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07/10/2009 - Carta Capital Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Golpe nos trópicos

Por: Cynara Menezes


O Rio de Janeiro seria a última parada das inglesinhas Shanti Andrews e Rebecca Turner, ambas com 23 anos, recém-formadas em Direito pela Universidade de Sussex. Depois de nove meses em uma volta ao mundo, as duas planejavam fechar a viagem com chave de ouro, esbaldando-se nas areias cariocas. No ônibus entre Foz do Iguaçu e o Rio, porém, foram roubadas e ficaram sem os celulares, câmeras digitais, laptops e algumas libras esterlinas. Uma história comum – se não fosse mentira para embolsar o dinheiro do seguro.

Em vez de conhecer o Cristo Redentor, as britânicas cruzaram o “portal do inferno”, em suas próprias palavras. Acusadas de estelionato, foram parar na cadeia feminina de Mesquita, da Polícia Civil, onde dormiram de lado, no chão, numa cela suja e superlotada de traficantes, ladras e assassinas. Como não havia descarga no vaso sanitário, o cheiro do lugar era insuportável. Transferidas para Bangu 7, tiveram medo de sofrer abuso sexual por parte das outras presas, que lhes perguntaram de cara se eram lésbicas. Um tour e tanto.

De acordo com pesquisas feitas por agentes de viagem ingleses, um em cada dez britânicos torna-se vítima de golpes durante as sonhadas férias em algum lugar ensolarado do planeta. Com sua pele branquela, câmeras penduradas no pescoço e meias brancas até os joelhos, os gringos costumam ser alvos visíveis de trapaceiros bronzeados e astutos. Tudo indica que, agora, alguns turistas estrangeiros cansaram de ser os trouxas da história.

O golpe que Shanti e Rebecca não tiveram a manha de aplicar está se tornando comum em países do Terceiro Mundo. Funciona assim: antes de sair do país de origem, o turista coloca no seguro de viagem, bastante popular entre os europeus, todos os pertences que vai levar. Chegando a seu destino, depois de curtir alguns dias, aproveita-se da má fama local e dá queixa à polícia do roubo dos itens mais valiosos da bagagem. Isso na véspera da partida, lógico, para dar tempo de escapulir se algo sair errado. Ao receber o dinheiro do seguro, a viagem acaba saindo de graça.

No caso da dupla de inglesas, o barato saiu caro. No início de agosto, conseguiram deixar a prisão para aguardar o julgamento do recurso em liberdade, mas não podem sair do Brasil até a sentença final. Como foram presas em 26 de julho, as férias forçadas por aqui já duram quase três meses e ninguém sabe quando terminarão. “O promotor está abusando do prazo para devolver os autos”, queixa-se o advogado de defesa das moças, Renato Tonini, que, no entanto, vê poucas chances de ter o caso resolvido antes de novembro.

Shanti e Rebecca confessaram o esquema à polícia. Disseram ter ouvido durante a viagem em volta ao mundo relatos de turistas que se deram bem aplicando o golpe do seguro em países onde a violência faz parte da paisagem. Chegaram à Delegacia de Atendimento ao Turista (Deat), no Leblon, e contaram que estavam dormindo no ônibus entre Foz e o Rio quando foram roubadas. O titular da delegacia, Fernando Vila Pouca de Sousa, desconfiou.

“Todo o enredo me pareceu suspeito. Além de terem demorado muito para apresentar a queixa, não é comum esse tipo de ocorrência em ônibus interestaduais”, diz o delegado. Outro fator suspeito foi que Shanti e Rebecca declararam que os ladrões levaram tudo que tinham de valor, mas conservavam os passaportes, o que causou estranheza aos policiais.

Um caso anterior envolvendo duas australianas, que não pôde ser comprovado, também havia alertado o delegado para a possibilidade de que as inglesas pudessem estar mentindo. Quando os policiais foram ao albergue em que elas estavam hospedadas para checar as informações, constataram que, de fato, os objetos supostamente furtados estavam todos lá. Segundo Vila Pouca, é um tipo de golpe que está se disseminando entre estudantes jovens, de origem europeia, hospedados normalmente em albergues.

No ano passado, o austríaco Andreas Erker, de 24 anos, foi à polícia de Belize, na América Central, queixar-se do roubo de seu saco de dormir, do celular e da câmera digital. Os policiais foram investigar e acharam não só os objetos desaparecidos, como uma pequena quantidade de maconha. Erker acabou preso com seu companheiro de viagem, Bernhard Schwaberger, da mesma idade. Por sorte, o cônsul austríaco em Belize pagou a fiança.

Em março, três noruegueses foram presos nas Ilhas Canárias, depois de denunciar o roubo de seus cartões de crédito, dos quais teria sido sacada uma enorme quantidade em dinheiro. Quando a polícia averiguou, eles mesmos tinham gastado a quantia em casas de prostituição. Neste mês, um casal de japoneses tentou aplicar o golpe do seguro na Nova Zelândia e acabou obrigado a ouvir a gozação do juiz, que deu a eles duas possibilidades: recolher o lixo com uma placa no pescoço escrito “sou um ladrão” ou passar sete dias na cadeia.

As inglesas Shanti e Rebecca foram condenadas à prestação de serviços à comunidade. Mas, no recurso apresentado à Justiça, a defesa das garotas argumenta que elas não podem ser enquadradas em estelionato, e sim em falsa comunicação de crime, delito que se encerra com o pagamento de multa. No que depender do Ministério Público do Rio, elas não vão se livrar tão facilmente. “Esse tipo de crime pode parecer pequeno, mas atinge muita gente, pois acaba encarecendo o seguro”, argumenta o promotor Juan Vazquez. “Sem contar os danos para a imagem do País. Elas queriam amortizar a viagem e escolheram o Brasil, porque achavam que é um lixo. Devem ter ouvido: ‘Ah, faz no Brasil que é tranquilo’. ”

Ainda não se sabe que tipo de serviço comunitário as duas advogadas vão prestar ao Rio de Janeiro se a sentença for confirmada. Sugestões não faltam. Como se não bastassem aqueles calçadões largos, pedindo uma vassoura, Shanti e Rebecca puderam constatar in loco o quanto as prisões cariocas andam precisando de uma faxina.

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