiu níveis epidêmicos. Na segunda-feira passada, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, a aposentada Mércia Mendes de Barros, de 67 anos, sofreu um infarto depois de receber uma ligação de um telegolpista. Ela atendeu ao telefonema de um homem que dizia ter seqüestrado seu filho e que pedia 60.000 reais para libertá-lo. Enquanto o marido foi ao banco retirar parte do dinheiro, Mércia, que era cardíaca, passou mal e morreu. O autor da ligação usou o script e a atitude clássica dos especialistas em extorsão por telefone: depois de dizer que o filho de Mércia havia sido seqüestrado, deu início à série de ameaças, pressões e insultos que caracteriza esse tipo de diálogo (veja trechos de conversas interceptadas pela polícia entre um membro de quadrilha especializada em disque-seqüestro e suas vítimas).

O disque-seqüestro teve origem na Penitenciária Carlos Tinoco da Fonseca, em Campos, no Rio, há cinco anos. Em sua versão primitiva, presos convenciam as vítimas de que elas haviam sido sorteadas em promoções de empresas. Para receber supostos prêmios, como TVs e DVDs, elas deveriam comprar cartões telefônicos de celulares pré-pagos e repassar os códigos para seus interlocutores. O objetivo dos detentos, até então, era apenas manter os celulares em atividade para que pudessem continuar se comunicando com familiares e parentes ou administrando eventuais "negócios" fora da cadeia. A Coordenadoria de Inteligência do Sistema Penitenciário (Cispen) do Rio de Janeiro apurou que, em menos de seis meses, o bando da Carlos Tinoco lesou mais de 1.500 moradores das regiões Sul e Sudeste do país. Hoje, mais de 90% das ligações de disque-seqüestro continuam partindo do interior de presídios – a maior parte deles localizados no Rio (veja quadro). Para conseguir os números das vítimas, os presos se valem de listas telefônicas, agendas de telefones celulares roubados e números anotados atrás de cheques igualmente roubados. Além da Carlos Tinoco, as cadeias mais ativas são o complexo de Bangu e o presídio Evaristo de Moraes. Delas se irradia grande parte dos golpes aplicados no país. Atualmente, são três as modalidades de disque-seqüestro em circulação:

• O bandido se faz passar por bombeiro ou policial rodoviário. Depois de "informar" a vítima sobre a ocorrência de um acidente, sugere que uma das pessoas "gravemente machucadas" pode ser seu parente. O golpista aproveita-se do nervosismo de seu interlocutor para extrair dele informações como nome e características de um filho ou cônjuge que esteja na rua àquela hora. Nesse momento, o bombeiro se transforma em seqüestrador e passa a ameaçar a vítima.

• Ao atender o telefone, normalmente de madrugada, a vítima ouve uma voz chorosa pedindo socorro. "Mãe" ou "pai", diz a voz, "eles me pegaram". Em geral, a pessoa, na tentativa de se certificar se é seu filho (ou filha) que está falando, acaba revelando seu nome. Imediatamente, o bandido entra na linha e anuncia o seqüestro.

• O bandido diz que foi contratado por um inimigo da vítima para seqüestrá-la e matá-la. Em seguida, diz que, mediante o pagamento de uma determinada quantia, pode contar-lhe quem é o mandante do crime e desistir de cometê-lo.

Embora os roteiros inventados pelos bandidos possam parecer pouco críveis, um surpreendente número de pessoas termina enganado por eles. Estudo feito pelo Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), em conjunto com a Coordenadoria de Análise e Planejamento da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, mostra que 20,5% das vítimas abordadas pelos golpistas acreditam na história dos bandidos e pagam o "resgate". "A capacidade de manipulação dos criminosos é tamanha que, recentemente, a polícia recebeu queixas de famílias inteiras que se hospedaram em hotéis por imposição dos bandidos", diz Youssef Abou Chahin, diretor do Deic. Depois de anunciar o falso seqüestro de um parente, os criminosos ordenam que os familiares se dirijam a um hotel sob o argumento de que precisam se certificar de que ninguém entrará em contato com policiais. No hotel, a família é orientada a usar apenas o aparelho telefônico do quarto. Só então os bandidos dão início à negociação do resgate do parente supostamente seqüestrado. Há poucas semanas, policiais de São Paulo tiveram a notícia de que um colega, da Polícia Civil, pagara 15.000 reais a uma quadrilha de disque-seqüestro. O policial não só conhecia o golpe como já havia socorrido amigos que foram vítimas dele. Ainda assim, sucumbiu.

