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17/01/2006 - Carta Capítal Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Exportação de Mulheres

Por: Marcelo Auler


A pedido das autoridades espanholas, a Polícia Federal vai abrir uma nova investigação no estado de Goiás para identificar três aliciadores de mulheres, acusados de traficar prostitutas para a Europa. A existência deles veio à tona em 24 de dezembro, quando policiais espanhóis prenderam em casas noturnas nas cidades de Castellón e Gandia 37 pessoas, entre as quais 30 mulheres (15 brasileiras), todas se prostituindo. Entre os sete presos acusados de explorar sexualmente as mulheres está a brasileira Andrezza C. O., de 29 anos.


“Ilha da fantasia”.
Mulheres que trabalhavam na casa noturna de Natal chegam à Polícia Federal para prestar depoimento
Além dessas 15 mulheres brasileiras encontradas nas boates de Castellón e Gandia, a polícia, que já há algum tempo vem trabalhando em sintonia e colaboração com a Polícia Federal brasileira, localizou no fim de dezembro outras 28 brasileiras trabalhando em quatro boates das cidades da Galícia e de León. Todas essas quatro cidades ficam ao leste da Espanha, na costa do Mediterrâneo. Em novembro, porém, numa operação casada com uma blitz da Polícia Federal em Natal (RN), a polícia espanhola foi às boates Giralda e La Casita, em Sevilha, no sudoeste da Espanha, onde estavam outras nove prostitutas brasileiras. Ou seja, somente nos meses de novembro e dezembro, segundo informações oficiais enviadas à Polícia Federal, foram localizadas na Espanha 52 brasileiras se prostituindo.

Com essa nova operação da Polícia Federal para localizar os três aliciadores goianos, o estado de Goiás assume a liderança do ranking das unidades da Federação que mais “exportam” mulheres para a Europa, em especial a Espanha e Portugal, por causa da semelhança das línguas.

Nos últimos 14 anos, segundo a Divisão de Direitos Humanos (DDH) da Polícia Federal, dos 328 inquéritos abertos para apurar “tráfico de mulheres para fins de exploração sexual”, 22% foram em Goiás, mais do que nas superintendências do Rio (14%) e de São Paulo (11%).

O chefe substituto da DDH da Polícia Federal, delegado Clyton Eustáquio Xavier, não consegue uma explicação lógica para essa “liderança”. O delegado cita pesquisas que especulam sobre a preferência pelo tipo físico da mulher goiana, mas ele próprio não parece convencido. Para Xavier, faz mais sentido a divulgação informal feita por goianas que já trabalharam como prostitutas na Europa. “Elas tanto podem ter feito divulgação como trabalhado no papel de aliciadoras”, diz.

Entre dezembro de 2004 e novembro de 2005, a Polícia Federal, a partir da troca de informações com a polícia espanhola, fez quatro operações para combater o tráfico de mulheres, resultando em 21 pessoas presas e cerca de 30 prostitutas brasileiras liberadas. Três dessas operações – Castelo (dezembro de 2004), Castanhola (abril de 2005) e Babilônia (agosto de 2005) – ocorreram em Goiás. A quarta foi em Natal (RN), mas começou com uma denúncia feita pela goiana L.B.G., que estava na capital potiguar a caminho da Espanha.

A denúncia levou a polícia a desbaratar um esquema de exploração sexual de mulheres, montado pelo braço brasileiro da organização mafiosa Sacra Corona Unita. Essa organização italiana, baseada na região da Puglia, sudeste da Itália, formada pela associação de mais de 50 clãs, dedica-se ao tráfico de drogas e de mulheres para a prostituição em países europeus. No Brasil, o grupo estava criando uma rede de boates e pousadas para exploração do meretrício em diversos estados.

O chefe deles é Giuseppe Ammirabile, vulgo “Dom Pino”, “Pepino” ou “Pingüim”, de 41 anos, natural da cidade de Mola di Bari, região da Puglia. Sua ficha de antecedentes inclui extorsão, associação criminal, produção e tráfico de entorpecentes, crimes tributários, falsidade, receptação, delitos de natureza financeira, associação criminal de tipo mafioso, associação criminal por fraude, crime falimentar e lavagem de dinheiro, dentre outros, como consta do processo. Ele tinha como braço direito Salvatore Borelli, que administrava os negócios no Brasil e em outros países e já respondeu por falsidade, receptação, fraudes, associação criminal, contrabando, crimes tributários, lavagem de dinheiro e envolvimento com organizações mafiosas.

