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19/07/2009 - Zero Hora Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Porto Alegre, o último refúgio de falsificador de dinheiro na II Guerra

Por: Daniel Feix

Judeu ucraniano recrutado por operação de falsificação terminou seus dias no sul do Brasil.

Perseguido pelos comunistas em sua Ucrânia natal, pelos nazistas por sua condição de judeu e pela Interpol por suas atividades como falsificador de dinheiro – a história do pintor Salomon Smolianoff sintetiza parte da própria história do século 20, porém do ponto de vista de alguém que passou a vida na obscuridade, encondendo-se em diferentes países, nas mais variadas circunstâncias. O capítulo mais conhecido dessa trajetória foi revelado em Os Falsários, filme austríaco que ganhou o Oscar de melhor longa estrangeiro de 2008 e que estreou por aqui no mês passado. O mais misterioso se deu em Porto Alegre.

Alguns registros indicam que Sally, como era conhecido, nasceu em 1899. Mas a data que consta em seu túmulo, localizado no Cemitério Israelita Porto-Alegrense, confirma o que ele contava para amigos e ex-colegas de ateliê em seus últimos anos, vividos na capital gaúcha: seu nascimento se deu em 1897, em Kremenchuk. A juventude e grande parte de sua formação Smolianoff teria passado em Odessa, cidade do litoral da Ucrânia que antes da Revolução Russa era apontada como a mais cosmopolita daquele país e, também, a mais judia de todo o grande território soviético.

O verbo condicional se justifica pelas dificuldades de rastrear seus deslocamentos. Livros e arquivos da Interpol disponibilizados na internet pelo jornalista Lawrence Malkin contam parte da história, mas, desde sua chegada a Porto Alegre, em meados dos anos 1950, tudo fica mais nebuloso – ao menos para os pesquisadores europeus e americanos, que não tiveram contato pessoal com ele.

– Sally vivia num apartamento de dois quartos que também usava como ateliê e oficina de criação de brinquedos artesanais, que vendia para ganhar a sua graninha – conta Magaly Amaral da Costa, 70 anos, que trabalhou durante uma década para Smolianoff.

Ele morou na Capital até morrer, em 1976, sempre no mesmo endereço: Avenida João Pessoa, ao lado do terreno sobre o qual hoje está erguido o Shopping João Pessoa e onde, à época, costumavam se estabelecer circos que passavam pela cidade.

– O Sally se ocupava pintando retratos das pessoas. Os brinquedos, quem de fato criava era a mulher dele, Charlotte, sempre inspirada em animais, palhaços e outras figuras que via nos circos – lembra Suely Franco da Silva, 72, bióloga que também foi empregada pelo ucraniano.

Segredos e mentiras

A vida em Porto Alegre, no entanto, era muito discreta. As auxiliares de ateliê relatam que poucas pessoas o visitavam. Nem o próprio nome Salomon fazia questão de espalhar.

– Ele dizia se chamar Sali – relata Magaly, enfatizando que, na grafia, Smolianoff usava apenas um L e o I. – Sempre que precisava fazer alguma carta comercial, pedia ajuda para a gente. Conhecia bem a língua portuguesa, mas tomava muitos cuidados com documentos oficiais.

O motivo das precauções era óbvio, mas só veio à tona, para quem convivia com ele no Brasil, quando a revista O Cruzeiro estampou em sua capa, em 26 de novembro de 1960, a manchete “Exclusivo: rei dos falsários foge do passado”. “Vocês chegaram a ver a Cruzeiro?”, perguntou Sally aos colegas de ateliê no dia seguinte, referindo-se ao texto de Tabajara Tajes e às fotos que Antonio Ronek fez do próprio Smolianoff e de um delegado que havia acabado de passar relatos à Interpol. Diante das respostas sempre afirmativas, não restava outra alternativa ao homem que não admitir que fora mais do que um simples prisioneiro judeu na II Guerra Mundial.

Sally foi o principal falsário recrutado pelo oficial nazista Bernhard Krüger naquele que até hoje costuma ser apontado como o maior programa de falsificação de dinheiro da história – a Operação Bernhard, levada a cabo pelos comandados de Hitler entre 1942 e 1945 buscando desestabilizar a economia dos Aliados. Hábil retratista e anticomunista convicto, Smolianoff já trabalhara na falsificação de notas russas com o objetivo de incomodar o governo bolchevique da União Soviética desde que fugiu para a Turquia, nos anos 1920. Era, coisa que o exército alemão não demorou a descobrir, o maior “talento” não só dos 142 falsificadores reunidos por Krüger no campo de concentração de Sachsenhausen, mas o melhor entre todos os falsários até então descobertos – e o único capaz de criar libras esterlinas falsas tão verossímeis que enganaram até as instituições financeiras britânicas.

Os dilemas morais e os conflitos de consciência em Sachsenhausen, que são o melhor do excelente longa-metragem dirigido pelo austríaco Stefan Ruzovitzky – que alternativas tinham aqueles judeus para não colaborar com seus próprios inimigos? –, não acabaram com o fim da guerra.

– Sally tinha uma tristeza no olhar que era absolutamente indisfarçável. Isso o tempo inteiro, ao longo de todos os anos – observa Suely. .

O monitoramento ininterrupto da Interpol, na Itália, no Uruguai e onde mais Smolianoff tenha morado antes de Porto Alegre, incentivou-o a manter discrição e assim tornar – quase – obscura a história de seus últimos anos de vida. Mas, mais que isso, lembrava-o a cada instante de que, além de ser um simples pintor de retratos e vendedor de brinquedos, ele carregava uma culpa para sempre inexpiável.

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