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14/08/2009 - Veja Online Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

O golpe do boi gordo

Por: Murilo Ramos

Paulo Roberto de Andrade, que por treze anos captou poupança, não sofreu controle nem investigação.

A empresa Fazendas Reunidas Boi Gordo apresentou-se aos brasileiros pelo rosto carismático do ator Antônio Fagundes. O comercial ia ao ar no horário nobre da televisão e teve seu auge durante a exibição da novela O Rei do Gado, da Rede Globo, em 1997. Há um mês, a empresa foi à lona, teve concordata declarada na cidade de Comodoro, Mato Grosso, onde ficam algumas de suas fazendas, e depois suspensa por um desembargador do Estado. Prevê-se uma longa batalha judicial pela frente. A Boi Gordo afundou com um patrimônio de 530 milhões de reais e dívidas de 750 milhões. Para os quase 30.000 investidores existe a perspectiva sinistra de não conseguir reaver seu dinheiro. Agora que a empresa está em dificuldades sérias, as atenções se voltaram para a figura de seu proprietário, Paulo Roberto de Andrade, de 54 anos, paulista de Santa Cruz do Rio Pardo. Foi dele a idéia de vender ao público a encenação de que é possível produzir mais de 40% de lucro em dezoito meses engordando gado no campo – quando a lucratividade média da pecuária brasileira não passa de 9% ao ano.

Paulo Roberto de Andrade carrega um passado que, num país ainda cheio de preconceitos contra pessoas com algum envolvimento pregresso com a Justiça, faria dele o sujeito menos indicado para estar à frente de uma empresa que saiu por aí captando poupança popular no horário nobre da televisão. VEJA descobriu que o dono da Boi Gordo conseguiu, por razões óbvias, esconder habilmente sua ficha criminal durante todo o tempo em que tocou seu negócio. Antes de se envolver seriamente com a Justiça, Paulo Roberto de Andrade foi vendedor de jóias em Mogi das Cruzes, nas vizinhanças da capital paulista. Depois se mudou para São Paulo. Foi quando seus problemas começaram. Entre 1966 e 1989 – época em que a Boi Gordo já estava estabelecida no mercado, portanto – ele foi alvo de nove processos. As acusações eram sérias. Roubo, agressão contra mulheres e estelionato. Das duas últimas Andrade foi inocentado. Nada se encontrou que pudesse ser usado judicialmente contra ele. Foram sete processos engavetados por falta de provas.

Dois deles, no entanto, foram adiante. Justamente os mais sérios. A acusação: assalto a mão armada. O primeiro em 1966, quando Andrade tinha 19 anos de idade. Ele voltaria a reincidir no mesmo crime em 1967. Foi preso, julgado e condenado duas vezes. Na primeira, a sete anos de reclusão. Na segunda, a quatro anos e onze meses. Quatro anos da pena foram cumpridos no famoso presídio do Carandiru, em São Paulo. No fichário do arquivo morto da instituição há o registro de que Paulo Roberto de Andrade esteve na cadeia entre 1968 e 1972, proveniente do Presídio Tiradentes. Depois foi transferido para a cidade de Bauru, no interior do Estado. Consta de sua ficha policial, ainda, um pedido de recaptura, feito, em 1972, pelo Departamento de Investigações Criminais (Deic) – o que sugere uma fuga. Mas não existe registro positivo sobre esse fato.

Na cidade onde nasceu, Santa Cruz do Rio Pardo, Paulo Roberto de Andrade é lembrado como um jovem um tanto agitado, mas não muito diferente de outros colegas de juventude. A ficha criminal de Andrade foi motivo de extremo constrangimento para os familiares e de conversa entre os velhos companheiros de farra na cidade. "Sei que ele foi preso depois que deixou Santa Cruz. Nós chegamos a conversar sobre a prisão. Todos cometemos erros na vida, essa é a verdade", diz Waldomiro Picicin, vice-prefeito da cidade e amigo de adolescência de Paulo Roberto de Andrade. O dono da Boi Gordo era chamado de "Crica" na infância confortável que desfrutou como filho de Alcides Carvalho de Andrade e Minervina Pereira de Andrade, casal que teve seis filhos e compunha uma família tradicional e rica, pioneira dos tempos da fundação do município. "Ele foi embora cedo e voltou poucas vezes. Não tenho muito contato com meu filho", diz dona Minervina, de 88 anos de idade.

