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04/08/2009 - Vooz Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Remédios do SUS viram mercadoria em feira no Ceará

Por: Luciano Dias


O JN faz uma denúncia. Os repórteres Alessandro Torres e Fabiano Moreira foram à feira, mas não para fazer compras. Eles registraram um desrespeito à lei, aos cofres públicos e à saúde.

Entre frutas, verduras e legumes os consumidores das feiras livres de Fortaleza encontram remédios, vendidos em bancas, como qualquer outro produto.

- Remédio para estômago tem aí?
- Tenho ranitidina, tenho hexidina e omeprazol. São os mais conhecidos.

Medicamentos infantis também estão à disposição.

- Esse aqui é o que é pra criança?
- É, R$ 2.
- Tá na validade?
- Claro.

Os remédios são vendidos em cartelas para aumentar o lucro.

- Não vende na caixa não?
- Não. É porque é caixa grande. Porque vem a caixa com 25 envelopes desse.

Em outra feira, o ambulante usa o preço baixo como apelo para o consumidor.

- Não tem mais barato não?
- Não porque esse aqui é barato demais. Sabe quanto é esse aqui na farmácia? É mais de R$ 8. Serve pra garganta, amoxilina.

Ele também oferece um remédio para estômago.

- Você vende a quanto?
- Eu vendo de cinco. É R$ 13 nas farmácias.

Repassamos o número do lote do medicamento para o laboratório que, em nota, informou ter comercializado o produto para distribuidoras e órgãos públicos de vários estados do país, entre eles, a secretaria de Saúde do Ceará. É de lá que são distribuídos remédios para os hospitais públicos e postos de saúde.

Sem saber que está sendo gravado, um homem confessa que revende remédios adquiridos num posto de saúde.

- Você pega remédio aqui todo dia?
- Todo dia.
- Você vende?
- Vendo em todo canto. Na feira.

Para conseguir os medicamentos pelo SUS em quantidade e com frequência os vendedores ilegais usam diferentes artifícios: um deles é passar por consultas simulando algum mal estar. Ao obter as receitas médicas, fazem cópias delas. Com isso conseguem receber os mesmos medicamentos em vários postos de saúde.

A funcionária de um posto diz que nem sempre é possível perceber as fraudes. “Diariamente a gente tem esse problema. Alguns se consultam de manhã, de tarde e de noite em diferentes postos, em hospitais. Outros fazem receitas falsas: tiram xerox colorida das receitas. Ás vezes conseguem o receituário, fazem carimbos falsos e copiam com a própria letra e vem com a receita receber", disse, sem se identificar.

A venda clandestina de medicamentos é crime com pena prevista de 10 a 15 anos de prisão. Os vendedores foram presos em flagrante ao vender centenas de medicamentos numa feira livre.

"Venda exposta ao sol em uma banquinha, quer dizer, são ambulantes clandestinos. Tem antibiótico, antiinflamatórios, moderador de apetite, enfim, são vários medicamentos que eles tiveram acesso. Com certeza foi facilitado para que eles pudessem vender nas feiras livres", disse o delegado Jaime de Paula Pessoa.

O ambulante diz que foi incentivado pela impunidade. "Eu sabia que não era aceitável esse tipo de coisa, mas, como eu nunca tinha visto alguém levar ninguém, eu continuei cometendo esse erro”, disse Manoel Moreira da Silva.

Este também é um caso de saúde pública. A exposição ao ar livre altera o efeito dos medicamentos. "Isso faz com que o medicamento seja inativo, perca totalmente sua atividade. Nesse caso não tem ação no organismo ou pode também trazer algum efeito indesejável ao organismo das pessoas", disse Flávio Nogueira, do Conselho Regional de Farmácia.

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