Também são da quadrilha os italianos Paolo Quaranta – condenado à prisão perpétua no Canadá por duplo homicídio, teve a pena comutada e foi expulso daquele país –, Vito Francesco Ferrante, Simone De Rossi, Paolo Balzano. Ao grupo associaram-se um uruguaio e sete brasileiros, inclusive duas prostitutas que casaram com os italianos.

Apesar do passado comprometido, esses mafiosos estavam no Brasil desde o fim de 2004 e receberam visto de permanência na condição de “investidores”. Beneficiaram-se da Resolução Normativa nº 60, do Ministério do Trabalho e Emprego, que concede esse título a estrangeiros que fazem investimento mínimo de US$ 50 mil no País. Ninguém se interessou em saber a origem do dinheiro investido e o passado dos “investidores”, até serem denunciados pela goiana L.B.G.

Eles compraram na praia de Ponta Negra a boate Ilha da Fantasia, um bar denominado Caipifrutas, uma casa noturna chamada Forró Café e a Pousada Europa, usada para encontros das prostitutas com seus clientes. Tinham ainda uma revenda de roupas femininas da marca Fornarina, a primeira franquia da grife no Nordeste. Os “investimentos”, pelos cálculos do delegado federal Cleiton Teixeira, de Natal, responsável pela investigação, ficaram próximo dos 2 milhões de euros (cerca de R$ 6 milhões) e têm fortes indícios de lavagem do dinheiro ilegal da Sacra Corona Unita.


Tráfico de pessoas.
“Dom Pino”, o chefe do esquema (à esq.), e Borelli, seu braço direito
A polícia está certa de que os italianos desembarcaram no Brasil dispostos a montar um esquema para a exportação de mulheres para casas noturnas na Espanha, em particular a boate Giralda, em Sevilha, da qual Giuseppe era um dos donos. Há no processo notícia da viagem de quatro mulheres, uma das quais já voltou. As escutas telefônicas também registraram Giuseppe prometendo mandar outras.

L.B.G. confirmou que foi para Natal, com outras oito goianas, arregimentadas por um casal de homossexuais – Vânia e Eliane –, todas dispostas a ir para a Espanha trabalhar como prostitutas. O fato de elas terem consciência de que se prostituiriam não modifica a figura do crime de tráfico de seres humanos. O que assustou L.B.G. foi ouvir histórias de uma moça que teria ido, mas não a deixaram voltar. L.B.G. soube que, para garantir o reembolso de todas as despesas da viagem, os proprietários da boate Giralda confiscavam os passaportes pelo tempo necessário para o pagamento da dívida.

O esquema do tráfico internacional foi prejudicado pelas denúncias de L.B.G., no fim de janeiro de 2005, depois de fugir da pousada, apesar das ameaças que tinha recebido. Giuseppe, que durante 2005 foi algumas vezes à Espanha, chegou a tentar se desfazer de sua parte na boate de Sevilha, para dedicar-se aos negócios no Brasil. O comprador, seu amigo e sócio, identificado apenas como Xema, que esteve algumas vezes em Natal, deu-lhe o bolo e não o teria pago. Em Natal, o grupo mafioso já contava até com o apoio de alguns policiais, que certamente ofereciam segurança.

Os planos de Giuseppe incluíam estender os negócios de exploração da prostituição a outros estados. Segundo as investigações, o chefe da máfia vinha fazendo novos acertos. Uma dessas negociações era com o paulista Ibrahim Luiz Fayad, que aparece como dono de uma boate também chamada Ilha da Fantasia, no bairro de Moema, em São Paulo. Giuseppe compraria por R$ 600 mil metade da sociedade, que pertencia ao irmão de Ibrahim, o empresário de Campinas Nagib Fayad, conhecido como “Gibão”, que chegou a ser preso acusado de envolvimento com a chamada Máfia do Apito. Segundo captaram os grampos da Polícia Federal, a compra não vingou porque “Gibão”, ao ser solto, teria se mostrado disposto a trocar os negócios de jogos, que o levaram à prisão, por um maior trabalho na boate.

A polícia levantou ainda que Giuseppe já tinha acertado duas sociedades no Recife para abrir uma boate com uma pousada, tal como em Ponta Negra. Os contratos, com diferentes sócios, já estavam prontos e foram apreendidos. Outras negociações vinham sendo feitas para a abertura de boate e de pousada em Fortaleza. Na maioria dessas “novas casas”, segundo a polícia, Giuseppe utilizaria “laranjas” que o representariam. Com isso, passaria a ter uma ampla rede para o aliciamento de mulheres que, se fosse o caso, depois de trabalhar em boates espalhadas pelo Brasil, poderiam ser mandadas para as casas noturnas do grupo na Europa.

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