Há duas explicações para o fato de pessoas experientes e bem-informadas caírem no golpe. A primeira é que, por menos plausível que pareça a conversa dos bandidos, para uma enorme parcela dos brasileiros ela está longe de soar como ficção. Seqüestros – relâmpago ou de cativeiro – representam, para os moradores das cidades grandes, um pesadelo real. Embora o número de ocorrências do gênero tenha caído 60% em São Paulo e 70% no Rio desde 2002, o crime continua fazendo vítimas. Na capital paulista, no ano passado, 1 148 pessoas foram vítimas de seqüestros do tipo relâmpago e 62 foram levadas para cativeiros. Na última quarta-feira, a polícia desmontou uma quadrilha de dez seqüestradores que agia no interior do estado. Em dezembro do ano passado, ela seqüestrou um empresário do ramo de artigos para escritório. Pego em uma chácara em Caucaia do Alto (a 50 quilômetros de São Paulo), ele ficou seis dias em poder do bando e foi libertado depois do pagamento do resgate. A polícia acredita que esse foi o terceiro seqüestro da quadrilha. Uma das integrantes do bando era a professora Miriam José Gomes, de 38 anos. Até 2004, ela dava aulas para crianças em uma escola pública em Cotia.

A outra explicação tem origem na tortura psicológica imposta pelos bandidos. Eles afirmam às vítimas estar de posse de seus filhos ou, então, cônjuges. "São as pessoas com quem temos laços afetivos mais profundos", diz o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e coordenador do Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica (Gorip). "A possibilidade de perdê-los faz com que as pessoas entrem no que, cientificamente, chamamos de estreitamento do campo de consciência", afirma. O estado de desorganização mental que se segue a uma notícia de acidente ou seqüestro do filho ou cônjuge, diz o psiquiatra, faz com que a vítima entre em um estado de "quase-hipnose". VEJA teve acesso a interceptações telefônicas, feitas pela polícia do Rio entre novembro de 2006 e janeiro de 2007 (ouça as gravações), com conversas entre um membro de uma quadrilha de falsos seqüestradores e suas vítimas. Em um dos diálogos gravados (veja quadro), ouve-se uma voz, evidentemente masculina, dizendo aos prantos: "Mãe, fui assaltado". A mulher que atende – talvez por ter uma filha, e não um filho – ignora o fato de a voz ser de um homem e diz: "Foi assaltada?". Logo em seguida, diz o nome da filha – que é tudo o que o bandido do outro lado da linha queria saber. "Quase todas as informações que esses criminosos usam para intimidar as vítimas foram fornecidas por elas mesmas", afirma o delegado Wagner Giudice, diretor da Divisão Anti-Seqüestro da Polícia Civil de São Paulo. O empresário A.F., que caiu no golpe na última terça-feira (veja o depoimento), confirma a tese do delegado. "Fiquei tão nervoso que acabei contando para o bandido não só o nome da minha filha como o endereço da minha casa, todos os números dos meus telefones e o modelo dos meus carros", diz.

O psiquiatra Paulo Argarate, professor de psicologia forense do Complexo Jurídico Damásio de Jesus, lista alguns outros truques usados pelos golpistas do disque-seqüestro: "Eles falam rápido para confundir as vítimas, ligam de madrugada, quando as pessoas estão com a capacidade de discernimento alterada, e falam na terceira pessoa do plural, de maneira a mostrar que não estão agindo sós". Mais persuasivo do que os truques dos bandidos, no entanto, afirma o psiquiatra Ferreira-Santos, é o ambiente de violência em que vivem os brasileiros que habitam as metrópoles. Num cotidiano assaltado por barbáries como o assassinato do menino João Hélio, arrastado até a morte por bandidos, e de Vinícius de Oliveira, queimado vivo com seus pais dentro de um carro, o medo permanente tornou-se um componente da vida das pessoas. "O clima de insegurança é tamanho que ficamos todos esperando que chegue a nossa hora: a nossa vez, ou a de nossos parentes, de ser seqüestrados, assaltados. Quando recebemos um telefonema desses, poucos de nós agimos racionalmente. Só pensamos: pronto, aconteceu." É o Brasil de joelhos diante do crime.

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