Paulo Roberto de Andrade não quis falar com os repórteres de VEJA que o procuraram. Seu advogado, José Carlos Dias, mandou uma carta à redação sugerindo que seria "crime de difamação" por parte da revista divulgar a ficha criminal de seu cliente. A razão apresentada por Dias era baseada na Lei de Imprensa, que realmente desabona a publicação desse tipo de levantamento quando a pessoa já cumpriu a pena relativa ao crime cometido. A própria lei, porém, ressalva que a publicação dos fatos é legal "se motivada por interesse público". Por se tratar de um captador de poupança popular, um homem a quem milhares de brasileiros confiaram suas economias domésticas, é do interesse público que seu passado seja conhecido. Aliás, seria do maior interesse que esses fatos tivessem sido desencavados ainda nos primórdios da atuação da Boi Gordo. É lícito supor que o passado de Andrade desencorajasse investidores. "Quem cumpre pena não deve mais nada à Justiça. Mas acho que seria complicado para mim entregar minha poupança aos cuidados de alguém com antecedentes como os dele", diz o advogado criminalista Luiz Flávio Gomes.

O negócio do boi gordo não é uma atividade convencional. Nasceu de uma idéia de Andrade e cresceu sem que ninguém prestasse muita atenção ao que acontecia. Só em 1998, quando uma empresa similar à Boi Gordo, a Gallus, do empresário Gelson Camargo dos Santos, conhecido como Gordo Milionário, ficou insolvente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decidiu intervir. Gelson chegou a ter 3.000 clientes e a captar 5 milhões de reais por mês. Quebrou. A CVM estabeleceu, então, que os operadores de empresas ao estilo Boi Gordo seriam enquadrados na categoria de companhias emissoras de contratos de investimento coletivo. Sob essa nova rubrica, teriam de dar mais detalhes sobre as operações da empresa. Nada sobre o currículo dos controladores.

Na semana passada, depois que a Justiça suspendeu a concordata da Fazendas Reunidas Boi Gordo, o empresário reuniu-se com alguns de seus maiores "parceiros", apelido que dá aos investidores. Chorou três vezes durante o encontro, que durou três horas no Clube São Paulo, um ambiente discreto que abriga reuniões de empresários num casarão antigo localizado no bairro de Higienópolis, na capital paulista. Propôs a eles a troca dos títulos da Boi Gordo por papéis de uma nova empresa que estaria criando, a Global Pecuária. Os credores da Boi Gordo, que está sem dinheiro em caixa, passariam a ser acionistas da Global Pecuária e teriam a chance de livrar alguns bens das garras da Justiça. Não houve decisão unânime. Os investidores ficaram de pensar no assunto.

Esse foi o movimento mais recente de Paulo Roberto de Andrade. Outro, mais antigo, data do início do ano passado. Naquela época criou a empresa Colonizadora Boi Gordo. Investiu uma fortuna no novo negócio, que vende títulos em condomínios de fazendas e não é registrado na CVM – portanto não está sujeita a nenhuma fiscalização. Antes da concordata, em agosto, ele transferiu vários de seus diretores na Fazendas Reunidas para a Colonizadora. Na última sexta-feira, o jornal Folha do Estado, de Cuiabá, anunciava o empreendimento de Andrade, na cidade de Comodoro, como se fosse um novo lançamento. Ele tem 154.000 hectares de terra e recebeu investimentos de 35 milhões de reais, de acordo com a notícia.

Paulo Roberto de Andrade está se mexendo para livrar algum dinheiro dos escombros da pirâmide que montou, com a Boi Gordo, e que ruiu em 15 de outubro, quando foi declarada a concordata da empresa. Pioneiro no negócio do investimento em bois, o empresário começou a operar no ramo em 1988, com uma fazenda e apenas dez boizinhos. Um mês atrás contabilizava 111 fazendas e 100.000 cabeças de gado. Simpático, bem-falante, envolvente e perspicaz, um vendedor nato, segundo quem o conhece bem, Paulo Roberto convenceu uma multidão de gente a aderir a seu projeto. As pessoas entregavam dinheiro à Boi Gordo com a promessa de que com ele seriam comprados bezerros. Quando os bois gordos fossem para o abate, dezoito meses mais tarde, os investidores teriam direito a um rendimento de 42%. Em tempos de economia estável essa remuneração é imbatível. Só o mercado de ações, em seus melhores momentos, ofereceu tanto. O empresário parecia tão eficiente e próspero que por quatro vezes foi eleito líder empresarial do setor de pecuária pelo jornal Gazeta Mercantil. Espera-se que seu futuro e o de seus investidores sejam mais prósperos que seu passado.

Antecedentes criminais

Paulo Roberto de Andrade, o dono da Fazendas Reunidas Boi Gordo, foi processado nove vezes entre 1966 e 1989. Foi condenado por assalto a mão armada. Pegou pena de reclusão em São Paulo e no interior do Estado. Para todos os efeitos legais, é homem sem pendências com a Justiça. Mas tem antecedentes criminais.

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