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16/05/2009 - Portal Terra / New York Times Escrever Comentário Enviar Notícia por e-mail Feed RSS

Cientistas criam novo método para identificar mentiras

Por: Benedict Carey


Antes de qualquer interrogatório, da avaliação através de espelhos falsos, das negociações ou da rotina de tira bom, tira mau, oficiais da polícia investigando um crime precisam fazer uma decisão traiçoeira: a pessoa interrogada está sendo honesta ou inventando contos da carochinha? A resposta é crucial não apenas para identificar potenciais suspeitos e testemunhas confiáveis, mas também para o destino da pessoa sendo interrogada. Aqueles que se saírem mal podem se tornar possíveis suspeitos e passar horas no negócio perigoso da pergunta confrontadora e transformadora de vidas: serão ou não culpados?

Até recentemente, os departamentos de polícia tiveram pouco suporte sólido de pesquisas que guiasse seus instintos. Mas agora cientistas forenses começaram a testar técnicas que eles esperam poder fornecer a oficiais, interrogadores e outros um tipo de teste de honestidade, um método para separar as histórias falsas das verdadeiras.

O novo trabalho se concentra no que as pessoas dizem, não em como reagem. Ele já transformou o trabalho policial de alguns países e certas técnicas novas começam a ser usadas em interrogatórios nos Estados Unidos.

Em parte, o trabalho surge da frustração com outros métodos. Em média, mentirosos não evitam o olhar mais que pessoas dizendo a verdade em uma entrevista, reportam pesquisadores; nem se inquietam, suam ou reclinam na cadeira com maior freqüência. Eles podem produzir distintas e fugazes mudanças de expressão, dizem especialistas, mas ainda não está claro como analisá-las.

Nem os avanços tecnológicos se mostraram muito úteis. Nenhuma máquina de exame cerebral pode distinguir com confiança uma história falsa de outra verdadeira, por exemplo; o mesmo para polígrafos, que registram mudanças na fisiologia como uma detecção indireta de mentiras.

"Focar no conteúdo é uma ótima idéia", dadas as limitações do que se faz atualmente, disse Saul Kassin, professor de psicologia da Faculdade de Justiça Criminal John Jay.

Um princípio amplo e direto mudou o trabalho da polícia na Grã Bretanha: procure informação, não uma confissão. Em meados dos anos 1980, após casos de falsas confissões, as cortes britânicas proibiram policiais de usar certas técnicas agressivas, como mentir sobre provas para provocar suspeitos, e exigiram que os interrogatórios fossem gravados. Os policiais agora trabalham para reunir o máximo de evidências possível antes de interrogar um suspeito, e não fazem distinção entre a chamada entrevista investigativa e um interrogatório, explica Ray Bull, professor de psicologia forense da Universidade de Leicester.

"Essas entrevistas soam como um bate-papo em um bar", disse Bull, que, com colegas como Alder Vrij da Universidade de Portsmouth, foi pioneiro na pesquisa da área. "É como aquela série antiga, 'Columbo', em que ele finge ser um idiota, mas reúne uma série de provas."

Bull, que analisou inúmeras gravações de interrogatório, disse que a polícia não registrou queda no número de confissões, nem grandes injustiças a partir de confissões falsas. Em um levantamento em 2002, pesquisadores na Suécia descobriram que interrogatórios com menor confronto eram associados a maiores chances de confissão.

Mesmo assim, pesquisadores forenses não abandonaram a busca por pistas verbais em interrogatórios. Em análises de o que as pessoas dizem quando estão mentindo ou falando a verdade, eles encontraram diferenças tentadoras.

Kevin Colwell, psicólogo da Universidade Estadual do Sul de Connecticut, já colaborou com departamentos de polícia, funcionários do Pentágono e até agentes de proteção à criança que precisavam checar a veracidade de testemunhos conflitantes de pais e filhos. Ele explica que pessoas tramando uma história preparam um roteiro estreito e com parcos detalhes.

"É como ser surpreendido pela sua mãe quando criança, quando você cometeu erros realmente óbvios", disse Colwell. "Bem, agora você trabalha para evitá-los."

Ao contrário, pessoas dizendo a verdade não seguem roteiro, tendem a se lembrar mais de detalhes irrelevantes e podem até cometer erros. Elas são mais negligentes.

Psicólogos estudam há muito tempo formas de ampliar esse contraste. Inspirados nos trabalhos de Vrij e da doutora Marcia K. Johnson, de Yale, entre outros, Colwell e o doutor Cheryl Hiscock-Anisman da Universidade Nacional em La Jolla, Califórnia, desenvolveram uma técnica de entrevista que parece ajudar a distinguir a verdade da mentira.

A entrevista é comedida, mas exigente. Primeiro, a pessoa tem uma lembrança nítida, como o primeiro dia de faculdade, para que os pesquisadores tenham uma base de como a pessoa se comunica. A pessoa, então, relata livremente o evento sendo investigado, lembrando tudo que aconteceu. Após várias perguntas pontuais ('Será que um policial diria que um crime foi cometido?', por exemplo), o entrevistado descreve o evento em questão mais uma vez, acrescentando sons, odores e outros detalhes. Vários outros estágios se seguem, inclusive um no qual a pessoa deve se lembrar do que aconteceu reversamente.

Em vários estudos, Colwell e Hiscock-Anisman relataram uma diferença consistente: pessoas dizendo a verdade tendem a adicionar de 20% a 30% mais detalhes externos do que aquelas mentindo.

"É assim que a memória funciona, por associação", disse Hiscock-Anisman. "Se você está falando a verdade, essa restauração mental de contextos acrescenta cada vez mais detalhes externos."

Não é bem assim quando você tem uma história confeccionada e decorada. "É a diferença entre uma árvore toda florida no verão e um galho seco no inverno", explica o doutor Charles Morgan, psiquiatra do Centro Nacional para Transtorno de Estresse Pós-Traumático, que testou a técnica para alegações de trauma e com soldados de operações especiais.

Em um estudo recente, psicólogos fizeram com que 38 graduandos entrassem no gabinete do professor para ou roubar um exame ou substituir um que tivesse sido roubado. Uma semana depois, metade disse a verdade nessa entrevista estruturada e a outra metade tentou não se incriminar, mentindo na entrevista. Um prêmio de US$ 20 foi oferecido aos melhores mentirosos.

Os pesquisadores usaram quatro avaliadores treinados, que não sabiam quais estudantes mentiam, para examinar as transcrições a partir do tamanho das respostas e da riqueza de detalhes acrescentados, entre outras coisas. Eles categorizaram corretamente 33 das 38 histórias como verdadeiras ou mentirosas.

O estudo, cujos co-autores foram Amina Memon, Laura Taylor e Jessica Prewett, é um dos muitos que apresentam resultados positivos de 70% ou mais de precisão.

Nesse verão americano, Colwell e Hiscock-Anisman vão ensinar a técnica no Departamento de Polícia de San Diego, que tem uma força de cerca de dois mil oficiais. "Você realmente desenvolve uma antena própria ao interrogar pessoas por tantos anos", disse Chris Ellis, tenente da força que convidou os pesquisadores a realizar o treinamento. "Mas estamos abertos a qualquer coisa que facilite nosso trabalho e nos torne mais precisos."

Essa abordagem, por mais promissora que seja, tem suas limitações. Ela se aplica apenas a uma pessoa falando sobre o que aconteceu durante um período específico - não a fatos individuais como "Você viu uma pasta vermelha no chão?". Pode ser pouco adequada também para alguém traumatizado ou não interessado em falar, disse Morgan. E tem poucas chances de apontar a pessoa que muda um pequeno, mas crucial, detalhe na história - "Claro, estava lá, dei uns murros, mas não sei nada sobre faca alguma" - ou, ainda, o especialista ou mentiroso patológico.

Mas a ciência está evoluindo rápido. Bull, Vrij e Par-Anders Granhag da Universidade Goteborg, na Suécia, estão descobrindo que desafiar as pessoas com peças de provas anteriormente reunidas, gradualmente as introduzindo durante o interrogatório, aumenta a pressão sobre mentirosos.

E tudo isso pode ser feito sem ameaças ou abuso, que torna as coisas mais fáceis para policiais e suspeitos. Columbo, ao que parece, não está mais restrito à TV.

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